quarta-feira, 3 de março de 2004

O fim-de-semana à russa em Moscou

Observador político da RIA "Novosti", Vladimir Simonov in Ria Novosti

A varanda do meu apartamento dá para a cúpula da sala de cinema "Udarnik". Esta palavra era a dada altura um neologismo para designar um operário exemplar que trabalhava com abnegação e dedicação, que com o seu trabalho ultrapassava as metas do plano de produção em nome do patriotismo e do amor pelo Partido Comunista.

Pois hoje os "udarniks" do trabalho socialista foram desalojados na Rússia por "udarniks" do lazer capitalista.

No fim de semana a vida à volta do cinema começa a efervescer, parecendo mais um redemoinho, como que na sala se fosse celebrar a cerimónia dos Óscares. Aparecem luxuosas limusinas com vidros escuros que estacionam junto do cinema e ocupam quase todo o passeio, impedindo a passagem dos transeuntes. Provocam por isso a irritação dos polícias de trânsito e a indignação dos moradores da zona e transeuntes, que se sentem como pessoas absolutamente alheias nesta festa dos novos ricos.

Acontece que desde algum tempo se instalaram simultaneamente no edifício do cinema estabelecimentos de índole vária: um casino, uma sala de "slot machines", o escritório duma empresa desportiva, um restaurante de cozinha japonesa. Em suma, mil e um prazeres concentrados em cinco andares. A projecção de filmes - a propósito, norte-americanos na sua maioria - é como um acepipe que antecede a abundante folia dos ricos de Moscovo, que vieram passar as suas horas de lazer nocturno com um cheirinho ocidental. Dá-se a impressão que ao cair da noite toda a Moscovo entra numa verdadeira festa. Filas de jovens para entrar em discotecas sofisticadas na rua Tverskaya. Há pouco, a minha vizinha Olga - uma senhora já de certa idade, mas que se faz passar por uma "play girl" - comunicava-me toda excitada e extasiada: "Sabe que, eu ontem fui com amigas ver um striptease masculino. Estupendo! Maravilhoso! Por pouco não desmaiava..."

Em outros tempos, os feriados estavam mais associados ao envolvimento cultural, ao desenvolvimento da espiritualidade, à calma e sossego. As pessoas aproveitavam os tempos livres para irem ao teatro, para assistir a um concerto de música clássica, para ler Tchekhov ou Dostoiewski. Afinal, não era censurável juntarem-se os amigos na cozinha com um jarrinho de vodca para conversar, desabafar - tal, afinal, condizia com o espírito nacional dos russos.

Hoje as coisas são totalmente diferentes. Hoje o Camarada Feriado cedeu lugar ao Mister Weekend. Está em voga tudo quanto tenha nomes estrangeiros, tudo o que vem de fora e antigamente era considerado como um modo de vida alheio. Os casinos, bowlings, striptease shows, clubes que congregam adeptos do snowboarding, do skating, carting, gliding e fiting, montanhas russas e parques aquáticos: tudo isto cresce em Moscovo como cogumelos após a chuva.

Não raro, tal transfiguração custa caro à cidade. Muitos moscovitas têm a certeza que se não fosse esta febre, este boom que vem do Ocidente e se expande como peste na indústria de diversões, se poderia ter evitado a recente tragédia no parque aquático de Moscovo, que ceifou 28 vidas. É porque tudo foi construído às pressas ignorando padrões e normas estabelecidos - só para ganhar o lucro rápido e fácil. A última paixão dos moscovitas é passar todo o sábado ou domingo em hipermercados, ou em "malls", ou em centros comerciais que aparecem pelo perímetro da cidade em proporções assustadoras. Nestes dias no hipermercado francês "Auchan" é um atropelo: gente sem fim carregando carrinhos de produtos alimentares em quantidades que nem em cinco anos poderá comer. Julgo que os proprietários franceses nem podiam imaginar um triunfo como esse.

Os sociólogos analisam apaixonadamente este fenómeno do consumismo. De acordo com suas teorias, contrariamente à realidade ocidental, a classe média russa, recém-nascida, não possui capitais suficientes para abrir o seu negócio, ou investir num projecto, ou afinal poupar algo para a velhice. E daí surge o desejo dos russos de gastar dinheiro para receber imediatamente algo em troca, mesmo que seja um prazer efémero e fugaz. Surge a tentação de provar tudo, experimentar tudo, vestir tudo, ver tudo.

