quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Em defesa de Günter Grass

Notavelmente, certos indivíduos são julgados, publicamente — embora sem a possibilidade de se defender —, por conta de acontecimentos que eles, exatamente na sua condição de indivíduos, não poderiam ter qualquer tipo de controle, visto a natureza política e social das instituições e práticas que foram-lhe impostas pelo desenvolvimento histórico. O indivíduo só é possível na sociedade e, mesmo que supostamente tenha um senso crítico assaz desenvolvido, ele não pode lutar contra instituições que lhe transcendem, que lhe fogem ao controle. Um indivíduo jamais poderá recusar, por exemplo, aprender a língua da sociedade na qual ele nasceu, tampouco poderá recusar-se a seguir convenções ora em voga nessa mesma sociedade, bem como, não poderá deixar de ser o que a sociedade e a comunidade que o cerca espera que ele seja. Se o contrário ocorrer, isto é, se por algum motivo, nem sempre evidente — aliás sempre difícil de compreender causalmente — ele possuir algum tipo de comportamento desviante, certamente lhe será destinado uma posição marginal no seio da sociedade. Se o desvio de comportamento for muito grande, como, por exemplo, no caso de um indivíduo que não seja capaz de um convívio pacífico com seus semelhantes, lhe restará a possibilidade de tratamento psiquiátrico, psicológico ou mesmo, dependendo da intensidade de sua insociabilidade, prisional.
O que se quer depreender é que não existe indivíduo fora da sociedade, ele só é possível dentro da sociedade e só tem sua possibilidade objetiva depois de passar por um processo da socialização. O indivíduo tem que ser ativamente ensinado a conviver com seus semelhantes. Isto é um dado básico para historiadores, sociólogos e pessoas com algum senso crítico ou pessoas que, por exemplo, educam ou já educaram seus filhos: educar é ensinar o que é bom e mau; é ensinar a falar a língua; é incutir valores e responsabilidade, aquela capacidade de responder pelos seus atos. Se os indivíduos são inconscientes desse processo, cabe às Ciências e à Filosofia compreender ou dar as estruturas da compreensão desse tipo de processo, a socialização.
É apenas por esta razão que não se pode culpar, jamais, um praça combatente da extinta Wehrmacht alemã pelos horrores do nacional-socialismo: o genocídio judeu e os mais de 50 milhões de mortos da Guerra, bem como o autoritarismo tipicamente fascista que usava a violência contra qualquer tipo de oposição política — restando apenas a atividade subversiva de caráter individual, sujeita, nesse caso, à delação e, por conseguinte, a internação do delatado em um campo de concentração ou extermínio. Tampouco poderá ser imputada qualquer tipo de culpa mesmo que atitude desse suposto combatente seja a da defesa, enquanto militar, de seu país. É só se lembrar que nem todos os alemães, como é óbvio, eram adeptos do nacional-socialismo. Antes de mais nada o combatente defende a sua pátria —, a sua honra e cumprimento do seu dever (não importando o quão ideológico isso possa ser), isto é, do seu papel social imposto pela sociedade — certamente com o sentido já conhecido do zelo tipicamente germânico. Isto é mais notório quando se trata de um país que tem sua existência correlacionada ao militarismo prussiano e às três guerras que lhe deram existência: a Guerra do Schlewig-Holstein, a Austro-Prussiana e a Franco-Prussiana, todas elas provocadas pelo gênio político inquestionável de Otto von Bismarck e conduzidas pelo não menos genial Helmut von Moltke.
Tampouco se pode culpar um praça de dezessete anos por ter se alistado numa das mais temíveis instituições do nacional-socialismo. Um indivíduo de dezessete anos será, sempre, intelectualmente imaturo — mesmo que se trate de um gênio — e, por isso, poderá fazer escolhas equivocadas, o que, entretanto, não dá posição a ninguém de poder julgá-lo, a não ser que ele atente contra a ordem legal estabelecida. Alguém que pretenda julgar um idoso pelos seus excessos de juventude, agirá da perspectiva de um moralismo autoritário, vil e torpe, de uma hipocrisia recalcitrante, típico de mexeriqueiros fúteis, arrivistas insignificantes que usam sua posição — obtida não por mérito, mas em razão das circunstâncias —, para detratar aqueles que são, de algum modo, muito mais relevantes para a sociedade e a cultura. Mas, para aqueles que não têm sua consciência limitada pela duração de sua existência, apenas colocam sua insignificância em relevo.
