quarta-feira, 25 de maio de 2016

Definição: ideologia

O conceito de ideologia está diretamente relacionado ao desenvolvimento do marxismo, seja como teoria, sejam como práxis política efetiva. Daí que, para colocar uma definição concisa e dentro do contexto do desenvolvimento do marxismo, preferi traduzir a definição presente no Dicionário histórico do marxismo.

No Manifesto Comunista, Marx escreve “As ideias da classe dominante em todas as épocas são as ideais dominantes”, e isso é o aspecto chave da sua teoria da ideologia. Para Marx a ideologia é, ao mesmo tempo, uma visão distorcida da realidade e uma visão que serve aos interesses da classe dominante. A teoria marxista da ideologia desenvolvida em seus escritos permaneceu consistente com a noção de que a ideologia envolve uma percepção invertida da realidade, mas uma inversão que está no fim das contas enraizada na própria realidade. Por exemplo, a crítica da religião por Marx segue a visão de Ludwig Feuerbach de que a consciência religiosa inverte a realidade quando diz que Deus criou o homem, porque, na realidade, Deus e a religião são constructos humanos. Entretanto, Marx vai além de Feuerbach na busca da causa profunda da consciência religiosa, a qual ele diz estar num mundo onde as pessoas são infelizes, irrealizadas e oprimidas e procuram conforto na religião. Então o problema não consiste apenas de falsas ideias que podem ser combatidas com verdadeiras, mas uma realidade deficiente que produz falsas ideias: então a realidade precisar ser alterada de modo a mudar tais ideias.

Marx, com sua perspectiva dialética, identifica contradições na realidade, no sistema econômico, por exemplo, as quais ficam obscurecidas por ideias distorcidas, e tais distorções ideológicas que em geral servem aos interesses da classe dominante, não podem ser eliminadas apenas por meros contra-argumentos, mas unicamente pela resolução das contradições reais do mundo que deram origem a elas. Em seus escritos tardios sobre o capitalismo, Marx discute como o mercado dá aparência de um sistema livre e igualitário, com trabalhadores livres para venderem sua força de trabalho e a igualdade entre homens e mulheres. A ideologia burguesa com seu enfoque sobre a liberdade, direitos e propriedade reflete essa aparência distorcida. Sob a superfície de um sistema de troca, entretanto, está a verdade da desigualdade e da falta de liberdade, quando a mais valia é gerada pela força de trabalho de proletários explorados por seus patrões capitalistas e negado o seu acesso aos meios de produção. Para Marx ideologia é um termo empregado crítica e negativamente.

Marxistas tardios desenvolveram uma visão mais neutra da ideologia como um termo para a totalidade de formas da consciência social. Em outras palavras, a ideologia passou a ser vista por marxistas como Georgi Plekhanov como parte da superestrutura, como ideias refletindo as condições da base material. Eduard Bernstein descreve o marxismo em si como uma ideologia sem em nenhum momento tecer com isto um comentário crítico ou negativo; E Vladimir Ilich Lênin desenvolve uma visão da ideologia como significando a consciência política de classe, assim há uma ideologia proletária oposta a uma ideologia burguesa. Georg Lukács segue Lênin e descreve o marxismo como ‘a expressão ideológica do proletariado’, também percebendo a ideologia como um campo principal da luta entre a burguesia e o proletariado. Antonio Gramsci desenvolveu uma teoria de ideologia ligando-a ainda mais à sua noção de hegemonia e a luta por dominação entre as classes. Para Gramsci o domínio da classe dominante é alcançado tanto pela ideologia quanto pela força e a ideologia é uma completa concepção de mundo que permeia todos os aspectos da vida. Essa visão traz muito mais significação ao papel dos intelectuais e das instituições ideológicas, como igrejas e escolas. Gramsci, especificamente, identificou quatro níveis da ideologia: filosofia, religião, senso comum e folclore. Louis Althusser fez distinções entre a teoria da ideologia em geral que diz respeito à ideologia como uma força de coesão na sociedade e a teoria de ideologias particulares as quais dizem respeito à ideologia como um meio para se atingir a dominação por uma única classe. Ele vê a ideologia como um nível relativamente autônomo na sociedade, parte da superestrutura, refletindo interesses, fatores sociais e econômicos. Althusser contrasta a ideologia com a ciência, esta última como uma prática autônoma que busca unicamente a verdade e o conhecimento; e o marxismo ele divide nos primeiros escritos ideológicos e nos escritos científicos tardios, existindo o que ele chama de ‘ruptura epistemológica’ a separar os dois períodos.

