segunda-feira, 15 de março de 2010

Ecoterrorista amansado

Al Gore abandona a postura de profeta do cataclismo ambiental e anuncia num ímpeto de entusiasmo que podemos solucionar a crise do clima com folga! Yes, we can!

Apesar do fracasso de Copenhague e da crise do IPCC, Al Gore se diz otimista

O otimismo de Al parece incorrigível. Desde que perdeu a eleição presidencial de 2000 para George W. Bush, o democrata se dedica em tempo integral a pregar obstinadamente sobre os riscos da mudança do clima. Seu evangelho verde se espalha em dois livros, “Uma Verdade Inconveniente” e “Nossa Escolha” (editora Manole). O primeiro originou documentário que levou o Oscar, em 2007, mesmo ano em que ganhou o Nobel da Paz. O Nobel, porém, foi dividido com o IPCC, ora sob investigação. Apesar do golpe na credibilidade da ciência do clima e do fracasso de Copenhague, Gore não se faz de rogado: “Podemos solucionar completamente a crise do clima, com folga”.

Marcelo Leite, colunista da Folha

O subtítulo do novo livro de Gore é “Um Plano para Solucionar a Crise Climática”. O primeiro se concentrava em expor as previsões de pesquisadores sobre o futuro da atmosfera da Terra, algumas bem mais catastróficas que as do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Agora o apóstolo se volta para as sugestões compiladas em 30 “cúpulas de soluções” que organizou nos últimos três anos pelo mundo afora. Sua fé renovada se ancora na tecnologia. Máquinas como o satélite Triana/DSCOVR, congelado por Bush anos a fio, revelarão aos olhos de todos a verdade sobre a saúde combalida da Terra. Redes inteligentes para transmissão de eletricidade permitirão administrar a sazonalidade e a intermitência das fontes renováveis de energia mais promissoras -eólica, de biomassa e solar. Por vida das dúvidas, Gore continua acreditando no poder do cinema para converter os céticos. Adorou “Avatar”, de James Cameron, “uma poderosa metáfora” sobre a força irresistível da natureza. Nos dias 26 e 27 ele estará com Cameron em Manaus, para palestras no Fórum Internacional de Sustentabilidade.

FOLHA – Seu recente livro “Nossa Escolha” transmite uma mensagem tão sóbria quanto otimista: uma catástrofe inimaginável nos espreita se não agirmos, mas ainda há tempo e ferramentas bastantes para solucionar três ou quatro crises do clima. Não é otimismo demais?
AL GORE – Acho que não. Nos últimos três anos organizei mais de 30 “cúpulas de soluções” com os maiores engenheiros, cientistas e empresários do mundo e fiquei agradavelmente surpreso ao descobrir como está avançado o desenvolvimento dessas soluções. O Brasil, por exemplo, tem liderado o mundo ao inovar um meio muito eficaz de empregar biomassa [cana-de-açúcar] para substituir combustíveis líquidos baseados em petróleo. De modo similar, outros países fizeram progressos em energia solar, eólica e geotérmica. Portanto, não acho que seja otimista demais, de jeito nenhum. Mas o ingrediente essencial continua a ser vontade política. Mesmo com a sensacional liderança do Brasil em Copenhague, o mundo como um todo ainda não forneceu vontade política suficiente para implementar as soluções em grande escala. Mas estou otimista que o farão.

FOLHA – Eu me referia à sua afirmação de que “três ou quatro” crises climáticas podem ser solucionadas com as ferramentas à mão.
GORE – Se nos lançarmos numa guinada para formas de energia renováveis e de baixo carbono em transportes, imóveis residenciais e comerciais e agricultura e silvicultura sustentáveis, podemos solucionar totalmente a crise do clima, com folga.

FOLHA – Há um componente tecnológico forte em seu otimismo: computadores e satélites nos ajudarão a enxergar a luz [da verdade] sobre o planeta e seu clima. Mas o exemplo do satélite DSCOVR/Triana, do livro, também pode ser visto como um alerta sobre o poder dos governos de impedir que isso aconteça. Tecnologia e ciência sairão sempre vitoriosos?
GORE – (Ri) Depende de nós, em nossos respectivos países, garantir que as políticas públicas se baseiem na melhor ciência e na melhor informação disponíveis. No caso do Triana: o satélite acaba de ser incluído no orçamento do presidente Obama para este ano.