Günter Grass, um dos maiores escritores alemães do século XX, sem dúvida incomparável, ainda que certamente no mesmo nível de importância de Goethe, Schiller, Heine e Mann para a Literatura — e a referência aqui é à Alta Literatura, opondo-se a literatura de massas, o que é claramente uma ponderação valorativa a cerca da natureza dessa arte (que, como toda arte, é aristocrática, avessa à democratismos) —, autor de obras como O tambor e Anos de cão, é atacado em um artigo por Gianni Carta, (Carta Capital, n. 408, pp. 46-47) por ter tomado parte na Segunda Guerra Mundial, precisamente nas Waffen-SS, de acordo com o que foi revelado em suas memórias, ademais não lidas pelo autor da crítica. Carta o trata, por isso, porque, ao que parece, ele entende que isso o possibilita imputar culpa a Grass, quiçá porque isso pode dar azo, no entendimento de Carta, a qualificar Grass objetivamente como um nacional-socialista, um nazista do pior tipo.
Grass tomou parte nos combates da Segunda Guerra Mundial ainda adolescente, na época da chamada “Guerra Total” dos alemães, quando todos homens aptos para a Guerra eram convocados e a deserção implicava inexoravelmente na punição com a pena capital. O que Gianni Carta espera de um adolescente? Que ele se ofereça à imolação contra o nacional-socialismo, num ato de resistência passiva? Que ele fuja num ato heroísmo ou, dependendo da perspectiva, de covardia ante a Guerra?
Será que Grass já deveria ser uma figura representativa para a cultura na adolescência da mesma forma que o é hoje, depois de ser reconhecido como um dos maiores escritores em atividade e, portanto, ter uma atitude exemplar que ele, talvez, teria caso já naquele momento possuísse a mesma significância para a cultura alemã que, na época, possuía Heidegger? Este, último, também, acossado injustamente por ter sido enquadrado como um nazista, apenas por ter sido, por curto espaço de tempo, membro do partido nazista. O que o vitimou por demais, tendo vivido por muito tempo dependendo da ajuda de Herbert Marcuse, que enviava víveres pois Heidegger foi impedido de trabalhar por ter sido considerado nazista. Ao que parece, Grass, no entendimento de Gianni Carta, seja merecedor do mesmo suplício injusto e humilhante pelo qual passou Martin Heidegger.
Ao julgar dessa forma Günter Grass, Gianni Carta, julga também a sociedade alemã, pois imputa a ele a culpa pelo Nacional-Socialismo. Carta, entretanto, sequer está na posição de Lech Walesa, ex-presidente polaco, que, de acordo com o exposto no artigo de Carta, faz um juízo duro a cerca de Grass. Segundo Carta, Walesa diz: “Perdi meu pai na Guerra, e Grass estava na SS”. Walesa está envolvido diretamente no conflito e tem, por causa dele, uma enorme perda, que é a da figura paterna. Não pode, pois, fazer um juízo objetivo sobre a significância de Grass e de sua obra. A perspectiva de Walesa é por demais trágica para tanto — ainda que, como se quer fazer crer aqui, ele deveria ter em vista, dado que representa uma figura pública, uma maior sobriedade nos seus comentários e guardar para si especialmente os de caráter mais emotivo, pois sendo a figura pública que é, certamente ele tem noção do alcance político de suas conjecturas.
Gianni Carta, por outro lado, não teve o mesmo envolvimento na Guerra que teve Walesa. Está distante dos acontecimentos e, portanto, sem envolvimento de ordem emotiva — como o autor dessas linhas supõe — e mesmo que o possuísse, deveria ter a obrigação e a lisura de dizê-lo claramente, exatamente para se permitir uma avaliação clara de sua posição. Ao agir da forma como faz, entretanto, age como se fosse um vingador dos oprimidos pelo aço nazista, julgando figuras que nada podiam fazer diante de um acontecimento de maior ordem e envergadura, como é o nacional-socialismo e a Guerra. Fazer isso depois que este adolescente se tornou o Günter Grass que qualificamos como grande artista é como atacar a integridade alheia e reconhecida para tentar, a partir disso, obter reconhecimento para si. Nada mais tacanho e mesquinho — que ainda é mais notório uma de suas obras, segundo diz vulgarmente Carta, é uma “droga”.
