segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Erros estratégicos: o espetáculo da morte

Os EUA e a mídia internacional fizeram da execução de um homem um fenômeno de mídia sem precedentes. Mesmo os nazistas, quando faziam suas execuções em massa, cuidavam que ninguém soubesse.
A execução de um homem que era chefe de Estado de um país sem poderes e semi-destruído como a máxima realização da única superpotência mundial é imoral. Entretanto mais infame é a forma como se tratou a vida de um ente humano e o espírito de vingança relacionado a ele. Paga-se com a morte de Saddam os mortícinios perpetrados por ele. Como se isso fosse talvez melhorar a situação que, de ora em diante, persiste.
Uma vingança sem legitimidade moral, dado que os EUA jamais foram diretamente desafiados. Mas a imoralidade não cessa apenas nisso. Saddam, quando conveniente aos interesses norte-americanos, foi subsidiado, como na Guerra Irã-Iraque. Na aventura caudilhesca em 1990-91, cometeu seu último equívoco.

Não se quer aqui elevar a execução de Saddam Hussein como um grande crime ou injustiça. Simplesmente o que se quer ressaltar é a maneira bizarra de como a morte de uma pessoa, um assassinato, pode ser promovido a um espetáculo planetário. Sensacionalista de um modo tão terrível. Não é necessária grande sensibilidade para perceber as imagens transmitidas em tempo real da corda sendo atada no pescoço de Hussein como uma barbarização. E tudo isto a ser proferido como se fosse um pretenso ato de justiça.

Não o é. Trata-se apenas de uma execução, com formalidades jurídicas ao gosto de ideólogos, cuja estreiteza de pensamento confunde legitimidade com o aparato racional-legal. Também não se fala de que "direito" os EUA têm de executá-lo. Não, é uma questão de força, de potência, e o direito, aqui, cede lugar à violência, à força dos vencedores da guerra a fazer a história à sua maneira.

O mais importante, no fim das contas, é que provavelmente esse será um dos únicos efeitos da invasão norte-americana. Além da imersão do Iraque à uma condição de guerra civil, ao mesmo tempo que, cada vez mais objetivamente, o único Estado capaz de resistir ao poderio norte-americano na área, capacita-se no fabrico de armas de dissuasão.

Se, no momento que os EUA decidiram pela intervenção no Iraque, a situação era desfavorável aos interesses norte-americanos, dado que Saddam Hussein estava a negociar já petróleo em Euros, favorecer empresas não norte-americanas na extração de petróleo, além de, fatalmente, poder fechar acordos com um potencial rival à pax americanna, a China. O que se vê hoje, no momento presente, é a objetivação de um erro estratégico.

Saddam, bem ou mal conseguia manter Estado iraquiano a funcionar. Era um fator para assegurar a estabilidade interna e mesmo externa, pois poderia, como foi na década de 1980, ser usado como títere das potências ocidentais contra o Irã. No momento presente é exatamente o oposto que ocorre. O Irã talvez já possua os meios para a fabricação de artefatos nucleares.

O problema é que com a instabilidade originada pela ocupação estadunidense, os xiitas, grupo majoritário no Iraque, ressentidos e sedentos pela desforra, não cessarão de combater a minoria sunita: os combates entre cada um dos grupos tem sido assaz sangrentos. A esse fato há de se somar que, mesmo que a política global norte-americana tenha objetivos estratégicos de grande importância, ela deve ceder às decisões políticas dos eleitores; sabe-se já que boa parte do eleitorado nos EUA é contrária à ocupação. E, mais importante, o próprio comando militar norte-americano reconhece, em certa medida, que não se pode manter a situação iraquiana por muito tempo.

Assim, a guerra promovida pelos EUA acabará, por certo, como um sério revés aos seus interesses. Fatalmente, no momento que os EUA deixarem a Iraque, abrirão espaço para iranianos e russos, num primeiro momento. Em seguida a União Européia. Como se vê, tudo o que os EUA não querem poderá acontecer: uma rival diplomático de longa data ganhando influência e, seu mais importante rival geopolítico, a Rússia, que não cede em seu apoio ao Irã, fatalmente colhendo louros por sua diplomacia consistente.

Como tanto Rússia e Irã não têm sequer uma fração da capacidade econômica norte-americana, os investimentos, se depois que a guerra civil terminar, econômicos europeus, chineses e mesmo japoneses serão mais bem vindos. E isto é muito importante, pois demonstra com grande evidência o erro estratégico estadunidense.

Os Estados Unidos poderiam ter feito uma ocupação efetiva logo na primeira guerra do Iraque sem a necessidade de destruir o Estado iraquiano, sem ter que derrubar Saddam e fazer da ocupação algo de positivo para a economia iraquiana ao reconstruí-la e torná-la dinâmica ao mesmo tempo que a colocasse em certo nível de dependência. As condições objetivas eram presentes. Saddam é um sunita e como tal favorável à separação entre o clero e o Estado, assim como a Turquia o é. Mas, ao atender apelos de conservadores e ufanistas passionais, que jactam-se do poderio norte-americano, preferiu-se a ação militar. Não se sabe o porquê da miopia política demonstrada neste caso, uma vez que se sabe que os Estados Unidos são uma potência multidimensional e poderiam trazer o Iraque para sua órbita sem ação militar, sem tantas mortes e com uma finalidade inquestionavelmente progressista.

Todos sabem da capacidade de uma economia capitalista de destruir estruturas antiquadas e assim acabar de uma vez por todas com o prestígio dos xiitas no Iraque. E esta ação seria, por outro lado, uma forma de elevar o prestígio norte-americano na região, sabidamente atroz.

Poder-se-ia dizer que isto seria contra o interesse norte-americano de conseguir petróleo por baixos preços ou mesmo de assegurar fornecimento de petróleo para empresas norte-americanas. O segundo objetivo é claro e, evidentemente, está na pauta da diplomacia norte-americana. Já o primeiro não é tão facilmente defensável.

O aumento dos preços do petróleo favorece a reorientação da matriz energética dos EUA ao mesmo tempo que torna mais caro o desenvolvimento do rival estratégico da vez, que cada vez mais se legitima como tal, a China. Mesmo que os Estados Unidos não tenham assinado o Protocolo de Kyoto, eles sabem que não poderão manter um nível de consumo de combustíveis fósseis no nível em que está. O aquecimento da Terra é um fato consumado. E a mudança da matriz energética é visível: os Estados Unidos aumentam sua produção de álcool sistematicamente. Suas empresas, como a GM, estão na ponta das pequisas com motores a hidrogênio.

Ainda que tenha sido um erro importante a ocupação militar no Iraque, pelo menos os objetivos secundários foram atingidos. Os preços do petróleo aumentaram, a matriz energética altera-se a passos largos. Mas a ideologia norte-americana foi desgastada. Seu prestígio é cada vez menor em áreas importantes. A liberdade de expressão serviu apenas para ressaltar a imoralidade escondida por trás das grandes empresas de mídia, que fizeram da morte de Saddam um evento planetário bárbaro.

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