quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Comentários sobre o conflito EUA/Iraque

A geopolítica da força

É certo que duas coisas são pretendidas com a invasão do Iraque. A primeira delas e de longe a mais importante é assegurar o fornecimento de petróleo a preços razoáveis para economia norte-americana, o maior consumidor no mundo atual. O segundo é garantir a supremacia dos EUA frente a potenciais rivais. Não se pode considerar o conflito como um embate de forças anglo-americanas e iraquianas [1].

Esses objetivos dependem, claro está, de dois fatores fundamentais, (I) o sucesso militar e (II) da legitimidade que as forças norte-americanas conseguirão angariar na região.

Estes dois estão intimamente ligados, dado que o sucesso militar não residirá apenas na vitória pura e simplesmente. A ocupação do Iraque terá que ser bem sucedida. É muito provável que os EUA consigam isto, num primeiro momento nas terras ocupadas por curdos e iraquianos xiitas [2] . Nos locais onde há população sunita, nomeadamente na região do entorno de Bagdá, a situação será mais difícil, existindo a possibilidade de que os EUA não consigam impor seu poder, e isto de forma muito semelhante ao Vietnã ocupado pela França, depois pelos EUA, ao Afeganistão ocupado por soviéticos ou, para se ir mais longe, à Hungria ocupada por tropas alemãs na Segunda Guerra Mundial.

Isto é dito tendo em vista que há, de forma generalizada, um sentimento anti-americano no Iraque sunita, que são os partidários de Hussein – e tal sentimento é demonstrado não só no Iraque como em todo Oriente Médio ou por todo Islã [cerca de um bilhão de fiéis em todo o mundo].

Caso a guerra de propaganda realizada concomitantemente aos ataques militares dê certo, os EUA poderão fazer uma invasão “tranqüila” em Bagdá. É muito provável que isto não seja conseguido, o comportamento exibido pelos iraquianos sunitas já próximos de Bagdá encontrados pelo Exército norte-americano é bastante esclarecedor a esse respeito.

Especulações Diversas
Cenário I: Estados Unidos bem sucedidos.

Guerra curta, convencimento da população iraquiana de que Monsieur Hussein é um monstro – ou que foi realmente morto –, legitimidade norte-americana alcançada, contorno das rivalidades étnicas e religiosas, isto é, do conflito entre sunitas, xiitas e curdos no Iraque e, para completar, a atenuação do confronto árabe-israelense [3] . Disso resulta ganhos de ordens distintas:

  1. Geoestratégicos, ao se assegurar um posicionamento militar avançado na região, próximo do Irã e sul da Rússia e o controle do Golfo Pérsico;

  2. Econômicos, já que impedirá a comercialização de petróleo em euros por Bagdá – o que viria a assegurar a supremacia do dólar como moeda internacional por mais algum tempo. Isso é dito tendo em vista que alguns países árabes, entre eles a Arábia Saudita, pretendem vender petróleo num futuro não tão distante em euros. A Federação Russa, atualmente maior produtora mundial de petróleo, apesar de não possuir a maior reserva, é um dos maiores fornecedores do óleo para a Europa vendendo parte da produção já em euros – uma “afronta” a supremacia do dólar. Assim, o controle do Iraque por parte dos EUA será vital para assegurar fornecimento de petróleo barato e, por outro lado, como já se disse, a supremacia do dólar que possibilita aos EUA gerir seu gigantesco déficit público simplesmente remetendo dólares no estrangeiro;
  3. Diplomáticos, se a guerra for vencida em pouco tempo, isto é, no máximo em três meses, gerará dividendos diplomáticos porque ficará fácil “comprovar” que o governo iraquiano possuía armamentos proibidos e era adepto de práticas coercitivas desumanas para com os seus compatriotas, além de reiterar o imenso poderio dos Estados Unidos. Não importa de que forma isto será feito, afinal de contas pouco se relata nesta Segunda Guerra do Golfo sobre os 137,5 mil mortos no primeiro conflito e, se é assim, é provável que se comprove que o arsenal iraquiano de armas proibidas existia através de uma campanha que envolva propaganda, desinformação e o uso de imagens antigas relatando os “fatos” encontrados no Iraque. Esse tipo de procedimento já foi adotado diversas vezes pelos Estados Unidos, tanto no período do marchatismo na Guerra Fria, na Guerra do Vietnã e atualmente – é só se observar a mídia norte-americana sonegando informações à população a pedido do governo republicano.

Cenário II: Guerra prolongada, Estados Unidos mal sucedidos.

