sábado, 17 de novembro de 2007

Wikidiotice

Estava a ler a Wikipédia, coisa que não recomendo, dada a baixíssima qualidade dos verbetes (sim, escrevo verbete, pois estou acostumado a enciclopédias de verdade, e não essa coisa monstruosa e fútil), e notei que em certos textos, nomeadamente sobre empresas, há a tipificação de tais como públicas.

Por exemplo, a Royal Dutch Shell é classificada como pública. Estranho, dado que no Brasil e mesmo em Portugal, empresas públicas normalmente são aquelas pertencentes ao Estado. O fato de serem públicas reside exatamente na natureza do sistema político vigente, democrático e republicano. Em monarquias constitucionais, claro está, elas também o são dada a natureza democrática do jogo político, afinal é democracia, [dêmos, povo; kratia, poder, força].

Assim, usualmente, no Brasil são empresas públicas a Petrobrás, Eletrobrás, Caixa Econômica Federal, etc.; Em Portugal, a CP (Comboios de Portugal) é um exemplo de empresa pública; em ambos os casos, serão empresas privadas a Portugal Telecom, a Embraer ou o Grupo Votorantim.

Entretanto, na Wikipédia, escrita na língua de Camões, a já citada Royal Dutch Shell é tida como uma empresa pública. Ao contrário dos editores da desafortunada enciclopédia, costumo recorrer ao bom senso. Fui ao verbete correspondente em inglês. Lá havia uma ligação para a tipificação pública. E havia uma nota, em evidência, acerca do verbete: This article or section deals primarily with the United States and does not represent a worldwide view of the subject. Portanto, é tradução literal, alienígena ao uso corrente em português.

Daí fica claro, pra gregos, troianos e demais primatas (inclusive chimpanzés, babuínos, etc.) que se trata de um significado particular aos Estados Unidos, sequer compartilhado pelos britânicos.

Assim sendo, empresas ditas como públicas nos EUA são nada mais que empresas do tipo S/A, sociedades anônimas com ações negociadas em bolsa. O que acontece é que aquilo que estava claro inclusive para os chimpanzés, não o está para os editores da Wikipédia. Parece que sequer domínio acerca da linguagem corrente lusófona há entre os que contribuem nessa enciclopédia (ou seria deciclopédia?), mesmo assim eles se metem a fazer uma enciclopédia.

E a obtusidade, ao que parece, não está restrita, infelizmente, aos brasileiros. A ausência do bom senso, que torna a conduta do wikipedista típico algo simiesca, está em toda parte. É muito comum a seguinte conduta: se o wikipedista não conhece algo ou ele se depara com um tema que é-lhe inteiramente estranho, tanto a seu cotidiano, quanto a sua experiência sensível, ele provavelmente assumirá que aquilo não existe, fatalmente rotulará um artigo que lhe seja estranho como fora de contexto.

Isto porque a medida de conhecimento, para o Wikipedista, não é o fato da realidade ser infinita, mas sim o ínfimo conhecimento que ele tem acerca da mesma, demonstrando inconsciência sobre sua ignorância. Marilena Chauí, no excelente livro didático Convite à Filosofia relata que este é o grau mais alto da ignorância, isto é, quando os indivíduos sequer têm consciência dela.

5 comentários:

  1. Alteraram a classificação da Royal Dutch Shell. Entretanto persistem os problemas em:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/ExxonMobil
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Texaco
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Wal-Mart
    http://pt.wikipedia.org/wiki/General_Electric
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Microsoft
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Johnson_%26_Johnson
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pfizer
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Bank_of_America
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Citigroup
    Etc.

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  2. Há gente bem intencionada na Wikipédia. Mas, ainda assim, ela é utópica. Não desejo mais participar pois minha paciência com a desinformação alheia é parca; e a busca de consensos e tudo mais, é demasiado cansativa.

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  3. Eu não preciso dizer, é claro, que a minha resposta tem muito mais a ver com o post do que aparenta. Trata-se de uma afirmação irônica que conversa com o texto no sentido de concordar com o mal uso que as pessoas costumam fazer da lingüagem e do veículo.

    Resumindo, tô de brinks. Adorei o blogue, mesmo não concordando com alguma ou outra posição.

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