Frequentemente isto faz-se também para declarar ou afirmar o seu estatuto social. Ou para obter a atenção dos outros, ou para ostentar luxo, riqueza, bem-estar. Visto por outro prisma, esta euforia do fim-de-semana atesta também outro fenómeno - ou seja, a recuperação geral da economia russa. Devido aos elevados preços de petróleo que se mantêm nos mercados mundiais, a Rússia esqueceu o défice do orçamento, acumulou fabulosas reservas em ouro e moeda estrangeira equivalentes a 88 biliões de dólares - quantia essa que ultrapassa de longe o que têm os Estados Unidos e a China, conseguiu duplicar os investimentos estrangeiros na economia.

As chagas sociais começam a cicatrizar-se aos poucos, a taxa de criminalidade vai também descendo. Tal gera mais optimismo entre a população, cujo poder de compra aumentou em um só ano mais de 10 por cento. Por isso, as pessoas passam a lembrar-se mais frequentemente do ditado popular que diz "Ninguém pode proibir de viver com luxo".

Contudo, estes fins-de-semana pomposos, faustosos, abundantes, com cheiro ocidental, são acessíveis apenas a uma minoria da população que soube adaptar-se às circunstâncias, à viragem histórica que o país fez para chegar à economia de mercado. Entretanto, um terço da população leva uma vida abaixo do nível de subsistência, enfrentando a sub-alimentação, a desnutrição e outros fenómenos característicos da pobreza. Este segmento só pode ver de longe luzes de neón dos hipermercados, contentando-se com um naco de pão e um copo de leite.

Nas zonas rurais onde a situação material não das melhores, o lazer continua conforme tradições antigas e sadias. O povo ali descansa como era época dos avôs e bisavôs - ninguém pretende copiar modelos e padrões ocidentais, até mesmo os repudiam, os detestam. E isto significa que os costumes e as tradições ficam mais respeitados, acatados.

A tia Dússia que eu conheço e que mora numa casebre de madeira na aldeia de Chaganino, a apenas 50 km da capital, prepara o seu sobrinho Volodia para ir pescar no rio coberto de gelo, equipando-o com casaco de pele de borrego, gorro forte que cobre as orelhas, botas grossas, cana de pesca, uma perfuradora para fazer abertura no gelo e, é óbvio, uma garrafa de vodca ou álcool caseiro (o que é ainda melhor porque tem mais graduação). O povo crê que sem vodca o peixe não vai picar. Digo que nos fins-de-semana tem muita gente nos lagos e rios congelados a pescar, mesmo que seja peixes miudinhos. Os pescadores passam largas horas no meio do frio de rachar aquecendo-se com a vodca que trazem consigo. Eu não sei o que é que acha a gente neste passatempos: se é uma paixão, ou se é o masoquismo, ou se é a propensão da alma russa para a solidão filosófica. Em todo o caso, esta ocupação deixa em alerta os serviços de defesa civil, porque o gelo quando é fraco - sobretudo na temporada de Primavera ou princípios de Outono - quebra com facilidade e o pescador vê-se mergulhado em água fria. Foi Isso o que aconteceu este ano com dezenas de pescadores nos arredores de Moscovo.

Uns adoram gelo e outros vapor dos banhos russos. Nada têm a ver com a sofisticada sauna finlandesa com equipamentos eléctricos. Tudo é simples: pedras incandescentes, à brasa, e por cima destas deita-se água fria para obter o vapor, ou o kvas (bebida típica dos Russos) para obter um aroma agradável e embriagante. E depois segue uma massagem bem forte chicoteando o banhista com um feixe feito de ramos de bétula. E assim vai-se repetindo durante horas e horas. O ponto culminante deste processo é o mergulho na abertura feita no gelo que cobre o rio ou lago. Isso é que é delícia!

A invasão da civilização e cultura ocidentais, o desenfreio das novelas televisivas de baixa qualidade, não raro, provocou entre muitos russos que não são cosmopolitas os sentimentos de repúdio, de rejeição e fez com a Nação virasse de novo aos valores antigos, às tradições e costumes seculares - em suma, às raízes nacionais.

