terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Ideologia, sociedade

A imagem causa, de certa perspectiva, uma impressão muito ruim. Não por se tratar de algo que é esteticamente desagradável pois desse viés, trata-se de algo próximo do irrelevante. Claramente é a violência contra o corpo o mais significativo. Causa em muitos aflição, um sentimento de aversão trazido pela capacidade de reproduzir imaginativamente a dor em si mesmo. É possível que esta percepção seja evidente para a maioria dos indivíduos. A outros, provavelmente, isto será diferente. Quiçá por um gosto mais refinado ou, simplesmente, pelo desejo socialmente estranho de sentir a dor — normalmente porque esta está, efetivamente, muito distante de se materializar.

A sujeição de um indivíduo a este tipo de situação é motivada apenas por certo senso estético, influenciado, claro está, pela reprodução de um comportamento — o que, obrigatoriamente, não quer dizer atitude — de massa. Não se trata, como é evidente, de uma prática individual original. Mas de algo exaustivamente reproduzido, mas que, ainda assim, mantém certo fetiche na sua realização.

Este fetiche é facilmente compreendido quando submetido à perspectiva dos modismos que permeiam à sociedade. Setores da sociedade submetem-se a isso objetivando trazer a si um conteúdo de significação amplo, ainda que este conteúdo seja, sob muitos aspectos, de obscura compreensão; e isto não por se tratar de uma constelação de significados complexa. Muito pelo contrário. A prática de certos modismos está vinculada ao desejo de participação dos indivíduos em certos grupos ou estratos sociais que o praticam. Assim, cada estrato tem seus modismos ou mesmo certo ritual para indicar a pertença de seus membros a ele.

Sabe-se que são vastos os modismos, bem como são vastos os grupos sociais e suas práticas determinadas, e isto nada mais são que obviedades sociológicas. Entretanto, o que é mais importante é trazer à tona que isto implica em uma outra obviedade sociológica: a da existência de um sem número de estratos sociais, dos estereótipos com se diz popularmente, por exemplo, como “modernetes” com seus típicos óculos de acrílico, dos “hippies” com suas sandálias de couro cru e embuste ideológico pacifista, dos “yuppies” e sua conhecida falta de senso moral até o típico e imbecilizado cidadão médio.

A existência de diversos grupos sociais, de inúmeros estereótipos implica, sabidamente, em uma fragmentação social, na a qual origina-se um discurso que leva à primazia do indivíduo no seu matiz individualista — escondida, grotescamente, sob o título da individualidade. Chega-se, pois, a um ambiente onde as “premissas” individuais são tidas como as mais sagradas coisas deste mundo, simplesmente pelo fato de serem individuais. Cada indivíduo terá, assim, uma concepção do mundo própria e “válida”, não porque verdadeira, sim porque individual. No entanto, isso não implica que tais premissas devam ser seriamente encaradas, até porque estas estão relegadas, cada vez mais, à esfera do “gosto” ou de preferências que são externas ou factíveis de serem percebidas do modo mais superficial possível. Como os móveis para a discussão racional estão em grande medidas ausentes, o relacionamento social pautar-se-á por preferências representadas de forma objetivamente material, isto é, por objetos facilmente obtidos no que se costuma chamar, no momento atual, de a mais importante instituição social, qual seja, o mercado. O “hippie” conseguirá suas sandálias de couro cru e suas idéias pacifistas da mesma forma que o “yuppie” conseguirá a sua primeira prostituta, no mercado. No entanto, mesmo que se comprem idéias no mercado, apenas marginalmente elas servirão para ação política. O mais importante é que elas, no momento atual, servem apenas como rótulos e não propriamente como idéias para ação política. O que se quer dizer é que tem se tornado mais importante ser pacifista, isto é, auto-intitular-se pacifista sem levar a cabo todas as conseqüências políticas que o pacifismo implica para o indivíduo. Basta apenas fazer o uso do estereótipo do pacifista. Não que se quer dizer aqui que a ação política pacifista não existe. O que está a se dizer aqui é que ela perde, a cada dia, seu ímpeto, significância e, mais importante, efeito político. E isto vale para todos os tipos de ação política.

A esfera da ação política torna-se apenas um espectro. A esfera da moral, que os circuitos midiáticos costumam chamar de “esfera da ética”1, também está submetida ao mesmo processo de esgarçamento que passa a ação política, e o mesmo acontece com a totalidade do tecido social.

Os atributos do indivíduo são sublimados. A “liberdade” e a “felicidade”, ademais sociologicamente inexistentes, relegadas ao seu plano mais rasteiro, servem de justificativa para o mais desenfreado egocentrismo, encadeando-se de uma maneira sem par com a fragmentação social existente, intensificando-a. O indivíduo não precisa ser. Basta apenas parecer, isto é, utilizar-se dos mais variados estereótipos; e representar, isto é, agir de modo não se comprometer com mais determinados papéis sociais, a trocar de valores e princípios como quem muda a roupa. Relacionamentos não mais se constroem. O casamento é uma “jaula” e exige comprometimento e dedicação que adultos infantilizados não estão à altura de cumprir, sendo preferível optar pelo desregramento e permissividade sexual, no qual cada indivíduo vê o outro como alguém que pode usar e, depois, descartar como uma garrafa plástica. Os valores políticos, bem como o senso estético, mudam de acordo com moda. Crianças são educadas por especialistas pois seus pais, infantilizados, são incapazes de educá-los. Assim, o indivíduo “descolado” é capaz de sentir dor para reproduzir um comportamento e gosto da moda, como o faz o protagonista anônimo da foto que ilustra esse texto, mas é incapaz de pensar criticamente sobre si e sobre o mundo que o cerca, preso nas suas pretensas concepções de mundo.

Desse modo política perde seu espaço para concepções de mundo individuais, irrelevantes por si. Feministas de outrora representam caricaturalmente comportamentos machistas, e a liberalização sexual, propagada inicialmente pelo feminismo, dá lugar a pemissividade sexual e retira do homem seu status humano, colocando-o sob um estatuto animal, tornando-o incapaz de amar, afinal quem precisa amar se possível apenas trepar?



Notas:

1A ética refere-se ao estudo da moral. Diz respeito à filosofia e à não vida cotidiana.

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