quarta-feira, 5 de novembro de 2003

Acerca das especificidades do Ocidente

Fragmentos da introdução à Ética protestante e o espírito do capitalismo de Max Weber

No estudo de qualquer problema da história universal, um filho da moderna civilização ocidental estará sempre sujeito à indagação de qual a combinação de fatores a que se pode atribuir o fato de na Civilização Ocidental, e somente na Civilização Ocidental, haverem aparecido fenômenos culturais dotados (como queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado.

Apenas no Ocidente existe a “ciência” num estágio de desenvolvimento que achamos “válido”. Os conhecimentos empíricos, as reflexões sobre os problemas do mundo e da vida, a sabedoria filosófica e a teológica do tipo mais profundo não lhe são confinados — se bem que no caso da última, o pleno desenvolvimento de uma teologia sistemática deva ser atribuído ao cristianismo sob a influência do helenismo, uma vez que dela apenas existiam fragmentos no Islão e em algumas seitas hindus. Conhecimento e observação de grande acuidade existiram também em outras civilizações, principalmente na Índia, na China, na Babilônica e no Egito. Mas à astronomia babilônica e às outras faltava — o que torna mais espantoso o seu desenvolvimento — a fundamentação matemática que lhe foi dada pela primeira vez pelos gregos. A geometria da Índia faltava a prova racional; foi este outro produto do intelecto grego, que também foi criador da mecânica e da física. As ciências naturais indianas se bem que, desenvolvidas na observação, careciam do método experimental, que foi, exceto nos seus primórdios na antiguidade, essencialmente um produto do Renascimento, assim como o foi o moderno laboratório, sem o qual a medicina, especialmente a indiana, altamente desenvolvida em seu aspecto técnico empírico, era desprovida de fundamentos biológicos, e especialmente de fundamentos bioquímicos. Uma química racional tem estado ausente em todas as culturas que não a ocidental.

À altamente desenvolvida historiografia chinesa faltava o método de Tucídes. Maquiavel teve precursores na Índia. Mas, em todas as teorias políticas asiáticas faltava um método sistemático comparável ao de Aristóteles, e inexistia qualquer conceito racional. Para um Direito racional, apesar das antecipações na Índia (Escola de Mimamsa), das extensas codificações, especialmente no Oriente Próximo, e de todas coletâneas de leis indianas e de outras, faltava o que é essencial a jurisprudência racional: o rígido esquema jurídico de pensamento dos romanos e do Direito Ocidental por ele influenciado. Uma estrutura como a do cânone jurídico só é conhecida no Ocidente.

O mesmo ocorre com a Arte. O ouvido musical era, aparentemente, até mais desenvolvido em outros povos do que atualmente entre nós: certamente não o era menos. Os diversos tipos de polifonia existiram em outras civilizações. Todos os nossos intervalos de sons eram conhecidos e calculados por elas. Mas, música racional — tanto o contraponto e a harmonia —, a formação da sonoridade na base de três tríades com a terça harmônica; nossa cromática e enarmônica interpretadas não em termos de espaço, mas, desde o Renascimento, de harmonia; nossa orquestra com seu quarteto de cordas como núcleo e com a organização do conjunto de instrumentos de sopro; nosso acompanhamento de graves; nosso sistema de notação (que possibilitou inicialmente a Composição e o uso de nossos instrumentos, e depois sua própria sobrevivência); nossas sonatas, sinfonias, óperas e os instrumentos básicos que lhes servem de meio de expressão: o órgão, o piano, o violino só existiram no Ocidente, se bem que a música figurativa, a poesia tonal, a alteração de tons e a dissonância tenham existido como meios de expressão em várias tradições musicais.

[...]

A organização estamental das associações políticas e sociais era largamente disseminada. Mas, mesmo o Estado estamental “rex et regnum”só foi conhecido, no sentido ocidental, pelo Ocidente. Parlamentos de “representantes do povo” eleitos periodicamente, e a liderança de demagogos e chefes partidários constituídos em “ministros” responsáveis perante o Parlamento, só foram totalmente estabelecidos pelo Ocidente, se bem que, naturalmente, sempre tivessem havido “partidos”, no sentido de organizações para a tomada do poder político. O próprio “Estado”, tomado com entidade política, com uma “Constituição” racionalmente redigida, um direito racionalmente ordenado, e uma administração orientada por regras racionais, as leis, administrado por funcionários especializados, é conhecido, nessa combinação característica, somente no Ocidente, apesar de todas as outras que dele se aproximaram.

O mesmo ocorre com a força mais significativa de nossa vida moderna: o Capitalismo.

O “impulso para o ganho”, a “ânsia do lucro”, de lucro monetário, de lucro monetário o mais alto possível, não nada a ver em si com o capitalismo. Esse impulso existiu e existe entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, ladrões, cruzados e mendigos — ou seja em toda espécie e condições de pessoas, em todas épocas e países da Terra, onde quer que, de alguma forma, se apresentou, ou se apresenta, uma possibilidade objetiva para isso.

A superação dessa idéia ingênua de capitalismo pertence ao jardim de infância a História da Cultura. O desejo de ganho ilimitado não se identifica em um pouco com o capitalismo, e muito menos com o “espírito” do capitalismo. O capitalismo pode até identificar-se com uma restrição, ou, pelo menos, com um moderação racional desse impulso irracional. De qualquer forma, porém, o capitalismo, na organização capitalista permanente e racional, equivale à procura do lucro, de um lucro sempre renovado, da “rentabilidade”. Só pode ser assim. Dentro de uma ordem econômica totalmente capitalística, uma empresa individual que não se orientasse por esse princípio, estaria condenada a desaparecer. [...]

* Cabe saber que Weber escrevia no início do século, todas as suas referências são desse período ou anteriores, como não poderia, obviamente, deixar de ser. Além disso, as pretensões à universalidade, tanto das instituições ocidentais, como da prática de pensamento ocidental, a ciência e a política, sem falar na arte e no "way of life" (independente de ser "apenas" norte-americano), se concretizaram. Dito de forma bem simples, do início do século XX até este início de século é possível dizer, não sem razão, que o mundo ocidentalizou-se, e, em termos mais ufanistas, se bem que não menos reais ou objetivos, pode-se dizer, tomando sempre o atual desenvolvimento do mundo civilizado — uma vez que não é de todo suficiente dizer apenas Civilização Ocidental —, que o Ocidente venceu.

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