quarta-feira, 7 de março de 2007

Notas incompletas sobre o Sistema Internacional

A celeuma persa

Dado o seu programa nuclear, a república persa tem sido, nos últimos meses, um dos principais assuntos do noticiário internacional. O Ocidente — EUA, Reino Unido, Alemanha e França — tem pressionado sem resultados Teerã a cessar o seu programa nuclear. Sob alegações de possuir ‘direitos’ e legitimidade e contando com o beneplácito da Rússia, o Irã segue a desafiar as determinações da ONU e da AIEA.
Além disso, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadi-Nejad, insiste em proferir frases bombásticas contra os norte-americanos e Israel, numa retórica anti-semita e anti-estadunidense mordaz, defendendo a destruição do Estado de Israel e o combate ao poderio norte-americano, além de negar o genocídio judeu.
Isto, somado a histórica rivalidade Irã-EUA surgida na revolução de 19791, gera a desconfiança de que a finalidade do programa nuclear iraniano não seja apenas pacífica, como Teerã tem alegado, dizendo que seu programa direciona-se apenas à geração de energia elétrica.
O Irã faz uma política imperialista dentro o contexto do Oriente Médio. Desde que foi combatido pelo regime de Saddam Hussein, Teerã adota políticas com vistas ao melhor aparelhamento de suas forças armadas e de seus quadros técnicos2. Entretanto, a ferina postura anti-ocidental, levaram os países do Ocidente a uma posição de desconfiança, culminando na acusação de que estava a financiar o Hezbollah, juntamente com a Síria; os EUA os acusam de gerar instabilidade no Iraque.

Importância estratégica

A posição norte-americana quanto ao Irã é clara. Pode ter sido um erro estratégico o ataque norte-americano ao Iraque, uma vez que seu grande resultado foi um conflito civil e mais instabilidade no Oriente Médio. Ainda que isto tenha ocorrido, os EUA e a Otan provavelmente permanecerão no Oriente Médio e na Ásia Central — no Afeganistão. Dificilmente, ao contrário do que dizem os políticos do Partido Democrata nos EUA, as forças norte-americanas sairão do Iraque em 2008. A presença talvez perdure por longos anos mais. A razão disso é que caso os EUA saiam, darão lugar a organização de um regime que lhe seja francamente opositor.
A localização do Iraque, bem como do Oriente Médio e Ásia Central, é deveras importante para política geo-estratégica norte-americana, sendo um de modo evitar a infiltração da diplomacia russa no Oriente Médio — e uma forma de continuar a pressão centrípeta sobre toda a Ásia. Antes da guerra, em 2003, o Iraque mantinha intensa cooperação com os russos, assim como atualmente os iranianos. A diferença é que o Irã é três vezes maior em população e tem quadro vezes o território iraquiano. E se essa força regional não for contida, facilmente satelitizará um Iraque destruído e sem presença Ocidental, estendendo sua influência por todo Oriente Médio atentando, por fim, contra os interesses israelenses.
Além do desenvolvimento nuclear, Teerã tem comprado equipamento militar russo, preparando-se para resistir a um ataque militar — o que contradiz as suas intenções pacíficas, visto que se realmente fossem claras suas intenções, não seria necessário aumentar intensivamente os gastos militares. Além dessas compras, têm realizado exercícios militares massivos, numa tentativa de demonstrar seu poderio. Indicação de que Teerã talvez deseje desencorajar qualquer ataque norte-americano ou israelense ao seu território, obrigando-os ao âmbito diplomático — o que pode ser interpretado como sendo um claro desafio.

Blefe iraniano

Nas últimas semanas o Irã alegou ter lançado um foguete de exploração espacial no espaço. Nenhum satélite espião, quer da Rússia, quer dos EUA, conseguiu detectar tal lançamento. É possível que a informação seja falsa. Se for é um blefe infeliz da república persa. Foguetes espaciais servem de base para o desenvolvimento de mísseis de longo alcance. O problema é que Teerã disse ter feito um teste que ninguém detectou. Disse, assim, possuir um tipo de capacidade que lhe permite atacar países distantes, como os europeus. Associando esse acontecimento ao seu projeto nuclear, é possível defender um nexo altamente plausível de que Teerã de fato se prepara ou ao menos tenciona portar armas nucleares.

Esgotamento da via diplomática

O CS tem se mostrado incapaz de chegar a um acordo sobre que tipos de sanções a mais devem ser aplicadas — provavelmente devido à obstrução russa que não deseja empacar suas relações com Teerã. O Irã ganha tempo e tem expandido seu programa, sendo possivelmente capaz de produzir urânio em escala industrial neste momento.
Talvez o tempo necessário para a produção de uma ogiva nuclear pelo Irã seja longo, não estando no horizonte próximo — talvez cinco anos —, mas não se sabe ao certo em que situação está o avanço de seu projeto — há apenas uma suposições, possivelmente subestimadas. O Irã já iniciou a construção de uma usina nuclear, com capacidade de 350 MW3.
As vias da negociação diplomática têm se esgotado, em especial pela recalcitrância do Irã em aceitar qualquer tipo de acordo que lhe impeça de enriquecer urânio dentro de suas fronteiras. De certo modo isso representa um aberto desafio à pax diplomática promovida pelos membros do CS da ONU. Neste caso, em vista da falta de acordo no CS, resta a algum país atacar militarmente o território iraniano.

