segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

Relatório conceitual de tipo exaustivo

O presente trabalho tem como objetivo efetuar um relatório conceitual de dois textos de Metodologia Teórica. Antes de cada relatório segue a sua referência bibliográfica. No primeiro deles preferiu-se dar título a cada uma de suas seções descritas, assim a seção “I” foi intitulada como “introdução”, a segunda como “objetividade” e assim por diante. Em ambos os textos foi elaborada uma estrutura de tópicos e subtópicos com vista a uma enumeração sintética dos conceitos e argumentos tratados.

Oliveira Filho, José Jeremias de. Reconstruções metodológicas de processos de investigação social. Revista de História (FFLCH-USP), No 107, vol. LIV, ano XXVII, Julho – Setembro de 1976, pp. 263-276.

Relatório Conceitual Exaustivo:

I. Introdução

O texto faz sua introdução ao tratar de renascimento da questão filosófica em todos os níveis das ciências sociais, ligada a fundamentação de suas teorias, reorientação de objetivos e programas através de um discurso metodológico no âmbito de cada uma das disciplinas como móvel para o progresso da ciência a partir de sua fundamentação filosófica. Além disso, diz que no Brasil estão sendo dados os primeiros avanços metodológicos e, assim, pretende-se a uma estratégia de investigação em metodologia teórica.

Passa-se então a uma elaboração de uma estratégia de investigação metodológica ao se mencionar alguns dos atributos das ciências sociais e de sua metodologia, isto é, de como se fará o recorte de investigação diante de posturas interpretativas possíveis, tendo como enfoque:

  1. O relacionamento do método de investigação com o objeto, e isso, de um ponto de vista analítico, diz mais que assumir uma ou outra corrente explicativa;
  2. Indagações metodológicas tendo em vista a estruturação histórica da ciência e seus problemas decorrentes;
  3. Enriquecimento dos procedimentos explicativos na ciência social de acorde com a racionalidade científica;
A seguir é dito que são duas as possíveis formas de se interpretar a problemática do conhecimento científico:

  1. Estrutural ou sincrônica, que diz respeito a “determinado momento da história de uma ciência”, tendo um caráter “compreensivo” de acordo com situação do conhecimento científico em questão;
  2. Genética ou diacrônica, concebida como uma história da ciência, ainda que não linear, tratando da gênese histórica dos conceitos, teorias, explicações e técnicas da ciência;
A combinação desse dois enfoques interpretativos pode vir a originar uma teoria da história da ciência. Além disso, através desse dois enfoques é possível situar a ciência em seus “estágios”, “etapas” e “níveis”, sendo possível desse modo, verificar a formação da estrutura do conhecimento científico. Isto pode ser conjugado com os chamados “pressupostos racionais” da prática científica. Tais pressupostos são observados na crítica da ingênua “sociologia imediata”, que não conhece a relação entre o conhecimento científico construído e os “problemas científicos” que vem a ser estruturados, e que são fundamentalmente relacionados com os problemas da realidade cotidiana sobre os quais a ciência virá a se debruçar. Dito de outra forma, a “sociologia imediata” não percebe que a prática científica é socialmente determinada e é sobre esse meio social, cotidiano que ela virá a ser estruturada. Desse modo, é dito que são duas as condições de existência das ciências sociais:

  1. A existência do objeto concreto, a “realidade social objetiva a ser investigada”, que é a condição ontológica;
  2. A construção de seus conceitos, hipóteses e teorias, sua condição lingüística;
A metodologia terá por objeto a linguagem das ciências sociais, será uma metaciência, um “discurso do discurso”.

II. Objetividade


No texto é dito que na ciência, no âmbito da problematização teórica, é necessário tomar decisões sobre que caminhos devem ser seguidos na consecução das explicações. Essas decisões, imprescindíveis à construção da ciência, não devem somente ficar no âmbito da esfera de valores, posto que se refere a uma discussão importante à ciência, a da objetividade. E também porque tal objetividade depende do nível de desenvolvimento que a ciência atingiu, isto é, depende de “técnicas de objetivação”já incorporadas pela ciência, ainda que a objetividade completa jamais seja alcançada, mas nem por isso não seja buscada.

III. Linguagem e universo pesquisado

Neste pondo são definidas “as duas classes de entidades” contra as quais a ciência deverá “efetuar sua polêmica”:

  1. A primeira delas é a linguagem, as entidades lingüísticas enquanto teorizações e explicações que “demonstram” a realidade objetiva e são historicamente condicionadas.
  2. A segunda delas é a extensão, delimitada pelo conjunto de eventos passíveis de investigação chamado de universo de pesquisa. O conjunto de universos de pesquisa é chamado de universo de disciplina.

