quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Sociologia: prática da ciência e determinação

Com efeito, sabe-se que, nos dias de hoje, consiste num “suicídio” manter-se à margem do circuito da economia de mercado. Suicídio porque as relações de um indivíduo dependem de suas possibilidades, enquanto agente, sempre limitadas pelas condições econômicas à sua disposição. Quanto mais restritas forem suas possibilidades econômicas, menor será o campo da interação de um dado indivíduo. Nas sociedades capitalistas deste início de século existem, em maior ou menor proporção, um grande contingente populacional à margem da economia de mercado. Tal contigente é entendido, tanto em linguagem acadêmica quanto midiática [quando estes se permitem a falar do assunto], como “excluídos”. E estes não cometeram “suicídio” em massa, posto que tais nãoo escolheram este caminho para si mesmos, mas, ao contrário, as condições em que estão foram-lhe impostas. Esse fenômeno é conhecido como “desemprego estrutural”, ou seja, é uma característica imanente ao modo de produção vigente, em seu atual estágio de desenvolvimento.

Os “incluídos” no mercado estão interessados em manter suas posições e, quando possível, ascender economicamente. Aqueles que estão ingressando no processo de produção almejam uma preparação afim de se adaptarem à concorrência do sistema. Buscam uma profissão com qual possam competir no mercado e, talvez inconscientemente, reproduzir as condições dadas.

Esse processo de preparação dá aos indivíduos uma profissão, normalmente especializada, e que não transcende os limites estritos de sua aplicação imediata. As profissões são, assim, apenas meios pelos quais se dá a reprodução do todo. No entanto, há aquele grupo de atividades que não oferecem, após o seu “aprendizado”, uma aplicação imediata, apesar de muitas serem por demais especializadas. Nesse grupo se enquadram os artistas e cientistas, estes últimos imersos na prática científica, com o “saber” propriamente dito. Entre estas estão as ciências “naturais” e “humanas”. As segundas estão preocupadas com um “objeto” vivo, não sujeito à experimentação, constituindo isso a sua especificidade; preocupadas em conhecer a “lógica” inerente da sociedade em todos os seus campos, de acordo, claro está, com o seu campo mais ou menos específico. Assim a geografia focaliza as relações do homem com meio físico, a psicologia com os processos psíquicos do indivíduo e assim por diante.

As preocupações que daqui em diante se levarão em conta, dizem respeito a uma disciplina específica das ciências humanas: a Sociologia. Preocupações que dizem respeito não somente à prática científica, mas também ao posicionamento do sociólogo enquanto um sujeito que está dentro de uma ordem específica – capitalista – e a influência deste meio na prática científica. Por isso foi levantado anteriormente o problema do posicionamento do indivíduo no mercado – que pode levar a determinações de outra ordem na produção sociológica que não sejam estritamente vinculadas à prática da ciência. Como exemplo, pode se ter aqueles indivíduos que ingressam no meio acadêmico e que pensam, antes de mais nada, numa posição confortável no “mercado de trabalho” subjugando o conhecimento sociológico adquirido não à problemas “científicos”, mas às “necessidades” do mercado ou às suas “necessidades” econômicas individuais. Não tem valor aqui o pretenso argumento de que o sociólogo, como qualquer outro indivíduo, necessita se posicionar no mercado “a fim de viver” e que isso seria algo determinante na sua trajetória enquanto sociólogo. A história demonstra que isso é, na maior parte dos casos, irrelevante para a obtenção e determinação do conhecimento – não importando se sociológico, filosófico ou seja lá qual for –, não foram desejos econômicos individuais que impeliram Marx ou mesmo Florestan Fernandes à construir um conhecimento voltado à crítica da ordem. As influências de uma tradição de pensamento humanista é o “fator” que pode ser considerado como “condicionante” para esse tipo de conhecimento. Do mesmo modo que a crença no progresso técnico e científico influenciaram o produção de Comte ou Durkheim. A “busca” de uma posição no mercado nesses exemplos supracitados é, claro está, uma fator ridiculamente secundário. Quem fala no mercado como um fim a ser alcançado revela duas características individuais:

(1) horizontes intelectuais estreitos, não se dando conta de como opera a lógica do sistema capitalista (irracional em si mesma); e

(2) identificação com a ideologia do status quo dominante, que pode ser relacionada com uma moralmente reprovável “mesquinharia”.

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