segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Popper

Resenha do livro Miséria do Historicismo de Karl Popper apresentada à disciplina Metodologia das Ciências Sociais, ministrada pelo Prof. Dr. José Jeremias de Oliveira Filho no segundo semestre de 2003.

Esboço de uma metodologia

Este texto pretende ser uma exposição sintética da argumentação contida na obra Miséria do Historicismo, de Karl Popper. Tal texto é nada mais do que a crítica do método historicista, sendo, portanto, um tratado de Metodologia. Via de regra, um escrito que se pretende a nada mais do que expor a sistemática de uma obra maior, pouco ou nada pode contribuir para o desenvolvimento ulterior da temática tratada no trabalho observado. Não obstante, poder-se-á, como sempre é possível, contribuir minimamente com o desenvolvimento da crítica metodológica e, quiçá, da própria Metodologia, dado que alguns problemas tomados a partir de pontos de vista claros podem ser criticamente relatados.

Antes de qualquer abordagem pretensamente crítica, cabe antes um breve sumário da estrutura da obra de Popper. Esta é divida em quatro partes principais, tratando sempre da abordagem do método historicista. A primeira e a segunda partes tratam, respectivamente, da descrição do historicismo de acordo com as abordagens antinaturalísticas e naturalísticas. O historicismo, tal qual relata Popper, é um método que pretende edificar uma História teórica, isto é, uma ciência histórica na qual seja possível o conhecimento científico do desenvolvimento histórico. Para tanto se requer, como quer fazer crer os adeptos de tal método, o conhecimento das regras, leis e sistemática do desenvolvimento histórico, isto é, se requer uma teoria da História tal como formula Marx ou Hegel em seus sistemas filosóficos. Não será apresentado aqui, dados os objetivos deste texto, nenhuma descrição destes dois sistemas. Apenas serão observadas — uma vez que Popper não trata propriamente de Filosofia — quais são as implicações e problemas do método historicista para as teorias científicas.

O método historicista é até hoje de uso amplo para grande parte das ciências sociais, principalmente nos ramos de fundamentação metateórica dialética, isto é, nas correntes científicas baseadas nos sistemas filosóficos do par Hegel/Marx. Com isso se percebe que Popper dedica o seu trabalho basicamente às Ciências Sociais, uma vez que o método historicista é de aplicação quase que exclusiva nessas Ciências.

Entre os principais problemas do historicismo é a impossibilidade de se fazer qualquer predição científica do desenvolvimento histórico com bases em teorias que tencionem buscar as leis do desenvolvimento histórico. Assim, qualquer predição que diga respeito ao futuro da História seria baseada em argumentos sem fundamentos lógicos por conta de que, dada a complexidade desse tipo de processo, os acontecimentos e transformações que decorrem da interação social de indivíduos, classes, instituições e idéias dentro de uma sociedade desencadeiem formações, por assim dizer, inesperadas. Isto porque os arranjos sociais são mutuamente influenciados pela sua situação anterior, das quais foram gerados, e também pelo momento presente, de modo que é impossível asseverar que uma certa conformação social seja passível de ser explicada por um conjunto de leis do desenvolvimento histórico criadas para predizer o futuro. Esta é, em suma, a espinha dorsal da argumentação de Popper.

Contudo, esta não se resume a isto, dado que se desenvolve nos trechos seguintes, III e IV, a crítica das doutrinas historicistas. Neste momento surge a questão da finalidade prática das teorias científicas, como exemplificado pela citação de Kant, logo no primeiro parágrafo da parte III, na qual se diz de que forma os problemas práticos seriam importantes para humanidade, da qual Popper é partidário. E nessa medida se dá uma outra incapacidade do método historicista, uma vez que ele se pretende orientar a ação política. Popper contrapõe a isso o que chama de tecnologia da ação gradual. Disso gera a distinção entre a Engenharia de ação gradual e Engenharia utópica. A primeira se remete a um tipo de fundamentação que não compartilha dos mesmos princípios do método historicista; a segunda, ao contrário, é estritamente vinculada ao historicismo. Entre os problemas gerados pela segunda estão a dificuldade de se lidar com imprevistos no que diz respeito a implementação da transformação social, uma vez que com ela é necessário um controle autoritário e de estrema centralização; as dificuldades geradas são normalmente corrigidas com grandes custos de modo a reorientar um certo processo desviante ao plano inicial. Isso porque uma transformação orientada por princípios historicistas está submetida a um arcabouço de orientações previamente deliberado, que é justamente o esquema teórico do desenvolvimento histórico, comum às teorias historicistas.

