terça-feira, 14 de outubro de 2003

Acerca dos tipos de liberalismo

[...] o termo liberal se revela ambíguo: muitas vezes isso se deve ao fato de o termo ser usado em contextos disciplinares bastantes diversos entre si. Temos, assim, um Liberalismo jurídico, que se preocupa principalmente com uma determinada organização do Estado capaz de garantir os direitos do indivíduo, um Liberalismo muitas vezes propenso a transformar suas próprias soluções particulares em fins absolutos (ver, por exemplo, a luta dos liberais franceses na época da Restauração, presos aos princípios de das garantias individuais, contra os democratas; ou a teoria alemã do Rechtsstaat, ou a volta do estatuto pedida por Sonnino em 1897). Temos em seguida um liberalismo, onde se manifesta com mais força o sentido da força política parlamentar: resume-se no princípio do “justo-meio” como autêntica expressão da arte de governar capaz de promover inovação, nunca porém a revolução. Apesar disso, na sua atuação concreta, essa arte de governar oscilou constantemente entre o simples comprometimento parlamentar, objetivando manter inalterados os equilíbrios existentes, e a capacidade de uma síntese criadora entre conservação e inovação, capaz de libertar e mobilizar novas energias. Foi esta política que causou a passagem da monarquia constitucional para a parlamentar, embora o liberal não tenha sido por princípio um republicano; ou o encontro entre Liberalismo e democracia, embora as resistências tenham sido notáveis, devido às lembranças jacobinas ou ao medo dos clericais e dos socialistas. Temos, enfim, um Liberalismo econômico, intimamente ligado à escola de Manchester: este Liberalismo, muitas vezes, por acreditar que o máximo de felicidade comum dependeria da livre busca de cada indivíduo da própria felicidade, não pesou suficientemente os custos que tal teoria acarretava em termos de liberdades civis e esqueceu que a felicidade tinha sido o objetivo, também, dos Estados absolutistas.”

Dicionário de política. Bobbio, N., Matteucci, N. e Pasquino, G. 5o Ed., Brasília, Ed. da UnB, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2000, vol. 2, p. 688-9.

Nenhum comentário:

Postar um comentário