IV. Problemática social e problemática científica da ciência social: orientação teórica

O objeto trabalhado pela ciência é um “constructo” erigido de acordo com as normas científicas estabelecidas. Isso pode acontecer em certa obscuridade para o investigador, mas uma orientação teórica adequada clarifica a situação e evita que a “experiência cotidiana dos homens” seja confundida com “experiência cientificamente instaurada”, que é baseada na primeira.

V. Critérios metodológicos:

Aqui é dito que a investigação social deve seguir critérios elaborados de acordo com a prática científica, isto é, de acordo com o processo interpretativo adequado e aceito pelas práticas anteriores que foram bem sucedidas. Estes critérios não estão “dados”, devem ser escolhidos e a investigação se realizará de acordo com os níveis de conhecimento científico:

  1. Universo de pesquisa;
  2. Sistema tecnológico – métodos e técnicas de pesquisa;
  3. Sistema teórico – hipóteses, conceitos, esquemas conceituais e teorias;
  4. Metateórico – fundamentos lógicos, epistemológicos e ontológicos da ciência social;

VI. Atributos da metodologia

    1. Fundamentar as teorias e técnicas científicas a partir do objeto da metodologia teórica que é linguagem científica;
    2. Justificação e crítica que permitem escolher linhas explicativas alternativas, isto é, entre conceitos, hipóteses e teorias;
    3. Uma investigação metateórica dotada de recursos lógicos, epistemológicos e ontológicos adequados juntamente com a interpretação dos diferentes níveis de conhecimento científico originam reconstruções metodológicas;
    4. O uso de um instrumental de época, isto é, de “ferramentas” lógicas, epistemológicas e ontológicas disponíveis e a crítica e análise de reconstruções metodológicas anteriores;
    5. A metodologia poderá ter papel construtivo no sentido de reorientação das atividades de pesquisa, sem que, no entanto, seja o único canal para tanto.

VII. Sobre a reconstrução metodológica

Sobre a reconstrução metodológica, pode-se listar as seguintes características:

  1. Descritiva – realizando a explicitação dos fundamentos, numa “etnografia” metodológica e classificação dos enfoques teórico-metodológicos que orientam a pesquisa, denominados esquemas base;
  2. Crítica, orientadora de estratégias de investigação;
  3. Esquemas-base: são os esquemas teóricos de fundamentação, estruturados em grau maior ou menor de complexidade entendidos como pressupostos racionais da investigação. A utilização e compreensão dos esquemas-base não são tomadas pelo investigador na sua totalidade, o mesmo valendo para todas suas conseqüências metateóricas;
  4. Estes esquemas-base podem ser associados a outros esquemas de diferentes matrizes interpretativas, podendo também ter função normativa;

VIII. Caracteres da reconstrução metodológica:

Aqui são citados alguns dos caracteres constitutivos da reconstrução metodológica, isto é, alguns termos que estão presentes em seu discurso e que tem funções variadas:

  1. Expressões conceituais que mantém a coerência do esquema base, sem referência científica direta, não tendo “aplicação reconstrutiva imediata”;
  2. Expressões conceituais que “relacionam elementos externos ao esquema base”: é através dessas expressões que se pode testar a eficiência das reconstruções aos processos de investigação;
  3. O “instrumental teórico metodológico”, que deve ser compatível com o problema a ser tratado. Este “instrumental” escolhido ressalta as escolhas efetivadas na busca da adequação da interpretação de um dado objeto;
  4. Diferenciações entre as “decisões instrumentais” e a natureza do objeto constituem-se nos dois pontos extremos da “metateoria hierárquica”;
  5. As reconstruções teóricas não são “totalizantes”, ao contrário, são abertas e provisórias;
  6. Os níveis de atividade científica, de acordo com esse estudo, são “estruturados” e reestruturados de acordo com o “objeto reconstruído”.

IX. Anatomia das reconstruções metodológicas

  1. Tipos de metodologia:
  2. Implícitas;
  3. Explícitas;

X. Elementos da estrutura da reconstrução metodológica

  1. Expressões ou enunciados operativos;
  2. Expressões conceituais;
  3. Expressões de fundamentação – plano mais importante da reconstrução metodológica;
    1. Essa caracterização, entre duas espécies distintas de metodologia, tem como finalidade não se reduzir a metodologia a uma de suas possíveis formas e, também, para que ela não venha a ser uma mera descrição de conceitos e técnicas utilizados;
    2. Critérios de classificação das metodologias explícitas:
      1. Quanto à classificação dos processos de investigação social – funcionalismo, estruturalismo, sociologia dialética, etc.;
      2. Classificação quanto instrumental lógico, epistemológico e ontológico: fundamentação analítica, dialética, hermenêutica ou pluralista, oriunda do relacionamento entre as anteriores;
        1. As metodologias implícitas “podem ser passíveis de reconstrução ou tratar-se de novas estratégias teórico-metodológicas de investigação em fase de implantação”.
Conclusão
O texto deixa claro que há uma ambigüidade nas ciências sociais, a da busca de uma metodologia específica para a ciência social que seja geral, servindo como semântica da linguagem semântica e, de outro lado, existe a necessidade de se usar um método especifico que seja adequado à natureza dos processos sociais. Diz ainda que é necessário, do ponto de vista das reconstruções metodológicas, o relacionamento de enfoques teóricos diferentes para e explicação dos fenômenos sociais. A metodologia deve seguir seu papel enquanto orientadora das estratégias de investigação social, sendo importante e imprescindível veículo de “crítica e da morfologia” das ciências sociais.