Norbert Elias, sociólogo alemão e, também, judeu, retrata a sociedade alemã e tenta lançar luz sobre o fenômeno do nacional-socialismo em Os alemães, editado pela editora Jorge Zahar no Brasil. Teve seu pai e mãe mortos em campos de extermínio, mas seu pensamento, entretanto, não é influenciado de modo tão drástico por essa perda. Elias mostra-se capaz de tentar compreender o nazismo sem a todo momento caçar um culpado ou imputar a culpa a alguém. Está, ao contrário, preocupado em saber a causa e compreender o fenômeno do fascismo na Alemanha. E o faz de modo exemplar. E a crítica que se pode fazer ao trabalho dele, terá que ser, fatalmente, sociológica, terá que fazer o uso de um método de validade objetiva para o questionamento de seus resultados, também objetivos. O fenômeno do nacional-socialismo não era, de acordo com o que Elias reporta, diretamente relacionado ao extermínio dos judeus. Pelo que Elias fala, aquela perspectiva não era levada a sério pelos alemães, isto é, não se acreditava que se estava, de fato, falando a sério, pois acreditava-se que era apenas um modo de ser fazer propaganda. Tanto que é que, por outro lado, os responsáveis pelos campos de concentração, não eram pessoas comuns.
As SS, em especial as Totenkopfverbande (Formações da Caveira), eram responsáveis pelos campos de concentração e, além disso, pelo “despovoamento” promovido nos territórios soviéticos. Tanto nos campos quanto nos territórios ocupados seus contingentes eram formados majoritariamente por indivíduos que estavam, por assim dizer, à margem da sociedade: ex-presidiários, vadios, criminosos e assassinos, muitos deles retirados de presídios para executarem sua desgraçada tarefa. O Alto-Comando do Exército Alemão impediu, em todos os momentos da Guerra, que suas tropas executassem tal tipo de atividade e as manteve longe dos locais onde esse tipo de ação se dava – exatamente para que não se afetasse o moral das tropas. O código de honra militar, tipicamente prussiano, requeria que o soldado fosse um guerreiro e não um assassino. Entretanto, os soviéticos durante toda Guerra monitoraram, através da Resistência nos territórios ocupados, as ações das SS. O que vem a explicar a atitude das tropas russas quando estes tomaram a ofensiva, a partir de 1943: o massacre das tropas alemãs, mesmo após terem se rendido, e da população civil como represália à ação das SS.
Por desconhecer a história, talvez Gianni Carta tenha pensado que qualquer membro do SS era um matador de judeus. Não eram. As SS não eram homogêneas, mas se sabe que as Waffen-SS, a qual Grass disse, segundo Gianni Carta, ter participado, lidavam diretamente com ações de caráter militar, na linha de frente ou na defesa do Reich. É possível que Grass retrate isso em seu Anos de cão, visto o personagem Harry Liebenau toma participação na guerra exatamente na mesma época que Grass, o que pode ser um evidente indício biográfico, ainda que Liebenau estivesse lotado na defesa anti-aérea, na Luftwaffe.
A tentativa de imputação de culpa a Grass levada a efeito de modo por Carta é, como se vê, injusta. É ainda mais quando se observa que ela é parte de uma prática de maior envergadura nos meios de comunicação, em escala global, de atribuir a culpa, a todo instante, aos alemães, de um modo geral, pois tentar atingir, de modo tão descuidado uma figura tão relevante para cultura alemã e imprescindível para a superação do nazismo para própria sociedade alemã — que parece ser o caráter político mais relevante embutido, claramente, na obra de Grass — pode ter uma conseqüência imprevista de grande importância: incutir em parte da sociedade alemã um sentimento mal resolvido de culpa e desejo de revanche contra as sociedades de tipo liberal, contra as democracias liberais, o que pode tornar o fenômeno dos skinheads neonazistas, algo crônico não apenas para a Alemanha, mas para parte do Ocidente que se identifique de algum modo, com as pretensões de raça superior dos nazistas. Isto é exemplificado pela presença, ainda que marginal, de skinheads em toda Europa, e mesmo em locais que ele não deveria existir: Ucrânia, Rússia e mesmo no Brasil e EUA. Afinal, os dois primeiros, assim como os judeus, foram vitimados pelos nazismo como não sendo dignos de não serem mais que escravos dos “arianos”. E no Brasil e EUA, é algo ainda mais bizarro, pois a formação do Brasil é claramente multi-étnica.


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