Traduzido de WALKER, D. & GRAY, D. Historical dictionary of marxism.  Lanham, Maryland: The Scarecrow Press. 2007, pp. 148-9

Embora a definição acima seja bastante sucinta, ela consegue relacionar bem o desenvolvimento do pensamento marxista com o termo ora definido. Porém, é recomendável para uma percepção mais ampla a leitura de textos introdutórios, como o ‘O que é ideologia’, da professora Marilena Chauí, parte da Coleção Primeiros Passos editado pela editora Brasiliense.

Também da professora Chauí se pode fazer uma leitura bastante proveitosa do “Cultura e Democracia, o discurso competente e outras falas”, editado pela Ed. Moderna, com ressalvas à abordagem que nele se faz da 'objetividade'.

O excelente ‘Ideologia, uma introdução’ de Terry Eagleton é assaz recomendável (São Paulo, Ed. Unesp, 1997).

O governo da inação


Blairo Maggi saiu-se hoje com a diatribe de que o Brasil não precisa de infraestrutura de armazenagem. Que o que existe aí está muito bem, obrigado. E que a infraestrutura privada (quase inexistente) é melhor e mais competitiva que a pública.

Sim, e Kátia Abreu, ex-ministra da agricultura, era uma parva completa. Aliás, todos no ministério. Estavam a fazer obras desnecessárias, pois a Conab não precisa de obras.

Aliás, se pode ir bem mais adiante: que o modal de transporte hegemônico no Brasil, o rodoviário, é excelente. Que é altamente eficaz e a qualidade das estradas brasileiras é comparável, sem exagero, às melhores Autobahnen alemãs.

No Brasil inexiste atoleiros nas estradas estaduais do Mato Grosso do sul, Pará, Goiás, Tocantins. Tampouco há intermináveis filas de caminhões amontados perto do Porto de Paranaguá toda vez que a safra de grãos é escoada.

E o Brasil não usa o caminhão como uma espécie de 'silo móvel', não só pela ausência de silos de verdade para planejar o escoamento... Pois é, dada esta falta, veio a safra e tem que por tudo na estrada porque não há onde guardar. Mas o Blairo Maggi diz...

O governo interino se notabiliza por ter uma agenda negativa: não diz o que fará, simplesmente trava o que estava a ser feito e diz que menos será feito em vista da retomada de investimentos.

É a melhor pirueta retórica que se pode ter: dizem exatamente que, para retomar o investimento, tem que cortar o investimento, acabar com programas e gastar menos.

E esboçam planos que prevem ainda maior austeridade num fiscalismo tão insano que as propostas apresentadas pelo Ministério da Fazenda não contemplam um eventual aumento da receita tributária - isso mesmo, se aumentar a receita, não se tem previsão de como que e onde usar o dinheiro. Fica-se a imaginar onde vão enfiá-lo.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Abril mais quente

Temperaturas globais no registro geológico

A mídia noticiou hoje que o mês de abril passado foi o mais quente da história do planeta. Gostava de saber o como é que pode isto.

Se isto implica, por exemplo, que o pessoal da Nasa (a quem atribuem a sandice) estava aqui a quatro bilhões de anos a medir as temperaturas num dado mês de abril. Notem que o calendário gregoriano não tem sequer quinhentos anos de existência: e é nele que o tal abril existe.

Será que os colegas da Roscosmos também não estavam a dar uma forcinha?

E o pessoal da ESA, Agência Espacial Europeia, seguramente estavam a postos, com termômetros e satélites de toda sorte a mensurar as temperaturas durante a extinção do Permiano. Num mês de abril, é claro.

Aposto que alemães estavam a manejar os instrumentos de medição. Já num cálido abril do Proterozóico.

Sobre mais dados sobre a temperatura e a fonte do gráfico acima: https://www.climate.gov/

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A desinteligência da Direita

Direita Burra

O meme acima explicita algo trivial: é sabido que na disputa política há uma propensão dos adversários a ignorar a pauta que se lhe opõe. O problema, porém, é que a Direita, em geral, sequer compreende a pauta da Esquerda.

Não se trata dessa propensão, porém: a Direita simplesmente não percebe sequer o contexto das manifestações estudantis.

