terça-feira, 13 de março de 2007

Etanol, Bush e a Venezuela

A diplomacia inconseqüente de Hugo Chávez colhe alguns frutos amargos


Fechar uma fábrica da Coca-Cola, promover atos ‘anti-Bush’ na Argentina, Bolívia e Nicarágua, além qualificar a alteração da matriz energética do petróleo para fontes renováveis como antiético é algo que se pode esperar de adolescentes ingênuos que se iniciam na vida política. A Hugo Chávez faltou apenas entrar numa lanchonete do McDonalds e gritar “Fora Bush!”.
Hugo Chávez
A promoção de qualquer ato ‘anti-Bush’ é por si mesma inócua. Não leva a nenhuma política de resultados objetivamente positivos. É de se duvidar que na Argentina, Bolívia, Venezuela ou Brasil os cidadãos diminuirão o consumo de Coca-Cola ou de outros bens produzidos nos EUA por conta de arroubos desse tipo.
É certo que para muitos cidadãos da América do Sul os Estados Unidos podem representar algo que pode ser pintado com cores muito sombrias: país do imperialismo e da exploração neo-colonial, das grandes empresas desumanas1. Mas para tantos outros, os EUA representam coisas de muito positivas. É o país de tradição revolucionária e liberal que antecede mesmo a Revolução Francesa. O país dos Federalistas, estirpe de intelectuais nacionalistas, progresssitas que ajudaram a criar uma sociedade livre que se tornou a mais rica do mundo. Em produção de conhecimento e cultura não há no mundo quem lhe faça face — e tanto mais em poder.

Menosprezar a importância e primazia dos EUA pode ser temerário. Hugo Chávez, entretanto, incorre sistematicamente nesse tipo de comportamento. Agora começa a colher seus malfadados frutos. A alteração da matriz energética estadunidense para fontes renováveis resulta da necessidade de diminuir a dependência de fornecedores de matérias primas em que os Estados Unidos já não podem confiar — entre esses se situam a Venezuela de Hugo Chávez e os fornecedores do instável Oriente Médio.

A Venezuela é um dos maiores fornecedores de petróleo para os EUA. Fatalmente, a alteração da matriz energética lhe será danosa, pois diminuirá o consumo norte-americano e, conseqüentemente, as vendas de petróleo. De imediato, dificilmente os preços do petróleo cairão. Mas em quinze ou vinte anos, o aumento da infra-estrutura de produção e distribuição de etanol talvez venham a forçar a diminuição dos preços do petróleo. A partir de algum ponto o etanol será economicamente mais vantajoso. Além de já possuir a vantagem de ser uma fonte renovável e menos agressiva, sob certos aspectos, ao meio ambiente. A produção do etanol implica em desmatamento, mas tende não aumentar mais a proporção de carbono na atmosfera.

Nesse ponto começa a inflexão. Com os preços e vendas do petróleo diminuindo num futuro previsível — e isto não apenas pelo etanol, mas também por conta do biodiesel — a Venezuela pode se dar muito mal. É pouco o tempo que resta para a Venezuela desenvolver-se. Ou o Estado venezuelano aproveita conjuntura que lhe é favorável para diversificar a sua economia, consolidando o mercado interno, ou em vinte anos terão o ostracismo econômico como cenário possível.

Hugo Chávez, entretanto, não parece interessado apenas no desenvolvimento venezuelano. Quer conferir à Venezuela um status político regional desproporcional à sua importância. Faz uma política de potência regional quando no muito é, ainda, mero fornecedor de matérias primas.

Quando necessitou de apoio do Brasil, para assegurar a instabilidade crescente que a oposição interna e externa criou na Venezuela, o governo brasileiro o ajudou: forneceu petróleo quando da greve do setor petrolífero, gado para fomentar o aumento do rebanho, a entrada no Mercosul, entre outras coisas.

Chávez não se mostrou confiável. Na primeira oportunidade orientou, ao que parece, o presidente boliviano Evo Morales a nacionalizar as empresas do setor de gás à revelia dos interesses brasileiros. Incitou outros países de América do Sul à políticas de cunho desenvolvimentista e distributivo, mas ao custo de certas alterações institucionais — como é o que ocorre neste momento no Equador — que não interessam ao Brasil.

É possível afirmar que o Hugo Chávez já não conte, sob nenhum aspecto, com o beneplácito do Brasil e que sua presença comece a se tornar um estorvo. A diplomacia brasileira, ainda que suscetível a críticas — em vista da multiplicidade de interesses da sociedade brasileira — é conseqüente e tem orientação de longo prazo, sendo reconhecida internacionalmente por isso.