A imagem dum weekend a la russa seria incompleto sem o brilho das cúpulas douradas das igrejas e catedrais, sem o toque dos sinos... Depois dos setenta anos da dominação da ideologia comunista que permitia fazer voar pelos ares templos e santuários, transformar os lugares venerados e sagrados em cavalariça e pocilga, agora a fé, a doutrina religiosa entrou de novo em auge. Nas cerimónias e liturgias aparecem estadistas, altos responsáveis públicos, figuras de destaque, personalidades respeitadas. Há uma coisa nesta tendência que deixa de sobreaviso: esta paixão pela Religião que de repente tomou o perfil não será um tributo à moda, uma tentativa de andar ao compasso do tempo e das reformas sem ser um amor verdadeiro? Fosse como fosse, este renascimento religioso passou a completar o fim-de-semana dos Russos, dando-lhe a consistência espiritual, o saneamento moral. Sendo assim, realizar-se-á o enunciado do profeta Isaias: "Todo o Mundo está em descanso, está em paz e exclama cheio de alegria".

Para que são necessários os desfaios aéreos entre a Rússia e a Otan?

Viktor Litovkin, observador militar da RIA "Novosti"

Na semana passada, um avião A-50 de reconhecimento e um avião Su-24 MR de reconhecimento naval da Força Aérea da Rússia Su-24 MR realizaram dez voos ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia e nas águas neutras do Mar Báltico, perto do litoral da Estónia, Letónia e Lituânia. Eles levantaram voo do aeródromo de Levachovo, nas proximidades de São Petersburgo, e algumas horas depois aterraram no aeródromo de Khrabrovo, na Região de Kaliningrado. Depois de um pequeno descanso os pilotos regressaram pelo mesmo itinerário.


O comandante-chefe da Força Aérea da Rússia, general Vladimir Mikhailov, não ocultou que estes voos foram empreendidos em resposta às acções dos aviões americanos E-3 Sentry AWACS de detecção e identificação à distância que alguns dias antes tinham chegado aos países do Báltico procedentes da base aérea de Geilenkirchen na Alemanha e fizeram uma série de voos de demonstração nos céus da Letónia e Lituânia ao longo das fronteiras da Rússia. Embora representantes da Aliança do Atlântico Norte tivessem afirmado que estes voos tiveram um carácter de instrução e não de reconhecimento e eram destinados à verificação da compatibilidade do sistema "Baltnet" de observação do espaço aéreo (ele está a ser criado pela Lituânia, Letónia e Estónia com ajuda de Bruxelas) com o sistema integrado de defesa antiaérea da NATO, só pessoas absolutamente inexperientes em assuntos militares podiam acreditar nas suas palavras.
A-50
"Cada um de nós compreende - declarou o general Mikhailov - que os aviões não sobrevoam territórios alheios com fins de instrução. E para que não me levem a mal, organizei também os voos dos nossos A-50 e Su-24MR. Esta não foi uma manifestação, simplesmente não quero ficar a dever e, além disso, é necessário treinar as tripulações".
O general fez esta declaração em conferência de imprensa organizada pelo Ministério da Defesa da Rússia para os adidos das Forças Aéreas de outros países acreditados em Moscovo. Todos os diplomatas militares, formados, via de regra, pelas faculdades de serviço secreto das academias militares, compreendem bem que o próprio comandante-chefe da Força Aérea não pode enviar os seus aviões para as águas neutras do Mar Báltico. Para que os aviões militares possam atravessar as fronteiras do país, é necessário receber a respectiva ordem do chefe do Estado-Maior General. É pouco provável que este último tenha tomado esta decisão sem a aprovação do ministro da Defesa e, possivelmente, do Presidente do país.

Portanto, podemos estar certos de que a demarche do general Mikhailov não foi uma simples manifestação de "ousadia do comandante-chefe" e do seu desejo de "não ficar a dever". Assistimos, evidentemente, a uma acção bem planeada pela direcção militar máxima da Rússia que, provavelmente, não tenciona mais perdoar aos parceiros ocidentais o seu desprezo ostensivo pelos interesses da segurança nacional russa.

O vôo dos aviões AWACS deve ser considerado exactamente como um desafio.