E aí é que o meme mostra o ridículo da oposição binária nele imaginada: os estudantes paulistas não estão a protestar contra a PM, como acha o autor do meme postado hoje.

Os estudantes paulistas estão a protestar por uma educação de melhor qualidade e contra o acinte que é a máfia da merenda.

Mas não se ficará aqui na evidente desinteligência do meme, apenas. A oposição imaginada entre uma coisa e outra é mais significativa para o autor dessas linhas, pois a Direita não percebe a raiz de uma proposta, como as que giram ao redor das políticas acerca das drogas recreativas. Pensa numa oposição binária do tipo ‘polícia versus bandido’ ou ‘bom x mau’, basicamente como crianças as pensam.

A Direita é tão pobre que sequer se dá conta que a Esquerda tende — sempre — a ser favorável à liberação das drogas. Todas.  Aí, protestar contra o traficante, então, seria nonsense [na acepção de que é contrário ao bom senso — a Esquerda protesta pela liberação!]. A Direita, todavia, não se apercebe disto. Ignora por completo a bandeira da descriminalização das drogas simplesmente por não compreendê-la.

Em termos bastante simples, o problema do tráfico de drogas é que ele simplesmente é invencível: nenhuma sociedade consegue vencê-lo. Para ser bem simples, citando a ideia de William Burroughs (seguramente o mais extremado dos beatniks): enquanto existir alguém disposto a usar, haverá alguém a vender. É inexorável.

Todas as sociedades humanas em todas as épocas conviveram com o uso de um ou outro tipo de droga. Nenhuma delas, nem as que tiveram ou têm o ideal da ascese como os cristãos calvinistas ou o islã wahabita atual dos sauditas, conseguiram bater a propensão humana ao uso de drogas recreativas — a recorrente importação ilegal de bebidas alcoólicas é sintomática do problema na Arábia Saudita.

O problema básico da droga é deixar a produção, distribuição e consumo criminalizados, levando pessoas inutilmente à prisão. E está é a bandeira clássica da Direita e sua única política.

Não há políticas diferentes, há apenas a canção de uma nota só: combate às drogas/tráfico ou guerra às drogas/tráfico. O que varia, sempre, é a tolerância da Direita com o narcotráfico, ora cresce, ora diminui.

Mesmo assim, entretanto, em uma boa quantidade de sociedades modernas, como Uruguai, Estados Unidos [no nível estadual] e uma boa quantidade de países europeus, o consumo é descriminalizado.

O problema, porém, é que a distribuição é criminalizada — e, por conseguinte, a produção com este fim —, embora a produção para consumo próprio já não o seja na maior parte dos casos.

A permanência da distribuição como crime, num mercado mundial que movimenta mais de um 1% da economia total ou cerca de 800 bilhões de dólares, serve exclusivamente para oxigenar as artérias do crime organizado em todo mundo.

E a face mais infame desta situação é a quantidade de pessoas, seja pela necessidade ou pelo desejo de status, que se envolvem nessa teia e acabam presas. É o que acontece com o vapor que começa a traficar menor de idade e, regra geral, termina morto em confrontos com a polícia antes dos vinte e cinco anos.  Ou com o caminhoneiro que, em vista de um ganho convidativo, acaba por transportar em seu veículo drogas e, terminando por ser preso, deixa desamparada a família da qual ele era o arrimo.

Evidente mostra do potencial desestruturador da atual situação da criminalização das drogas.

E nenhuma dessas atuações modifica o status quo. O grande traficante segue solto e, caso seja preso, outro imediatamente lhe substitui. E a infiltração nas estruturas políticas de poder pelo tráfico é bem conhecida, embora mascarada. A situação do México é salutar a esse respeito.

O caso do ‘helicoca’ com meia tonelada de pasta base de coca no Brasil é evidente. Um senador da República, Zezé Perrela do PTB, imbricado no tráfico e hipocritamente mascarado pelas estruturas de poder estabelecidas: pelo Judiciário de Federal, pela Polícia Federal e pela imprensa tradicional. Vale lembrar que nenhum envolvido está preso, não obstante o flagrante e o fato de ter sido mostrado ao público.