Chávez fala que os EUA estão a ‘comprar’ os países da América Latina, quando ele usa o mesmo expediente ao financiar projetos vários nos países da região. A questão é que a Venezuela nem de longe pode competir com os EUA.

De fato, a alteração da matriz energética norte-americana acarretará em desvantagens para Caracas. Mas elas se tornarão mais graves. No presente momento é simples para a Venezuela conseguir apoio e ajudar países como Cuba ou Nicarágua. Mas num futuro não muito distante, esses países poderão tornar-se fornecedores de etanol para os EUA. Os países da América Central são pequenos, poderão produzir milho ou mesmo etanol a partir da cana da açúcar, como Cuba tenderá a fazer logo que Fidel falecer. E isto fatalmente irá atrair ainda mais esses países para a órbita norte-americana.Usina de produção de álcool combustível

E o argumento de Chávez, de que a destinação de parte da produção agrícola irá afetar negativamente as populações latino-americanas, tenderá a perder importância. É claro que no México e em países que preferirem produzir milho o problema de abastecimento alimentar tornar-se-á mas grave. Mas no caso do Brasil, o que Chávez diz não tem o mínimo cabimento.

O Brasil usa menos de 8% de suas terras aráveis, a fronteira agrícola pode ser expandida ou mesmo dobrada com um mínimo de impacto se tomados todos os cuidados ambientais. E nisso, não tem nada de anti-ético. E nem na América Latina existem 300 milhões de famintos, nem nada de anti-ecológico — muito pelo contrário, há problemas maiores com a queima, produção e beneficiamento de produtos a partir do petróleo.

A questão é que Chávez está a ver que em menos de quinze anos que a ‘potência energética’ deixará de ser a Venezuela e talvez se torne o Brasil ou mesmo que a produção seja diluída entre os países da América do Sul, diminuindo sensivelmente a importância venezuelana. O etanol, além de tudo, pode ser utilizado como substituto do petróleo na obtenção de derivados da petroquímica, a ‘alcoolquímica’2 tenderá a substituir o petróleo com grande vantagem, afinal trata-se de uma fonte renovável. Logo que a produção aumente de escala, os custos torna-se-ão reduzidos na cadeia produtiva e em menos de vinte anos é possível que o demanda mundial por petróleo caia sensivelmente, fazendo com que seu preço vá abaixo — o que pode colocar por terra o poder de barganha dos países produtores de petróleo.

Por trás do discurso que apela para a ética, está o interesse de Hugo Chávez de manter a posição de relevo da Venezuela. Não há nada de tão problemático que não possa ser resolvido. Chávez quer que o gás e o petróleo sejam ainda as fontes de energia básicas apenas porque eles os tem em grande quantidade e os vende a altos preços no mercado internacional. Não tem qualquer posição moral para falar dos perigos ‘éticos’ envolvidos na questão. O único problema ‘ético’ que existe, é o fato dele mascarar a realidade com um discurso pífio e julgar-se em condição de conversar sobre o tema ou mesmo convencer as autoridades brasileiras do que quer que seja. Sua conduta irresponsável e temerária, do ponto de vista internacional, está rendendo frutos amargos para a Venezuela. Chávez apenas ajudou a acelerar — do mesmo que a instabilidade no Oriente Médio e a Guerra do Iraque — um processo inexorável.

E esse processo resultará em ganhos principalmente para os Estados Unidos e Brasil. O primeiro por poder contar, futuramente com um fornecedor imensamente mais confiável e que lhe é historicamente próximo, o Brasil, além de poder satelitizar com mais eficácia os países da América Central.

O Brasil ganha de variadas formas: assegura para si um nicho de produção ímpar. Sendo fonte renovável, o etanol pode ser produzido em unidades descentralizadas em quase todo território nacional, podendo engendrar uma cadeia produtiva similar à da petroquímica. Ao se introduzir a cana de açúcar no cerrado brasileiro, garante-se a interiorização mais intensa de nossa população, consistindo isso numa vantagem geopolítica. Considerando o biodiesel, as vantagens são ainda mais importantes e visíveis. Com isso diminui-se a vulnerabilidade energética brasileira, que depende imensamente do petróleo presente na plataforma continental, ao mesmo tempo que dá maior sobrevida às reservas presentes.





Notas




1 O que é um despropósito, o capitalismo sempre é desumano. Só não o é com mais intensidade nas sociedades desenvolvidas porque os Estados impõem ao sistema econômico leis e controles. E para quem discordar, basta olhar a história, nomeadamente a da Revolução Industrial Inglesa.


2Ver a esse respeito: Artigo no site da Unicamp.

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