FOLHA – Foi mero atraso, então?
GORE – Um longo e custoso atraso. Os negacionistas do clima têm combatido em todas as frentes para impedir o progresso. Há alguns que acreditam genuinamente que não se trata de uma crise, mas o grosso da oposição vem dos maiores poluidores de carbono, que não querem ser obrigados a assumir a responsabilidade por deitar fora enormes quantidades de poluição na atmosfera terrestre, como se ela fosse um imenso esgoto a céu aberto. Assim como as companhias de tabaco lutaram contra as limitações à comercialização de cigarros atacando os cientistas que fizeram a ligação entre cigarros e doenças do pulmão, os grandes poluidores de carbono estão atacando os cientistas que conduziram os estudos mostrando conclusivamente que a poluição do aquecimento global produzida pelo homem está causando a crise do clima.

FOLHA – A espécie humana jamais fez uma escolha coletiva sobre seu futuro. O sr. é o primeiro a dizer, no livro, que essa perspectiva parece absurda. O que o deixa tão seguro de que estamos à altura da tarefa?
GORE – Nós temos de fazê-lo, para expressar o amor que temos pelos nossos netos. Para evitar sermos lembrados pelas gerações futuras como uma geração criminosa, que ignorou de forma egoísta e cega os claros sinais de que o seu destino estava em nossas mãos. Porque o modo como fomos criados nos dá um respeito destemido pela verdade e pela justiça. Não importa quanto tempo ela seja obscurecida por aqueles que encaram a verdade como inconveniente, cedo ou tarde os anjos de nossa melhor natureza vencerão.

FOLHA – O sr. é mesmo otimista.
GORE – Houve momentos no passado em que a civilização foi confrontada com ameaças que pareciam inimaginavelmente difíceis. O totalitarismo ameaçou exterminar a liberdade. Pareceu improvável, em alguns instantes, que as forças da democracia e da liberdade venceriam. Mas elas conseguiram, se puseram à altura do desafio. Houve outros exemplos. Muitos achavam que as mulheres nunca receberiam permissão para votar e participar de modo igualitário na sociedade. Nos séculos passados, muitos achavam que a escravidão era uma condição natural, que deveria ser tolerada.

FOLHA – Há muitos lugares do mundo onde o totalitarismo ainda é uma ameaça e os direitos das mulheres não são respeitados.
GORE – Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, era forte a ameaça de que o totalitarismo iria extinguir a liberdade. Com a vitória, a democracia ganhou essa luta e claramente o movimento está a favor da democracia e da liberdade, hoje.

FOLHA – Mas isso nos custou uma guerra enorme e sangrenta.
GORE – É verdade.

FOLHA – Espero que não cheguemos a tanto no clima.
GORE – (Ri) Isso não vai acontecer.

FOLHA – Se o sr. tiver de destacar uma prioridade em termos de energia, seria a eólica? Ou seria mais esperto, para países como o Brasil, investir antes na montagem de uma super-rede elétrica inteligente, capaz de lidar com uma ampla variedade de fontes de energia renovável, de biomassa a hidreletricidade?
GORE – Acho que temos de fazer várias coisas simultaneamente. Uma super-rede é importante para o uso de todas as formas de energia renovável. Tanto a energia eólica quanto a solar são muito promissoras. A segunda e terceira gerações de biomassa são igualmente promissoras. Mas o maior recurso são as melhorias de eficiência. E o passo singular que poderia ser dado para estimular o progresso em todas essas áreas é pôr um preço no carbono, de modo que o custo da redução da poluição seja integrado nas decisões do mercado. Isso estimularia todas as formas de energia renovável e todos os recursos de eficiência

FOLHA – O sr. tem preferência por impostos sobre o CO2 ou por limites e comércio de permissões para emitir carbono (“cap-and-trade”)?
GORE – Prefiro ambos. A vantagem da abordagem “cap-and-trade” está na eficiência oferecida para a coordenação global, sem requerer que os governos tomem decisões todos os dias. Se os valores estão incluídos no mercado, então o mercado pode ser um aliado na seleção de todas essas possibilidades. Mas não há dúvida de que um imposto sobre o CO2, neutro em termos de renda, seria uma opção poderosa. A Escandinávia e alguns países, como a França, já o estão usando. É difícil imaginar um imposto de carbono globalmente harmonizado, por isso a noção de “cap-and-trade” é provavelmente melhor como base para a coordenação internacional.