Documentário sobre o Helicoca:


Enfim, com a descriminalização todos ganham:

  • A sociedade em geral, pois cessará a maior fonte de renda do crime organizado, que financia toda sorte de atividades ilícitas;
  • a renda que antes ia para o crime, irá para o Estado na forma de tributos;
  • os tributos arrecadados podem ser usados na pesquisa científica, seja para descobrir uma cura ou tratamento eficaz para a dependência química, bem como remédios em outras áreas — o que já acontece com a maconha.
  • o problema de saúde pública comum nas grandes cidades causado pelo consumo do craque poderia ser combatido de forma mais eficaz;
  • não se perderiam tantos jovens para o crime organizado e a redução da violência urbana seria significativa.

 No Brasil a descriminalização está em curso, já não é mais crime consumir ou mesmo produzir a Cannabis para consumo próprio e existem manuais pela web que ensinam como se obter alguns remédios a partir dela.

A resposta da Direita, porém, continua forte apesar do avanço da descriminalização. E o resultado dela nos EUA, México e Afeganistão, por exemplo, são claros:

  • Os Estados Unidos são os principais consumidores de cocaína e metanfetamina do mundo, onde em quase todos os estados quase toda distribuição criminalizada (salvo a Cannabis em alguns estados);
  •  O México é o principal fornecedor de entorpecentes para os EUA, onde os cartéis põe o norte do país em permanente estado de guerra civil (para se ter uma ideia do poder de corrupção do tráfico, o fundador dos grandes cartéis no México nos anos oitenta era um diretor da PF mexicana) e a caça dos grandes traficantes é inócua dada a atividade ser hierarquizada — El Chapo Guzmán que o diga — e também pela sua força de atração numa sociedade altamente excludente;
  • o Afeganistão é o maior produtor de heroína de mundo (em torno de 80% a 90% do total — o México tem conseguido aumentar) e a  sua renda financia o terrorismo internacional. Se produção/distribuição da heroína fosse prática legal na Europa e Rússia — maior consumidor mundial de heroína, com mais de um milhão de usuários —, os terroristas perderiam a fonte de renda, logo a sua força. Sem mencionar o impacto sobre a saúde pública.

O uso das drogas recreativas é um fenômeno complexo, com uma multiplicidade de efeitos embora tenha uma causa relativamente simples. A percepção da Direita, porém, é míope acerca de quase todos os seus efeitos. Apenas enfoca o fenômeno pelo prisma da coerção, da eliminação de algo que é inerente à natureza das sociedades humanas sem qualquer esforço de compreensão aprofundado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Parlamentarismo para ingênuos

Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.

Me apetece ver o parlapatão mor da república, encarnada na invejosa e ressentida figura do vice-presidente da República, Michel Temer, a falar em parlamentarismo.

Embora tenha sido outrora reconhecido como um entendedor do direito constitucional, no entardecer da vida, preferiu ele o abjeto papel de urdidor do golpe ao lado da ratazana infecta que preside a câmara baixa do Legislativo.

Mas o que surpreende e mesmo diverte é que esse senhor, não sei se por demência senil ou mau caratismo, fala em trazer à baila, para depois do pleito de 2018, o tema do parlamentarismo.

Isto serve aos ingênuos, aos idiotas, talvez. A forma de governo, como prevê a constituição, deve ser escolhida por plebiscito. E o foi em 1993, quando o presidencialismo foi escolhido pela maioria dos brasileiros. Se querem discutir o parlamentarismo, discutam-o, Recomenda-se até que se faça na Universidade. Vão lá ter com o Limongi.

Ah, querem fazer por via parlamentar? Tudo bem, não há mal nisto. O fato é que para tanto se deve convocar uma nova constituinte. Isso mesmo. Nada de reforma. Só com outra constituição ou plebiscito.

Mas, é verdade, no momento presente serve a Constituição como ornamento do discurso de juízes narcisos afeitos aos seus vetustos brocardos a brilhar como ouro falso. Afinal, o Legislativo liderado por um gângster pode fazer o que lhe der na veneta (certo da obediência dos ratos da câmara baixa) com a certeza de que o Judiciário está-se nas tintas. A isso chamam independência dos poderes. Um republicanismo de bom tipo, matizado por gordos aumentos no ordenado.

Entretanto - e isso é bom - a coruja de Minerva ainda não pousou.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Internet ilimitada nunca existiu

O que a Anatel está a fazer ao consumidor com a diminuição da quantidade de dados trafegáveis numa conexão nada mais é que atender um desejo das operadoras. E qual é o desejo? Aumentar os lucros. Sem nenhuma contrapartida. Isso mesmo, querem por franquia porque às operadoras pareceu apetecedor aumentar os ganho às expensas do couro alheio.