Oliveira Filho, José Jeremias de. Patologias e Regras Metodológicas. Estudos Avançados [Instituto de Estudos Avançados – USP], vol. 9, No 23, Janeiro – Abril de 1995, pp. 263-268.

Relatório conceitual exaustivo

O texto tem como foco a caracterização de certos problemas presentes na ciência social e trata das regras metodológicas com vista a solucionar esses tipos de problemas. Aqui será seguida sua estrutura expositiva, na qual os problemas são “descritos” na parte inicial e, no fim, são dadas algumas “soluções” aos problemas tratados na forma de regras metodológicas.

    • Problemas metodológicos, patologias:
    1. Ecletismo metodológico: é definido pelo mau uso de conceitos e sistemas explicativos, consiste em usar tais esquemas fora de seu contexto adequado, isto é, fora de seu alcance e significância, sem defini-los, em inversões de significado, etc. O discurso científico eclético é, de acordo com esta acepção, desprovido de sentido e significado;
    2. Reducionismo: Consiste em reduzir o escopo teórico de uma disciplina em uma única corrente metodológica ou, simplesmente, nos usos de procedimentos de outras ciências sem critica adequada. O mais típico é aquele que reduz a metodologia das ciências sociais às técnicas usadas pelas ciências naturais, sendo um reducionismo de tipo empirista;
    3. Dualismo: é caracterizado em cindir a metodologia das ciências sociais, nomeadamente as de caracterização hermenêutica e dialética, em relação às disciplinas das ciências naturais. Assim, o tratamento dos “fatos” num âmbito lógico-positivista seria típico das ciências naturais e não das ciências sociais. O diálogo metodológico entre as ciências naturais sociais é impedido e perde-se a possibilidade de uma rica interação. Nada é dito acerca das ciências normativas ou formais. O texto segue dizendo: nada é dito sobre esta postura, com se os autores desconhecessem, por exemplo, a lógica formal como gramática profunda de seu discurso [p. 265].

      • Regras metodológicas: são convenções aceitas na prática científica que delimitam sua forma. São definidas pelo seu caráter pragmático, isto é, pela sua adequação dos procedimentos na compreensão do objeto. Além disso, as regras têm função na constituição e reconstrução da ciência, servem para estabelecer os critérios com base nos quais se decidem as tecnologias de pesquisa, teorias, esquemas conceituais e fundamentos alternativos [p. 267].
      • Soluções das patologias metodológicas:
      • Solução da “proposta reducionista”: menor rigidez no enfoque da “unidade metodológica” das ciências sociais, como faz Popper, ao romper critérios de demarcação entre filosofia social e sociologia usando regras metodológicas diferenciadas tais como o “individualismo metodológico” e a lógica situacional;
      • Solução da “proposta dualista”: é simples, e consiste justamente em fazer o contrário do que fizeram os próprios “dualistas” e “reducionistas”. Os primeiros enfraqueceram o diálogo entre as demais ciências, mas fortaleceram sua unidade metodológica; os segundos aprimoraram as técnicas de pesquisa, a “tecnologia de pesquisa”, mas enfraqueceram a atividade meramente reflexiva [ponto forte dos primeiros]. A solução é, obviamente, “mesclar” esses dois pontos distintos, agindo intencionalmente na busca de um “justo-meio” entre tais propostas, evitando seus exageros;
      • Solução da “proposta ecletista” – o pluralismo metodológico: a “solução pluralista” consiste não só numa resposta ao “ecletismo”, dado que sua amplitude permite dizer que ela seja a melhor forma de relacionar os variados ramos interpretativos das ciências sociais. Contrariamente ao ecletismo, claro está, a consideração pluralista dever ser rigorosa. Há dois sentidos do pluralismo metodológico:

        • O primeiro pode ser interno a uma teoria da ciência, exemplificado no na metodologia de Popper;
        • O segundo, “externo”, é visível na incorporação crítica de atributos metodológicos de diferentes correntes teóricas. Habermas é um exemplo claro de “pluralismo externo”.

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