O caso é que a antena AN/APY-2 instalada no E-3 AWACS E-3 AWACSvarre um espaço com um raio de 550 km em profundidade. É efectuado o reconhecimento não só do espaço aéreo, mas também da superfície terrestre e aquática. E em 6-11 horas de voo o Pentágono, contando com o apoio incondicional e eficiente de Tallin, Riga e Vilnius, podia ter feito uma "radiografia" completa do sul da Karélia e das Regiões de Leninegrado, Pskov, Novgorod e Kaliningrado da Rússia, e os generais russos não duvidam que foi isso mesmo que aconteceu.

Aliás, por que não se podia observar a terra a partir do ar, se o território da Rússia investigado pelo AWACS está inteiramente sujeito ao Tratado sobre as Forças Armadas Convencionais na Europa (TFACE)? Aliás, nada impedia Washington de declarar o seu desejo de fazer uma inspecção à Região Militar de Leninegrado, da qual fazem parte as regiões administrativas de Pskov e Novgord e a região especial de Kaliningrado. E 48 horas depois os seus representantes já poderiam visitar livremente as unidades militares russas e contar os tanques, canhões, veículos blindados, aviões... Por que não utilizaram os EUA este direito?

Porque quaisquer inspecções no âmbito do TFACE pressupõem o "princípio da reciprocidade". Se algum dos países da NATO verifica as nossas unidades militares podemos exigir o direito análogo de verificar determinadas unidades de um Estado membro da Aliança do Atlântico Norte ou as bases deste Estado instaladas num território alheio mas sujeitas às disposições do TFACE. No entanto, embora os países do Báltico, que nos próximos meses ingressam na NATO e a partir de cujo território foi efectuado o voo de reconhecimento do AWACS americano, declarem a sua fidelidade a todos os tratados internacionais reconhecidos pela Aliança, até agora não aderiram ao Tratado sobre as Forças Armadas Convencionais na Europa. Portanto, os inspectores russos não podem verificar as suas unidades militares. E, como é natural, isso cria uma tensão suplementar nas relações entre Moscovo, Tallin, Riga e Vilnius, de um lado, entre Moscovo e Bruxelas, por outro, e entre Moscovo e Washington, por outro.

Na capital russa são feitas constantemente observações de que os parceiros ocidentais do Conselho Rússia-NATO, que em todos os fóruns internacionais falam muito e pormenorizadamente sobre as crescentes relações entre as duas partes, na realidade, procuram sempre mostrar quem nesta cooperação pode fazer tudo o que quiser e quem não pode.

Tudo isso transforma-se gradualmente, sem dúvida, num factor irritante para o Kremlin, embora a direcção russa procure aparentar que em princípio, não ocorre nada de sério.

Mas como é possível dizer que não ocorre nada se, como informou o comandante-chefe da Força Aérea da Rússia, em 2004 os meios nacionais de defesa antiaérea detectaram 250 voos de aviões de reconhecimento da NATO ao longo das nossas fronteiras. Este número é demasiadamente grande. E os militares receberam, provavelmente, "carta branca" para empreenderem acções de resposta.

Entre os exemplos figura o voo efectuado no ano passado pelo E-3 AWACS americano nos céus da Geórgia. Em resposta foi levantada ao ar uma patrulha de caças russos Su-27 Su-27com mísseis suspensos que sobrevoaram algumas vezes a Grande Cordilheira do Cáucaso, ao longo da fronteira russo-georgiana. Portanto, como vemos, o método de "pagamento de dívidas" foi testado ainda antes e não nos céus do Báltico.

São bem sabidas as consequências das "brincadeiras com armas" e dos desafios ostensivos dos militares: por alguns motivos podem falhar os nervos de alguém. E o que acontecerá então?

Na minha opinião, os políticos sérios devem responder à pergunta sobre se estes "factores de irritação" são necessários nas relações entre Moscovo e as capitais da União Europeia e no Conselho Rússia-NATO? Talvez valha a pena chegar a acordo para evitar "voos de instrução" dos AWACS americanos e outros e, mais ainda, de aviões bombardeiros ao longo das fronteiras russas.

Aliás, existe uma alternativa. Na mesma conferência de imprensa com os adidos militares o general Mikhailov já prometeu enviar bombardeiros estratégicos russos Tu-160 e Tu-95MS com mísseis de cruzeiro a bordo "em voos de instrução para o Atlântico". "Não nos custa nada fazê-lo - disse o general. - Basta indicar o rumo, abastecer os aviões de combustível e avante!".

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