E da maneira mais fácil e simples, sem investimentos, sem melhorias, oferecendo menos por mais: isso mesmo, há uma majoração do preço de cada byte baixado pelo usuário sem qualquer justificativa que não a ganância das operadoras.

E não, NUNCA HOUVE INTERNET ILIMITADA! É uma baboseira, uma estupidez obscurantista dizer que antes era ilimitada: a velocidade de conexão, como a vazão de uma torneira, limitava quantidade de dados, quanto mais alta, mais dados. Sempre foi assim, nunca houve nenhum plano ilimitado em nenhum lugar do mundo porque não existe velocidade de conexão ilimitada (se fosse era só baixar a internet e navegar offline. Duh!). Portanto, as pessoas devem parar de acreditar nessa idiotice.

E não há como engabelar o consumidor. Uma conexão relativamente lerda, de 2 Mpbs (conexão na casa de 250kpbs), pode baixar teoricamente cerca 550Gb em um mês. A de 4Mbps (cerca de 500 kilobytes por segundo), cerca de 1,1 terabyte. Mas isso, como já dito, é teórico.

Isso porque a Anatel garante por contrato que as operadoras vendam um serviço ruim, pior que o contratado: elas podem ofertar somente 80% da velocidade e o usuário não pode reclamar - notou que o consumidor já está a levar gato por lebre? E isso faz parte dos regulamentos da infame Agência. Para além disso, tal quantidade de dados somente pode ser atingida se uma dada conexão conseguir, dentro de um mês, 100% de conectividade com a velocidade máxima permitida. Só que isso não existe, a 'torneira' da conexão jamais chegará aos 550 gigas ou 1 tera num caso ou no outro porque há falhas, as operadoras diminuem a velocidade e o serviço costuma cair. Dito de forma mais simples: o serviço já é ruim e isso está e contrato (isto é, é garantido que será ruim)

E, dos teóricos 550 Gb de dados que uma conexão de 2Mbps poderia trafegar, as operadoras querem oferecer apenas 10GB de franquia. No cálculo teórico isso não representa sequer um dia de conexão à plena nessa conexão lenta, que pode baixar cerca 18,6 gigas em 24h. O que vão oferecer é um insulto descabido ao consumidor. Querem sambar na cara do povo: o que você poderia baixar em dezesseis horas será a cota de um mês inteiro!!! E a Anatel apoia as operadoras! Diz que será bom para o consumidor! É surreal, mas é isso mesmo que o cínico do João Rezente, presidente da Anatel, disse. Agência Reguladora? Sim, regula o tamanho da tira de couro que pretende arrancar do lombo do consumidor para dar às operadoras.

João Rezende deve pensar que somos todos idiotas incuráveis, retardados que ficam a babar diante do computador, a digitar com os cotovelos.

Mas João Rezende consuma o escárnio ao consumidor ao dizer que não há mais capacidade instalada para todos. Quer dizer que a Telefónica ao comprar GVT - operadora que não impunha franquia e oferecia as maiores velocidades nas sua área de atuação - teve sua capacidade diminuída? Claro! Seguramente logo após a compra, para deixar tudo no padrão habitual da Vivo, os espanhóis da Telefónica colocaram ratazanas mais vorazes que o Eduardo Cunha para roer o cabeamento de fibra ótica, além de elfos birutas munidos de alicates, marretas e lança-chamas, para deitar abaixo até derreter o cobre dos fios e, assim diminuir, num passe de realismo fantástico, sua capacidade de transmissão de dados.

O que ocorre é que as operadoras  (que também vendem  TV por assinatura) não querem apenas faturar mais, querem ganho fácil e escandaloso. Especialmente sobre o consumidor e sobre empresas que fornecem streaming de vídeos do Youtube, Vimeo, Daily Motion ao Netflix e toda sorte de empresas, escolas, universidades que oferecem cursos à distância - que, nesse modelo se tornarão inviáveis. Afinal em um, dois ou três dias de aulas o usuário consumirá toda a franquia. E como fará o curso? Ou paga mais à operadora ou está lixado. Ou que se lixe ainda mais e pague a modalidade de curso presencial, sabidamente mais cara.

