sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Psicanálise como farsa, 'serviço social' como descolamento da realidade

Psicanálise

Ela [A psicanálise] envolve uma tensa situação social em que o indivíduo é levado a repu­diar sua antiga concepção de si mesmo e a assumir uma nova identidade, a que foi programada para ele na ideologia psicanalítica. Aquilo que os psicanalistas chamam de "transferência", a intensa relação social entre analista e analisando, consiste essencialmente na criação de um meio social artificial dentro do qual possa ocorrer a alqui­mia da transformação, ou seja, dentro do qual essa alqui­mia possa tornar-se plausível ao indivíduo. Quanto mais durar a relação e quanto mais intensa se tornar, mais o indivíduo se liga à sua nova identidade. Finalmente, ao ser "curado", essa nova identidade já se tornou realmente aquilo que ele é. Portanto, não há por que negar, com uma gargalhada marxista, a afirmação do psicanalista de que seu tratamento será mais eficiente se o paciente o visitar com freqüência, durante muito tempo, e lhe pagar hono­rários consideráveis. Conquanto seja óbvio que isto coin­cide com o interesse econômico do analista, é bem plau­sível sociologicamente que a atitude esteja fatualmente correta. O que a psicanálise faz é na verdade a construção de uma nova identidade. A ligação do indivíduo a essa nova identidade aumentará evidentemente na proporção direta do tempo, da intensidade e do investimento finan­ceiro que ele aplicou em sua construção. É claro que sua capacidade de rejeitar toda a história como uma impos­tura se tornará mínima depois de ele haver investido vá­rios anos de sua vida e uma quantia astronômica de dinheiro. pp. 111-112.

Serviço Social

[...] O serviço social norte-americano tem sido muito mais influenciado pela psicologia do que pela sociologia, no desenvolvimento de sua "teoria". É bastante provável que isso esteja relacionado com o que dissemos anteriormente sobre as posições relativas da sociologia e da psicologia na imaginação popular. Há muito que os assistentes sociais vêm travando uma batalha árdua para serem reconhecidos como "profissionais" e para ganhar o prestígio, o poder — e a remuneração — que tal reco­nhecimento acarreta. A procurar um modelo "profissional" para imitar, verificaram que o mais natural era o do psi­quiatra. E assim os assistentes sociais contemporâneos recebem seus "clientes" num consultório, realizam com eles "entrevistas clínicas" de cinqüenta minutos, registram suas entrevistas em quatro vias e as analisam junto a uma hierarquia de "supervisores". Tendo adotado a atitude ex­terior do psiquiatra, era natural que também adotassem sua ideologia. Por isso, a "teoria" do serviço social americano contemporâneo consiste predominantemente numa versão um tanto expurgada da psicologia psicanalítica, uma espé­cie de freudianismo dos pobres que serve para legitimar a alegação dos assistentes sociais de que ajudam as pessoas de uma maneira "científica". Não estamos interessados aqui em investigar a validade "científica" dessa doutrina sintética. Nosso ponto de vista é o de que ela não só tem pouquíssima relação com a sociologia, como se caracte­riza-se, na verdade, por uma marcante obtusidade face à realidade social. A identificação da sociologia com o ser­viço social no espírito de muitas pessoas é de certa forma um fenômeno de "hiato cultural", que data de um período em que assistentes sociais ainda não "profissionais" lida­vam com a pobreza, e não com a frustração libidinal, e o faziam sem o auxílio de um ditafone. pp. 14-15.
BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas. São Paulo, Círculo do Livro, 1976.

6 comentários:

  1. apesar de você ter sugerido o segundo fragmento, começo dizendo que não estou certa de que ele lide com uma das idéias mais consistentes sobre psicanálise, que em tantas vertentes parece mais uma seita. anyway, sei ainda pouco sobre isso e não despendido tanto tempo assim no assunto. mas que há mais a discutir e que é "pulado", sim, há.

    a parte sobre o serviço social é excelente. e, no geral, sobre a psicologização de tudo como viés mais fácil é inegável.

    vamos tomar umas?

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  2. Quer aparecer?
    Vá se informar melhor sobre o Serviço Social enquanto profissão abrangente.
    Faz tempo que não leio tanta bobagem.Só "tomando umas" mesmo...
    A psicanálise e psicoterapias são necessárias às intervenções especializadas, em saúde mental.
    Os Estados Unidos são tudo de pior para o mundo e o mais engraçado são as viagens para as compras e dos "children" à Disneylândia.
    Sem falar naqueles que dariam a vida para morar lá...

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  3. Desculpe, mas voce não sabe nada de Psicanálise ou Psicoterapia, ou mesmo de Sociologia. Será que voce já ouviu falar em terapia de grupo. Acho que quando se fala em grupo se fala em sociedade, comportamento social. O objeto da Sociologia é a sociedade composta por grupos e depois por indivíduos, cada qual com seu pensar, sentir e isso É motivo tanto para investigação social, quanto PSICOTERÁPICA. Ler uma coisa dessas é realmente ver como a ignorância ainda impera no Brasil. Se voce for Sociologo, por favor jogue o diploma fora.

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  4. Certos comentários demonstram marcantmente a obtusidade daquele que comenta: ele não percebe que o excerto acima é uma citação de Peter Berger. E infere que eu e, quiçá, Peter Berger, não entendem nada de sociologia. Realmente. A sociologia brasileira, alemã e norte-americana tem que padecer com certo trogloditas intelectuais: não sabem montar um argumento e, o que é assombroso, se aperceberem de uma citação. E não se percebem que a sociologia, por tratar de relações sociais, está mais habilitada que qualquer outra ciência a lidar com grupos sociais, afinal de contas, o que se passa numa terapia de grupo ou na psicanálise é exatamente o que Berger fala: a criação de um meio social artificial. Só que, claro, perceber isso ou criar um argumento que tenha uma forma racionalmente aceitável exige inteligência. O que se percebe ser ausente no comentário acima.

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  5. Toda a sociedade humana é uma artificialidade já que não é parte do mundo animal nem do mundo natural.

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  6. Nenhuma sociedade humana é uma artificialidade porque o homem é um animal político, é um animal natural da pólis (Aristóteles). Dizer que a sociedade humana é uma artificialidade é negar a natureza social (ou política) do ser humano, isto é, uma tolice de grosso calibre.

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