segunda-feira, 3 de novembro de 2003

Dominação

“É preciso agir de outro modo, entregar-se o trabalho e responder às exigências de cada dia — tanto no campo da vida comum, como no campo da vocação. Esse trabalho será simples e fácil, se cada qual encontrar e obedecer ao demônio que tece as teias de sua vida.” — Max Weber
Não poderia começar este texto sem antes atentar ao o fato de que um dos que aqui comentaram o fragmento sobre Max Weber disse que as formigas, assim como as abelhas, são, da mesma forma que o homem, “animais políticos”, não obstante o inteiro absurdo em que a assertiva consiste. Todos nós sabemos que vida no formigueiro, assim com na colméia, está condicionada por uma divisão de tarefas invariável e que isso não é questionável, isto é, uma formiga operária não luta para destituir a rainha de uma possível má gestão real ou sequer, tanto na colméia como no formigueiro, que há monarquias constitucionais ou absolutas. Formigas e abelhas sequer sabem o que é “rainha” ou “operárias”, muito menos entendem de nobreza ou aristocracia, quanto mais de constitucionalidade ou lutas políticas. Tais insetos não pensam e sua duração, normalmente, está condicionada a vida da “rainha” (basicamente no caso do formigueiro, haja vista que nas colméias uma “rainha” pode ser substituída quando morta). A organização do formigueiro pode ser entendia, com sérias restrições aos fenômenos de ordem zoológica, como social. Política nunca; dizer isso é uma asneira do mais grosso calibre.
Quanto a dominação, cabe alguns esclarecimentos. Todos deveriam se dar conta que vivemos numa sociedade política que tem sua entidade máxima no Estado. Este se caracteriza irremediavelmente pelo monopólio legítimo da força ou violência. Dito de outra forma, o Estado pode ser entendido como um mecanismo de dominação ou de governo da classe política dominante. O Estado detém o poder, e o poder nada mais é que imprimir um comportamento a um certo agente que, caso contrário, isto é, na ausência de poder, não seria possível.

Assim, entende-se que a dinâmica das sociedades políticas é uma dinâmica da luta pelo poder, variando conforme o curso do processo histórico. Na Antiguidade Clássica tínhamos gregos, depois romanos. Na Idade Média um conjunto gigantesco de feudos que antecederam a formação do Estado moderno, os feudos que resistiram, isto é, que foram mais eficientes, geraram Estados, tal como a França dos Capeto. Na Era Moderna até nossos dias, os dominantes, no que diz respeito ao sistema político internacional, variaram. Lutaram e se mantiveram no poder países como Grã-Bretanha (potência inquestionável no século XIX), França, Alemanha, Japão e, finalmente, Estados Unidos e Rússia (ou Ex-URSS). Atualmente temos como potência inquestionável os mesmos Estados Unidos, com um certo movimento ascendente da União Européia (comandada por uma aliança franco-germânica), China e Rússia, sem falar no Japão. Isso demonstra que o processo é dinâmico.
Há quem diga que isso é sem sentido. No entanto, isso não seria totalmente aceitável para um cidadão médio adepto dos valores democráticos entre os anos de 1940-50. Tal cidadão hipotético presenciou as lutas entre as democracias européias e os países totalitários do Eixo. No caso de um cidadão britânico, ele também não acharia aceitável um regime autoritário como o de Stálin. Dizer que as lutas pelo poder, as lutas políticas não têm sentido é uma tolice completa, uma vez que liberdade política do cidadão em questão está diretamente relacionada à forma do regime político, se autoritário ou democrático. Nas lutas políticas o sentido é dado pelos indivíduos, cidadãos, partidos, classes ou Estados de acordo com seus interesses e valores. Entendo que o Brasil deve ser uma nação economicamente desenvolvida e que deve agir de acordo com seus interesses no sistema internacional, além disso, nós, brasileiros devemos disseminar nossos valores para resto do mundo. Entre tais valores posso citar o nosso amplo respeito a diversidade étnica e cultural, a aceitação do diferente tal como ele é sem maiores prejuízos para a vida social, o que é essencialmente democrático. Assim, me posiciono contra toda ação política não-democrática no plano internacional e apoiarei o uso da força quando tais valores forem desrespeitados (como foi o caso, por exemplo, do Timor Leste, e lá existe uma missão brasileira com vistas a organizar aquela sociedade quase totalmente destruída pela Indonésia).

Tudo isso quer dizer que sempre alguém estará disposto a dominar e, por outro lado, há alguém disposto a ser dominado, desde que sua vida e valores não sejam colocados em perigo. Isto é característica de todos agrupamentos humanos em toda história. E mesmo assim as comunidades políticas atuais são ambientes muito mais amenos do o eram na Idade Média, estamos muito melhores do que estávamos no passado.

Dito isto, deve-se dizer que, em última instância, quem dota ação de sentido é o indivíduo de acordo com seus valores. Dota não só a sua ação, mas como a sua própria vida, dado que o mundo é por si só sem sentido, “desencantado” como diz Max Weber.

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