sexta-feira, 12 de março de 2004

Otan põe em risco a segurança da Rússia

novas sobre a Rússia

Vladimir Simonov, observador político da RIA "Novosti"


Que diriam os dirigentes da NATO, se os boatos divulgados há três anos de que a Rússia planeia instalar armas nucleares tácticas na Região de Kalininegrado, enclave russo entre as repúblicas bálticas e a Polónia, se viessem a concretizar?


Seguramente para a liderança da Aliança Atlântica seria algo chocante. Depois deste preâmbulo, é mais fácil compreender os sentimentos negativos que provocam em Moscovo as informações relacionadas com a expansão da NATO. Resumidamente, é isto que está em questão. Para o dia 2 de Abril está marcada ou em Chicago ou em Bruxelas a cerimónia solene de admissão de sete novos membros da Aliança - aliás, o maior alargamento da NATO em toda a história da existência do bloco. Em contraste com a Bulgária, Roménia, Eslováquia e Eslovénia, que preferem distanciar-se da euforia do facto, as repúblicas bálticas - Estónia, Letónia e Lituânia - sugeriram logo uma ideia brilhante para a liderança do bloco militar. Na sua fobia à Rússia, estas três repúblicas da extinta União Soviética propuseram logo à NATO tomar conta da protecção do seu espaço aéreo, nem mais nem menos. Ou para ser mais exacto, instalar nos seus territórios caças interceptores de qualquer país veterano da Aliança. O argumento adiantado resume-se mais ou menos na seguinte fórmula: nós não temos força aérea suficiente, mas o inimigo que enfrentamos é pérfido e sinistro, sendo capaz de atacar, violar ou aparecer nos nossos céus, nunca especificando quem é esse inimigo talvez por considerações diplomáticas.


Contudo, esta iniciativa fez eco entre aqueles a quem se dirigia. Conforme informou a agência informativa da Dinamarca, Ritzaus Bureau, já a 31 de Março a Lituânia poderá receber o apoio que almejava - isto é, 4 caças bombardeiros dinamarqueses, um radar móvel e uma equipa de cem militares, técnicos e pilotos para prestar serviço numa base aérea recém criada das forças aéreas estrangeiras em território lituano, nas imediações da fronteira com a Rússia.


O Ministério da Defesa da Lituânia negou-se a comentar esta notícia. Mas o Presidente da Lituânia, Rolandas Paksas que nada tem a perder face ao processo de impugnação movido contra ele pelo Parlamento, foi mais aberto e sincero. O estadista lituano não excluiu a perspectiva da instalação de bases militares da NATO depois da adesão de Vilnius à Aliança Atlântica. "Se a NATO o quiser e pedir, daremos o nosso sim", anunciou lacónica e claramente Rolandas Paksas.


Declarações tão abertas do estadista lituano não devem ter agradado ao novo Secretário-Geral da NATO, que está a efectuar conversações precisamente na capital lituana. Em dois meses e pouco que Jaap de Hoop Scheffer está neste cargo, já declarou em reiteradas ocasiões que "uma das tarefas fundamentais da sua missão é conservar e dar mais impulso ao desenvolvimento das boas relações com a Rússia, já que só esta orientação é que corresponde aos interesses recíprocos da NATO e da Rússia". Agora bem, neste contexto o barulho dos caças dinamarqueses "F-16" made in USA soa como uma nota dissonante em relação ao que fora dito antes e dá todos os motivos ao Kremlin para duvidar da sinceridade das declarações oficiais.


Moscovo faz um jogo sincero. Tanto lhe desagrada ver a NATO junto às suas fronteiras, como também camuflar o seu descontentamento com o que se passa na realidade. Com efeito, os interesses comuns da Rússia e da NATO são patentes, são óbvios, traduzindo-se na luta contra o terrorismo internacional e não de maneira nenhuma em cercar a Rússia com bases militares, tanto do lado Sul como do lado Noroeste, ou de qualquer outro lado. Conforme declarou nos finais de Fevereiro o ministro de Defesa da Federação Russa, Serguei Ivanov, que sobreviveu à recente remodelação governamental, "Moscovo não poderá ser tolerante face ao aparecimento de contingentes da NATO nas imediações da Rússia" - quer dizer, nos países bálticos.


Não foi menos intransigente nas suas declarações sobre a eventual presença da Aliança Atlântica nos países bálticos foi o assessor do Presidente da Rússia para os assuntos internacionais, Serguei Yasterjembsky. Numa entrevista exclusiva ao jornal "Financial Times", este porta-voz deixou bem claro que "qualquer presença da NATO na Lituânia, Letónia ou Estónia, independentemente da sua escala, será interpretada como um passo extremamente negativo. Ao fim e ao cabo, a NATO tem que considerar e tomar em conta a extrema preocupação da Rússia em relação à sua política de alargamento", disse literalmente. No seu dizer, se a protecção dos céus da Roménia ou da Bulgária se insere, de algum modo, na campanha antiterrorista global, "não se pode vislumbrar esta mesma necessidade nos países bálticos".


Assim, se a liderança da NATO passar por cima destes avisos da parte russa e continuar a insistir nas bases aéreas, de radares e outras formas de presença na região báltica, poderá perder o principal, o que se esforçou por conseguir depois da longa "guerra fria" com a Rússia - ou seja, um significativo nível de confiança.


Em Moscovo ainda se lembram das reuniões e assembleias conjuntas do período de 1996-1997 onde as altas patentes da Aliança Atlântica asseguraram aos representantes da Rússia que jamais a Aliança pisaria o chão da região báltica, tão importante para os interesses nacionais da Rússia. Mais tarde estas declarações foram confirmadas na Acta Fundadora Rússia-NATO, onde se diz que a Aliança do Atlântico Norte não tem causas nem motivos para avançar as suas estruturas até às zonas vulneráveis para Moscovo.


Em forma de conclusão diríamos que a perfídia não é o melhor procedimento para contactos responsáveis, tanto mais com a Rússia.

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