As forças norte-americanas serão inteiramente mal sucedidas caso os combates mais acirrados excedam mais de noventa dias. Por combates acirrados entende-se o que está acontecendo em Basra, o cerco a uma grande cidade por tropas que não conseguem penetrá-la [4] . Tal problema está sendo enfrentado, ao que parece, por todo o conjunto de tropas norte-americanas no território iraquiano [5] .

Esta perspectiva parece estar sendo comprovada pelos acontecimentos iniciais da guerra, que explicitam sérios equívocos por parte dos estrategistas do Pentágono, dado que se esperava uma resistência nula ou muito baixa pelas forças norte-americanas o que não ocorreu, exposto pelos encarniçados combates na forma de guerrilhas por todo território iraquiano e, inclusive, com possibilidades de manobras por parte do poder central em Bagdá quando consegue enviar tropas regulares para combates localizados no sul do Iraque.

A ofensiva americana, por não possuir uma frente ao norte, conta com dificuldades para estabelecer posições nessa mesma região. Com o uso de pára-quedistas conseguiu-se controlar aeródromos, mas isto não deve ser considerado como definitivo, já que as linhas de abastecimento estão irregulares e assegurar essas posições por via aérea exige não só cobertura aérea de ataque, mas um enorme conjunto de transportes – o que está muito difícil obter pela forma como se dispôs as linhas de combate: espalhadas ao longo de uma linha 300 Km no interior do território iraquiano.

É certo que a força invasora dispõe de recursos suficientes para manter seus soldados na região. Entrementes, a vitória militar não está assegurada em virtude de que a ocupação não está sendo bem sucedida. Civis estão armados, as forças regulares estão dispersas na população civil, as cidades – de maioria xiita inclusive [6] – estão impenetráveis, a guerrilha estabeleceu-se como regra de combate.

Caso os acontecimentos aconteçam deste modo não promissor, estará dado um péssimo período para o a geopolítica dos Estados Unidos em todos os aspectos possíveis e imagináveis. Do lado oposto, isto é, a partir da ótica dos Estados que concorrem com os EUA no sistema internacional quanto pior, melhor. Estes Estados são representados em três blocos principais: China e Japão no Extremo Oriente; Federação Russa (ou G-4 [7] ) com preponderância na Europa Centro-Oriental e Ásia Central; e, por fim, a União Européia encabeçada por Alemanha e França com margem de manobra factível em todo mundo Ocidental e Oriente Próximo.


Notas

[1] A participação do Reino Unido é inteiramente supérflua, mesmo contanto com cerca de 45 mil homens em combate. Se comparado com o poder norte-americano na região, incluindo-se os novos contingentes que entrarão em combate nas próximas semanas, a participação britânica é insignificante: 320 mil norte-americanos contra 45 mil britânicos, sem se falar de espanhóis, poloneses e australianos, que sequer ultrapassam os 2 mil.
[2] Ainda que isto não esteja acontecendo, é provável que no decurso dos combates essa legitimidade possa ser alcançada, mesmo que a perspectiva seja bastante sombria quanto a isso – a oposição iraquiana no Irã negou a existência de uma possível revolta dos xiitas contra os partidários de Saddam Hussein, o que é bastante esclarecedor.

[3] Atenuação do conflito árabe-israelense em virtude de que uma vitória rápida possibilitaria a instauração de um governo títere e, com isso, uma maior margem de manobra para a geopolítica norte-americana na região. Isto porque com vistas à legitimação deste poder no Iraque um maior cuidado diplomático será necessário.

[4] A mídia internacional afirmavam que havia cerca de mil milicianos pró-Saddam Hussein na cidade. Isto é uma piada de mau gosto, já que as tropas que estão atacando a cidade, britânicas, totalizam cerca de 40 mil homens. A resistência iraquiana é, certamente, bem maior.

[5] E sendo proporcionalmente mais difícil nas grandes cidades.

[6] Talvez os xiitas estejam resistindo porque, além do ódio compartilhado pelo Islã como um todo em relação aos norte-americanos, provavelmente eles não esqueceram que quando houve a Guerra Irã-Iraque, os Estados Unidos apoiavam Saddam Hussein para em 1991 e por toda década de 90 atacá-lo e, agora, tentar destituí-lo do poder pela força. Dito de forma bem simples: traição, e os xiitas iraquianos, apoiados pela oposição xiita baseada no Irã sabem muito bem disso.

[7] Confederação formada pela Federação Russa, Belarus, Cazaquistão e Ucrânia, totalizando 20 milhões de Km2 e cerca de 230 milhões de habitantes.

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