quinta-feira, 16 de setembro de 2004

Por que falar de Vargas?

A pretexto da modernidade e da inserção do Brasil no Primeiro Mundo, nossa classe política, a partir dos 90 do 1900, e a geração de tecnocratas de cultura reflexa ou mimética, deram vazão à prosaica mentalidade colonial, embutida nos arquétipos culturais da Casa-Grande e da Senzala, que definia o perfil da Fazenda Estado da oligarquia agrária, que parasitara o escravo e, com a República, passou a parasitar o Estado, apoiada no extrativismo e na agricultura comercial de exportação que a retribuíram com ganhos para manter o estilo de vida à européia, incluindo o eruditismo oco dissociado da realidade brasileira, que era a de um imenso potencial de desenvolvimento na direção de uma destino de grandeza.

Nesse cenário, o período Vargas, em suas dimensões econômica, social e cultural foi o primeiro mais significativo da República e o segundo no conjunto de nossa história: esforço da monarquia da resguardar a soberania nacional sobre o imenso patrimônio territorial herdado do colonizador lusitano, diante da cobiçada Inglaterra e dos Estados Unidos, à sombra de solertes argumentos desenvolvimentistas, como foi o da abertura dos portos e do Bolívian Sindicate.

Hoje, o que fora ameaças se efetiva graças a uma classe política, ignorante e oportunista no sentido mais torpe, e a uma elite orgânica sem visão estratégica, empanturrada da literatura exportadas pelos centros de poder decisório da oligarquia financeira hegemônica, como o da Globalização e do Pensamento Único acopladas.

Eis a razão porque Fernando Henrique Cardoso, ao despedir-se do Senado para assumir a Presidência da República, proclamou ser preciso enterrar a Era Vargas. Ela era o fantasma que o acusava de estar demolindo o Brasil, desinstitucionalizando-o para faze-lo voltar à situação colonial, com as privatizações desestruturadoras da economia e a deterioração de sua capacidade de autodeterminação, com o esgarçamento do tecido social para desmontar as bases do poder nacional: a auto-estima.

As conseqüências aí estão: um país de joelhos monitorado por organismos financeiros internacionais e entregando, à exploração das multinacionais, seus recursos naturais e estratégicos, como é o caso do petróleo, para nos desguarnecer de reservas indispensáveis às atividades produtivas por termos de importá-lo, até montemos uma infra-estrutura de produção com base na biomassa, no que temos produção ímpar em todo mundo. E essa vantagem já está ameaçada com o projeto de privatização de 50 milhões de hectares da floresta amazônica favorecendo os grupos internacionais, incluindo ONGs sabidamente financiadas por grupos políticos dos governos inglês e norte-americano: de um lado a WWF, capitaneada pelo príncipe Charles, e do outro o Endowment for Democracy, do Diálogo Interamericano. Será o domínio do Chatham House ou Royal Institute for International Affair e o chamado clube das Grandes Ilhas e do Council on Foreign Relations, criados no encontro da Round Table Group, que traçou o plano de fusão das oligarquias norte-americana e inglesa?

Por que falar de Vargas? Porque ele lembra tudo o que começou a ser desconstruído pelas deslumbradas elites orgânicas capitaneadas pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na esteira do tresloucado Collor: o monopólio estatal do petróleo com a criação da agência nacional do petróleo e as licitações, sobrepondo-a ao Ministério das Minas e Energia; o plano de desenvolvimento da Amazônia, contra a qual foi desferido o primeiro golpe com a criação da Sudam, que abriu a Amazônia às multinacionais, conforme o plano de Nelson Rockeffeler, que, 1942, foi rejeitado por Vargas; a deterioração das Forças Armadas, abandonando a indústria naval e a indústria bélica, a legislação social e trabalhista que dava consciência de de cidadania ao trabalhador; o ensino técnico profissional de nível médio necessário ao apoio dos quadros técnicos de nível superior; o sistema de seguro e resseguro que estava entregue às empresas estrangeiras, desviando para o exterior fabulosas somas de dinheiro; a criação de universidades como a Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ; o esfarinhamento do coronelismo e seus currais eleitorais; e, finalmente, programas cívicos culturais estimulando a auto-estima da juventude brasileira, base subjetiva do poder nacional.

Uma homenagem da Associação de Engenheiros da Petrobrás - AEPET

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