Quem ganha com essa rapinagem evidente são as operadoras e somente elas: terão lucros majorados ao mesmo tempo em que a despesa operacional cairá vertiginosamente. O consumidor, por outro lado, não poderá mais ver vídeos como antes, não poderá fazer cursos online como antes, não poderá baixar programas como antes — e aquele que trampa em casa e depende da internet, trabalhando como designer, programador, consultor, produtor de audiovisual, etc., estará lixado, para não dizer completamente inviabilizado. Mas segundo o Rezende ser escorchado, explorado, pilhado é bom.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Sílvio Costa



A Câmara dos Deputados é surpreendente. As verdades sobre a oposição de direita vem de onde menos se espera.
Publicado por Jean Wyllys no dia nove de março de 2016.


Sobre as tolices da oposição política à direita na Congresso Federal, o deputado Sílvio Costa, do PT do B de Pernambuco, tem algumas palavras muito interessantes. Inclusive a de recomendar à presidente Dilma Rousseff que faça as viagens oficiais não em avião, mas no lombo de jumento, em homenagem à própria oposição [dada a obtusa crítica da presidente a fazer uma viagem em avião oficial para São Paulo em visita ao ex-presidente Lula: imagine a chefe do executivo fazendo viagens em voo de carreira?].

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Obtusidade econômica e cinematográfica


O mesmo embotamento intelectual característico da direita política está a se tornar algo bastante comum na esquerda. A estupidez, outrora vista como privilégio da direita está a se ramificar a passos largos pelo chamado campo progressista, a esquerda, com qual, não obstante essa mazela, o autor destas linhas se identifica. Veja-se pois um exemplo disto:



O raciocínio presente no fragmento do vídeo acima estaria correto se:
  1. Usássemos o ouro (ou qualquer outro metal) como unidade de valor, isto é, como moeda, meio de troca exclusivo; e

  2. Todas a reservas do mundo (me refiro ao universo) desse metal estivessem esgotadas e não usássemos nenhum outro metal, ao contrário dos tempos de Pitágoras, como a prata, bronze, cobre ou papel como meio circulante, tal qual se faz hoje, tendo-se, então uma oferta absolutamente fixa do meio de troca, a moeda.
Assumindo essas duas premissas, o tipo do vídeo está certo. Mas nesse caso, como nos tempos de Pitágoras, não precisaríamos de bancos. Também não existiria inflação, ao contrário dos tempos de Pitágoras, onde se podia, ainda, buscar por mais ouro, seja por pilhagem de outras cidades, impérios, etc., ou pela exploração de minas.

Mas ainda existiria um problema, o qual no vídeo acima não é relatado: a criação de valor, a mais valia.

Ora, se o meio circulante tem oferta fixa e os indivíduos continuam a trabalhar, há deflação dada a maior oferta de valor em bens/serviços. Por isso que ninguém gosta de deflação: ou alguém topa receber cada vez menos pelo que faz?

E é isso que faz o papel moeda interessante: como sua oferta é controlada pelos BC's e seu valor é garantido por uma convenção (com força de lei), a coisa fica mais complicada - e muito mais em países que viveram surtos hiperinflacionários, como o caso da Alemanha na década de vinte do século XX ou o Brasil ao cabo do mesmo século: afinal, se a oferta de moeda (nesse caso, papel moeda) é abundante, o preço nominal de bens e serviços têm tendência à alta frente a moeda. E isto é acentuado quando um Estado não tem meios de honrar suas contas e, simplesmente, imprime cada vez mais dinheiro para pagar seus compromissos, levando à queda do seu valor frente aos bens produzidos num dado momento. A questão é ainda mais perniciosa porque o papel é um material potencialmente infinito. A Alemanha, no início do século XX, teve um surto inflacionário tal que calculava o preço das mercadorias pelo peso do dinheiro.

Os bancos centrais mundo afora têm o papel bastante específico de regular a oferta de dinheiro, ao fazê-lo conforme o crescimento econômico como um todo e pela oferta de crédito, regulando os bancos (não que seu papel seja, como se faz no Brasil, basicamente controlar a inflação naquele regime tacanho de metas de inflação, onde se usa como única ferramenta a taxa de juros referencial para controle da oferta de dinheiro).

A questão que o vídeo não dá conta,  seja na Espanha, Portugal, Grécia ou Brasil, além dos EUA, é termos o setor financeiro (des)regulado de modo a fazer a sociedade funcionar como um imenso mecanismo de transferência de valor, na forma de rendas, do setor produtivo ao financeiro.

Por sistema produtivo me refiro basicamente ao assalariado ou ao tipo que se acha muita coisa (se identificando com a burguesia) e, ainda assim, depende do basicamente do seu trabalho. As corporações ajustaram aos novos tempos e elas têm um ganho financeiro espetacular exatamente por operarem como bancos: financiar seus produtos é mais rentável que vendê-los diretamente ou a fazer outras patifarias: basta recordar idiotas na Sadia que, tempos atrás, resolveram fazer um dinheiro fácil no mercado de derivativos norte-americano poucos tempo antes da crise de 2008.

A mercadoria 'derivativo' é uma indecência (e não mudou muita coisa de 2008 pra cá, os bancos continuam a fazer pilantragens), a Sadia quase faliu, foi encampada pela Perdigão e ainda teve parvos a dizer que a Sadia tinha uma 'vocação financeira' (quando existia vários outros meios de ter ganhos financeiros, como, por exemplo, seu congêneres norte-americanos fazem: escorchando seus fornecedores via contratos fixos e metas elásticas, no qual o tipo se endivida com a empresa e, se não pagar, a empresa encampa a granja e arrenda ao seu antigo dono: a perfeição da desregulamentação financeira): uma empresa maior pode fazer o que bem entende, dada a assimetria de poder econômico, com seus fornecedores numa ponta e com os consumidores na outra.

Tendência à rapinagem todo mundo tem. A questão é que o sistema financeiro tem de ser rigorosamente regulado: desde os anos setenta, porém, (consistente com os EUA finalmente acabarem com conversibilidade ouro/dólar) ele vem sendo desregulado e se tem o que aí está: países inteiros a trabalhar para enriquecer banqueiros, desigualdade e concentração de renda cada vez maiores - onde o 1% mais rico no mundo detém mais riqueza que os 99% restantes - e um vídeo, perdoem a rudeza, estúpido como esse: trata a oferta monetária como fixa e põe a culpa nos bancos de maneira absolutamente infantil. Ainda mais quando a moeda, o referencial de valor, é feito da mesma matéria prima potencialmente infinita com a qual se faz seu congênere muito menos nobre e romantizado, mas talvez mais útil: o papel higiênico, presente em quase todos os banheiros do mundo a limpar cotidianamente a bunda das pessoas.

O problema presente é de ordem política: foi por ela que se permitiu a desregulação dos mercados e é por ela que se mudará tal quadro. E não por uma interpretação bisonha como esta bizarramente presente num trabalho audiovisual: será que atores, produtores, roteiristas, cenógrafos, toda aquela imensa equipe destinada a esse tipo de produção não percebeu a obtusidade? E ainda com o uso infame do nome de Pitágoras num contexto absurdo?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Por que falar de Vargas?

Em 2004, quando dos cinquenta anos da morte de Vargas, a AEPET, Associação dos engenheiros da Petrobrás, publicou um texto homenageando-o. As mesmas perseguições que Vargas e, depois, Juscelino sofreram estão presentes hoje, talvez de forma mais acintosa e grotesca.

Grotesca porque, apesar da concentração dos grupos de mídia e sua ação cuidadosamente orquestrada, visa em boa parte mascarar as enrascadas que a própria direita se envolve, como o fato de, por exemplo, Aécio Neves ter sido citado no Circo da Lava Jato e sequer ter sido investigado: ao contrário se preferiu 'investigar' uma canoa de lata de quatro mil reais de Lula e as cebolinhas cultivadas na horta do sítio que não é dele. Mas o que se sabe sobre a meia tonelada de pasta base de cocaína no helicóptero dos Perrela? E o terço do Aécio? A PF, o MPF e o Judiciário tomam partido por traficantes engravatados contra líderes trabalhistas? Ordenam prender um tipo que já está preso (Dirceu)?

A mídia, em conluio agentes públicos tresloucados, que vazam o que lhes convém para criar um factoide por dia, une o insulto à injúria: com perdas e danos. Ano a ano meios noticiosos alternativos crescem e ganham credibilidade, algo que na empresa oligopolista tradicional se dá inversamente: os outrora grandes jornais perdem 10% de suas tiragens ano a ano e ainda conseguem perder relevância inclusive na web dado seu afã na desinformação golpista. O mesmo sucede na mídia televisiva. Não se pode, porém, pensar que esse conluio está fadado ao fracasso. A perda de prestígio relativa os fazem tomar um curso de ação desesperado, com o judiciário não a seguir a pauta midiática, mas por vazamentos altamente seletivos e literariamente engenhosos, ordenar que se prenda alguém que, dias antes havia se oferecido voluntariamente para depor. Nem O Processo de Kakfa foi tão engenhoso.