Por outro lado a Engenharia de ação gradual tem como diferencial justamente a capacidade de reorientação que não está presente, ao menos com a mesma intensidade, na Engenharia utópica. Num esquema de ação gradual, baseado em fundamentos de ordem não historicista, é possível que desenvolvimentos não intentados sejam observados e, ao mesmo tempo, saber porque tal se deu de uma forma e não outra e, após isso, esboçar um segundo plano de modo a reorientar o restante do processo. E isto após detida análise, buscando-se saber quais são as causas desse processo desviante e qual instrumental será utilizado para que o plano original possa ser restabelecido. Os controles sobre um planejamento desse tipo são, por outro lado, universalistas porque não se baseiam em um corpus teórico já definido de antemão. Ao contrário estão sob condição de constante teste e modificação, posto a sua formação, baseada em princípios que obedecem as regras do jogo científico, isto é, são esquemas que podem ser testados, e, se não corroborados, modificados, ampliados ou abandonados por completo em função de ser ter desenvolvido uma outra forma mais adequada para os fins propostos.

Por fim, Popper, nos trechos finais de seu trabalho, dá uma grande contribuição à metodologia das ciências, que é o seu princípio de unidade metodológica das ciências, segundo o qual todas as Ciências Empíricas, sejam elas sociais ou naturais, compartilham das mesmas regras lógicas e epistemológicas, diferenciando-se apenas no que diz respeito ao enfoque do seu objeto, isto é, diferenciando-se quanto ao instrumental técnico e teórico de investigação de cada ciência, adequado ao seu escopo particular. Ao mesmo tempo, isto serve como contrapartida ao conjunto de afirmações, ainda muito em voga no período hodierno, de que a natureza das Ciências Sociais é completamente diversa da das demais Ciências Empíricas, tais como a Física, Geologia, Biologia ou Química. Dito de forma bem simples, as correntes historicistas lançam mão de argumentos obscuros de um ponto de vista metateórico de modo a validar uma Metodologia, aos olhos de Popper, inteiramente questionável.

Como considerações finais, resta dizer que toda a formulação metodológica formulada por Popper está intimamente relacionada às suas posições políticas — com as quais o autor que aqui escreve se identifica — que dizem respeito, sempre, à necessidade e à afirmação de uma sociedade livre, onde existam controles universalistas, isto é, que dizem respeito interação de indivíduos e idéias em torno não apenas do debate político livre, mas, claro está, do debate sem impedimentos de idéias, da confrontação de teorias e sistemas de fundamentação. Dito de forma mais clara, o jogo da Ciência só pode acontecer num ambiente politicamente livre, distante de qualquer autoritarismo.

Antes que se termine o presente excurso, cabe apontar, como foi dito no início deste texto, algumas críticas muitos gerais e por isso mesmo provisórias acerca do texto de Popper. A primeira delas diz respeito a distinção feita por Popper entre as Ciências Sociais e a Economia, segundo a qual a predição científica em Economia, o que parece — de acordo com entendimento do autor que aqui escreve —, teria um caráter mais acertado do que nas demais Ciências Sociais. Isto parece ser justificado porque a Economia atingiu um grau de formalização matemática que lhe dá uma precisão maior na análise de seu objeto. O que se tem que salientar é que a precisão da Economia é tanto maior quanto menor é seu escopo. Dito de forma mais clara, se se aumenta seu escopo, por exemplo, se se trata da macroeconomia, tanto menos precisas serão as predições — tal como nas demais Ciências Sociais; se, por outro lado, trata-se de uma empresa, do universo da microeconomia, mais acertadas serão suas predições. Isto porque a Economia também é uma Ciência Social e se edifica num plano da mesma forma complexo que a Sociologia — como salienta Popper. Ainda na mesma linha, a Economia, tal como formulada na época de Popper era incapaz de dar conta dos desafios enfrentados pelos países que nos anos da década de 1950 tentavam superar uma situação de subdesenvolvimento econômico e ingressar numa situação de “desenvolvimento”. A Teoria Econômica teve que se desenvolver de modo a dar conta de um fenômeno que não era comum aos países centrais, como a Áustria de Popper, ou a Grã-Bretanha de então.

A segunda crítica possível é de que parece, ao contrário do que Popper argumenta, desenvolver algo próximo a um historicismo, como a obra de Norbert Elias sugere, ao desenvolver uma teoria dos processos civilizadores, o que, de certa forma, consiste em uma teoria do desenvolvimento histórico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário