terça-feira, 30 de setembro de 2003

Sobre o óbvio

Escolha uma das sentenças abaixo e leia o texto logo a seguir.

“O passado está aí, visível, não há, porém, prenúncio do futuro.” — Joaquim Nabuco

“O que é, exatamente por ser tal como é, não vai ficar tal como está.” — Bertolt Brecht

Na edição de ontem do Jornal do Globo, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, disse que com inflação não existem possibilidades de crescimento econômico. Isso dito no contexto de uma série de duas reportagens exibidas pelo jornal nas quais se relatava o “balanço estatístico” de cem anos de ação do IBGE no Brasil. Os resultados desse balanço disseram algo já bastante conhecido, que é o fato objetivo de que, no século XX, a economia brasileira cresceu enormemente. No entanto, um dos “problemas” apontados foi a sempre enorme inflação. Esse “problema” esteve sempre presente enquanto o Brasil se desenvolvia e crescia. Quando ela não esteve presente, nos terríveis e não longínquos anos do tucanato, a economia não cresceu.

Tucanos e consortes, como o Sr. Gustavo Loyola, dizem ainda que o crescimento em uma economia com inflação é comparável ao vôo de uma galinha, isto é, muito curto. Resta um problema de gigantesco calibre para os tucanos e, especialmente, para o Brasil. Para os tucanos e seus iguais, entre eles o próprio Gustavo Loyola, a incompreensão da realidade objetiva, empírica. Dito de forma mais clara, o produto brasileiro aumentou doze vezes no século XX (conforme dito na reportagem), isso mesmo, 1200% e sempre com inflação. Dizer que tal crescimento, colossal, é um vôo de galinha é dizer duas coisas bem claras: (1) o tucanato e consortes são tão inteligentes quanto um fogoso asno ou (2) são uns cínicos do pior tipo. Qualquer uma das hipóteses é terrível para o Brasil. Terrível porque demonstra falta de amadurecimento político de sua classe política, de sua elite econômica e intelectual (intelectuais do naipe de Gustavo Loyola e os do PSDB). Por outro lado esse aspecto é, certamente, catastrófico quando se observa que tal corja pode voltar em algum momento apesar dos últimos oito anos.

Frear um gigante como o Brasil é uma tarefa da mais alta burrice. É triste ver que essas aves de rapina ainda são recebidas de braços abertos na mídia num ímpeto de amor recíproco, mesmo que essa mídia tenha, por assim dizer, “lulado”. O caminho a ser trilhado parece não ser o pior, o Estado brasileiro tem sido pouco a pouco, no decorrer desse primeiro ano da administração Lula, reestruturado e reconstruído. É só observar a estratégia política de chamar setores organizados da sociedade para as negociações no que diz respeito às reformas implementadas, o número impressionante de novas vagas abertas para o funcionalismo público em nível federal, a estratégia de inserção do Brasil no cenário mundial — esta característica salta a vista. O Brasil conseguiu incluir o Peru como membro do Mercosul; um tratado de comércio exterior parece estar se desenhando entre Brasil, China, África do Sul e Rússia; o Itamaraty está sendo ampliado, conseguiu-se aumentar a contratação de diplomatas apenas com algumas mudanças institucionais, o que permitirá ao Brasil fomentar seus interesses estratégicos internacionais pela primeira vez desde os militares. Há ainda o interessante plano de investimentos em infra-estrutura, são 140 bilhões de reais nos próximos quatro anos.

Ainda que o quadro seja promissor, é interessante dizer que as críticas devem continuar, devem ser propositivas e isso é especialmente válido no que diz respeito ao Fome Zero — que este ano naufragou. O governo já demonstrou que está disposto a negociar e isso é digno de nota. Resta lembrar, para assombro de todos brasileiros, que nos últimos dezoito meses do tucanato só houve uma reunião ministerial. Característica de um governo no qual as decisões são ditadas do alto para baixo, sem nenhuma disposição para negociar — felizmente isso não ocorre agora. Se o Brasil conseguir implementar uma estratégia de crescimento econômico que permita um crescimento econômico de 5 a 6% anuais (estima-se que pode crescer ainda mais, entre 7 e 8%) nos tornaremos em pouco mais de vinte anos na quinta maior economia do mundo e, por conseqüência lógica, num dos centros dinâmicos mundiais de produção cultural e científica. O melhor disso é que nossa geração poderá gozar desse esplendor ainda em vida. A tarefa que nos compete é fazer o melhor possível. Deixar de lado a falta de amor próprio nacional, daquele tipo que diz que “certas coisas só acontecem no Brasil”, é um passo importantíssimo. Fazer o melhor possível significa indignar-se com o que está errado, denunciar, criticar e promover a mudança.