Como disse um tipo arguto hoje: estamos no pior momento desde o AI-5. Pouco a pouco, nesse afã golpista, os direitos constitucionais estão a ser tolhidos sob as barbas do MPF e do Judiciário, que deveria ser seu defensor.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Voto impresso, por que não?

Depois de um longo tempo volto aqui dada a discussão sobre a segurança do voto eletrônico e o retrocesso da sua versão impressa. Algumas conjecturas importantes ocorreram-me. E é bastante plausível que o voto impresso não se trate de um retrocesso.

Urna com voto eletrônico impresso

Afinal, se sistemas eletrônicos são seguros, por que os governos russo, chinês, israelense, iraniano e norte-americano preferem um tipo de tática, a guerra cibernética, para tirarem vantagem uns dos outros? Não foi assim que os chineses conseguiram os 'blue prints' do Lockheed-Martin F-35 (que nem está operacional ainda!) e os códigos de seus softwares?

Se sistemas eletrônicos são seguros, por que os iranianos, que o Ocidente e a mídia lacaia os tomam por broncos, conseguem interceptar, controlar, pousar e, maravilhas, fazer uma cópia por engenharia reversa de um drone: o Lockeed-Martin RQ-170, o mais secreto e furtivo de todos os drones já produzidos pelos EUA?

Se sistemas eletrônicos são seguros, por que no cotidiano pedestre as pessoas vivem a ser presas fáceis de especialistas em eletrônica tão hábeis em burlar a segurança de certos programas/sistemas? O sequestro de dados, afinal, tem se mostrado uma profícua atividade de pessoas inteligentes e elástica moral.

Se sistemas eletrônicos são seguros, por que as forças militares de certos países são tão proficientes em desenvolver equipamentos Elint (covert intelligence-gathering by electronic means) e ECM (electronic countermeasure)? Russos e israelenses são especialmente capazes nisso, os primeiros têm até, em seu arsenal, bombas de pulso eletromagnético, capazes, sem nenhuma gota de sangue, de inutilizar qualquer equipamento eletrônico. E, curioso, os norte-americanos têm versões de aviões militares especialmente dedicados à guerra eletrônica há muito tempo, como o EA-6B Prowler, o EF-111A Raven e, desde 2009, o EA-18G Growler, baseado no F/A-18E, aquele mesmo que, entre outros, perdeu a concorrência FX-2.

Se sistemas eletrônicos são seguros, por que desde os anos de 1930, há mais de oito décadas, as potências militares desenvolvem modos de encriptar suas comunicações? A Enigma alemã, largamente usada na Segunda Guerra Mundial e a sua decriptadora, a Ultra, são exemplos bem claros. Alan Turing protagoniza tal processo dramatizado num  belo filme, The imitation game, com Benedict Cumberbatch como Turing - recomendo a toda gente (se alguém viu, veja novamente). Ademais, as máquinas de Turing, depois conhecidas como computadores, nascem exatamente da necessidade buscar uma falha, ou seja, quebrar um código! A Apple em seu logotipo homenageia Turing: uma maçã, talvez envenenada, foi a última coisa que ele comeu.

É da natureza de todo sistema eletrônico a vulnerabilidade e a propensão a falhas (coisas que são reconhecidas em contrato, vide, por exemplo, o seu contrato de uso do MS Windows ou qualquer 'termos e seviços' de porcarias eletrônicas, do seu e-mail ao seu 'internet banking').

Dito isso, não se pode confiar naqueles que dizem que o voto inteiramente eletrônico, sem versão impressa aferível, é seguro. Os que advogam isso não estão apenas desinformados: eles têm um interesse mascarado. Somente uma pessoa incapaz intelectualmente não percebe a natureza dessa 'polêmica' A questão é fundamental, afinal se trata da segurança do processo político e democrático de uma nação de mais de duzentos milhões.

Não há sistema eletrônico online invulnerável. Se alguém diz que existe é um doido de pedra, um ingênuo ou um sobejo canalha - como tantos na imprensa e, provavelmente, na Justiça Federal.