Precedentes para um ataque

Na década de 1980 existiu um caso similar e um espinhoso problema diplomático surgiu depois que a França vendeu um reator nuclear de baixa capacidade para o Iraque. Como não se chegou a uma alternativa diplomática e as discussões arrastavam-se, o Estado de Israel agiu apenas por si e atacou o Iraque, mandando aos ares as suas instalações nucleares e pondo um fim curto e grosso ao problema de então, sem deflagrar uma guerra de maiores proporções, dada a incapacidade iraquiana de contra-atacar o Estado de Israel.

Preparativos e viabilidade do ataque

Desta vez, provavelmente o ônus do ataque caberá a Washington. Os EUA enviaram um segundo porta-aviões, o USS John C. Stennis, para aumentar sua presença no Golfo Pérsico e sua efetividade em caso de necessidade de ataque ao Irã. O envio de um segundo porta-aviões e toda a escolta naval que o acompanha para as proximidades do Irã não é um blefe. Os EUA, apesar de terem um grande problema em suas mãos no Iraque não estão 'esgotados'. Em um texto imediatamente anterior a esse, neste weblog, é dito que os EUA não estão fazendo uma ocupação de larga escala no Iraque, mandando um contingente muito aquém das necessidades — 150 mil homens num território de quase meio milhão de quilômetros quadrados e mais de 25 milhões de habitantes. Talvez isso se dê pela dificuldade do governo republicano em aprovar verbas para a ocupação — possivelmente devido à oposição Democrata aos Republicanos.
É certo que mesmo que um democrata chegue ao poder, em dois anos, os interesses estratégicos norte-americanos falarão mais alto, não permitindo a imediata retirada de suas forças, tanto pelos motivos a ditos acima, quando por propiciar um aumento da influência do Irã.
O único caminho viável — caso as negociações com Teerã não progridam — para os EUA será um ataque ao território iraniano. Apesar de muito maior e melhor defendido que o Iraque, com a chegada do segundo porta-aviões, a potencialidade da força norte-americana aumentará de forma significativa. Além disso, os EUA contam com o apoio de seu comando de bombardeiros estratégicos, tornando um ataque de grandes proporções passível de execução, ainda que ele se dê em torno das instalações nucleares e sobre os pontos principais da defesa iraniana — cuja força de aviões de defesa é de pouco mais de 300 aviões4 — e das forças que poderiam atacar as tropas presentes no Iraque. Fatalmente a tarefa é muito mais difícil que a levada a efeito por israelenses em 1981, dado que as instalações iranianas são mais numerosas. Mas não é, levando em conta a assimetria de poder entre EUA e Irã, algo inviável ou temerário. Os bombardeiros estratégicos podem partir direto do território norte-americano, se assim for necessário e com o apoio dos caças em terra no Iraque e da aviação naval, o ataque, ainda que complexo, poderá ser rápido e eficaz. Dificilmente os EUA necessitarão de um ataque terrestre. O desmantelamento do programa nuclear, feito por ataque aéreo e bombardeamento com mísseis Tomahawk, trará um sério revés aos planos persas. É possível que se dê algo de similar ao que se deu no Líbano, quando este foi atacado pelas forças israelenses, só que numa extensão muito maior.
Se este for o rumo dos acontecimentos, os reveses norte-americanos estarão limitados em grande medida ao campo diplomático e a um provável aumento da instabilidade no Iraque. Os norte-americanos não ‘flexionam os músculos’. Estão a planejar alternativas militares em caso de fracasso diplomático — como já se apresenta no Horizonte — e não permitirão que o Irã, como toda essa retórica anti-ocidental, ascenda à condição de potência nuclear. É o único caminho lógico tendo em vista seus interesses estratégicos: a permanência no Oriente Médio e o controle de fontes de petróleo.



1 A primeira revolução no mundo a rejeitar e combater a tradição iluminista da Revolução de 1789 — portanto a primeira revolução ‘reacionária’ da história recente.

2 O que, entretanto, pode ser fonte de pouco dinamismo econômico, como alega a CIA: https://www.cia.gov/cia/publications/factbook/. A nota sobre a economia iraniana é precisa — mas deve-se fazer a crítica a ela, uma vez que parte do dinamismo econômico norte-americano se dá exatamente como resultante dos avanços técnicos oriundos dos investimentos em defesa. Ver também o site do Departamento de Estado norte-americano: http://www.state.gov/p/nea/ci/c19354.htm.

3 Além da outra usina construída pelos russos a partir de 1995 em Bushehr. Sobre a nova usina ver http://en.rian.ru/world/20070306/61659755.html.

4 Ver http://www.globalsecurity.org/military/world/iran/airforce-equipment.htm.

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