segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Das bestas feras guerreiras ao surgimento do amor

Fragmento do livro O processo civilizador de Norbert Elias no qual é sinteticamente relatado o definhamento, ainda que gradual, de um ambiente hostil, o da sociedade feudal do medievo, nas quais as relações sociais eram pautadas normalmente pela força dos calaveiros feudais para uma nova situação. Esta, conhecida e denominada como sociedade cortesã, foi a que possibilitou o surgimento do que se costuma chamar, no período hodierno, de "amor" e de todos os fenômenos e relações sociais que o acompanham. O fragmento fala, claramente, que o "amor" é uma relação social, que, como todas as outras, têm formas de institucionalização inequivocamente objetivas quando relacionadas à esfera da subjetividade.

Fragmento

‘Neste particular, emerge com grande clareza ligação entre a estrutura das relações na sociedade em geral e a estrutura da personalidade dos indivíduos. Na maior parte da sociedade feudal, onde o homem mandava e dependência das mulheres era visível e quase irrestrita, nada o obrigava a conter suas pulsões e a impor-lhes controles. Pouco se falava de “amor” na sociedade guerreira. E ficamos até com a impressão de que um homem apaixonado teria parecido ridículo nesse meio de guerreiros. De modo geral, as mulheres eram consideras inferiores. Havia mulheres em número suficiente e elas serviam para satisfazer as pulsões masculinas nas suas formas mais simples. As mulheres eram dadas ao homem para “sua satisfação e deleite”. Isso foi dito numa época posterior, mas estava de perfeito acordo com a conduta dos guerreiros em época anterior. O que eles procuravam nas mulheres era o prazer físico e, à parte isso, “dificilmente se encontrava um homem com paciência para aturar a esposa”.
As pressões sobre a vida sexual das mulheres foram, em toda a história ocidental, com a exceção das grandes cortes absolutistas, consideravelmente mais fortes do que as exercidas sobre homens de igual nascimento. O fato de que mulheres que ocupavam posições elevadas na sociedade guerreira, e portanto gozavam de um certo grau de liberdade, sempre tenham achado mais fácil controlar, refinar e transformar vantajosamente seus sentimentos do que homens de igual status talvez refletisse um hábito e um condicionamento precoce nessa direção. Mesmo em relação ao homem de status social aparentemente igual, ela era um ser dependente, socialmente inferior.


Em conseqüência, era apenas o relacionamento de um homem socialmente inferior e dependente com uma mulher de classe mais alta que dava origem à contenção, à renúncia e à conseqüente transformação das pulsões. Não foi por acidente que nessa situação humana aquilo que denominamos de “poesia lírica” evoluiu como um evento social de não meramente individual. — De idêntica maneira, como evento social — aquela transformação do prazer, aquela nuança de emoções, aquela sublimação e refinamento de sentimentos que chamamos “amor” finalmente surgiu. Não como exceção, mas em forma socialmente institucionalizada, surgiram contatos entre homem e mulher que tornaram impossível o homem forte simplesmente tomar a mulher quando ela lhe agradasse, o que tornava a mulher inacessível, ou acessível apenas a duras penas e, talvez porque fosse ela de classe mais alta e difícil de conquistar, especialmente desejável. Tal era a situação, o ambiente emocional da Minnesang, no qual, daí em diante, através dos séculos, os amantes reconheciam parte de seus próprios sentimentos.’

ELIAS, Norbert.O processo civilizador. Trad. Ruy Jungmann, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1993, Vol. 2., Formação do Estado e civilização. P. 78-79.

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