FOLHA – Copenhague não terminou como se esperava, e muitos duvidam que Cancún possa levar a um tratado legalmente vinculante. Yvo de Boer renunciou ao posto de secretário da Convenção de Mudança Climática da ONU. O IPPC está sob fogo cerrado. Obama enfrenta dificuldades para conseguir que o Congresso dos EUA vote a legislação sobre clima e energia. Ainda temos motivo para manter o otimismo?
GORE – (Ri) Sim, temos. Porque ainda há um movimento de base em todo o mundo, crescente, para enfrentar essa crise. Nos EUA a legislação está seguindo em frente e será votada em poucos meses. O fracasso em Copenhague se deveu primariamente ao fato de o Senado dos EUA ter falhado em aprovar essa legislação antes da conferência, forçando o presidente Obama a negociar com ambas as mãos atadas às costas. Como ele não podia pôr essa legislação sobre a mesa, os chineses resistiram a fazer concessões de seu lado, de modo que os dois maiores poluidores deixaram de agir. Isso fez o restante do mundo adiar a ação. Se os EUA aprovarem a legislação antes da conferência de Cancún, poderemos ver uma dinâmica muito diferente em ação.

FOLHA – O sr. estará no fim do mês em Manaus, para um seminário que terá também o cientista Tom Lovejoy e o cineasta James Cameron. O sr. acha que o filme “Avatar” terá um papel em despertar consciências para o tipo de problemas da floresta que o sr. trata em seus livros e seu próprio documentário?
GORE – É um filme com uma metáfora muito poderosa. Sou grande fã do filme. Tanto James Cameron quanto Tom Lovejoy são meus amigos. Lovejoy é um cientista com quem trabalho há anos. Ele me levou em minha primeira viagem para a Amazônia, 30 anos atrás.

Folha de São Paulo em 15 de março de 2010.

Comentário

É altamente interessante notar essa mudança diametral de posição frente à quimera do aquecimento global. O rei está nu, afinal, com o IPCC tendo sua credibilidade questionada, Al Gore muda o tom: de profeta do apocalipse passa à posição similar a de um Cristo redentor.

É bastante cômodo, afinal, ele poderá seguir com seu negócio de "energia verde" baseado no lucrativo esquema dos créditos de carbono, na Silver Spring Networks ao mesmo tempo em que, para felicidade geral de todos os envolvidos nessa farsa toda, os cientistas do aquecimento continuarão a receber enormes somas de dinheiro para desenvolver teorias do mundo aquecido, mas com o confortável sentimento que tudo será resolvido, afinal agora o foco é a solução.

E quem perde nesse jogo? Os países em desenvolvimento, especialmente a África, pois terá de engolir essa quimera de "sustentabilidade", que nada mais é que a idéia de se tentar implementar desenvolvimento econômico com técnicas e infra-estrutura verdes, caras e restritivas, além de pouco confiáveis. Como se pode manter uma siderúrgica a funcionar com energia solar e eólica? Impossível. Haverá desenvolvimento para os africanos? Nessa toada, nunca.

O Brasil tem abraçado a idéia e desde há muito vestiu a camisa da "sustentabilidade". E o que temos? A legislação ambiental mais restritiva do mundo. É o legado de ecoterroristas sem muita capacidade crítica, sensíveis ao discurso dominante e emotivo de que a "mamãe Terra" está combalida, que pouco a pouco solaparam a nossa posição como grande produtor de energia renovável ao impor obstáculos enormes a projetos de infra-estrutura, com estudos de impacto ambiental caríssimos, compensações bizarras, conseguindo com isso atravancar a competividade da economia brasileira. Marina Silva e mesmo Carlos Minc talvez julguem os sapos da lagoa mais importantes do que os postos de trabalho do cidadão brasileiro.

Deve-se admitir que, da perspectiva ideológica, a falácia do aquecimento global tem uma eficácia assombrosa. Não é só capaz de fazer políticos e empresários de diferentes matizes políticos abraçarem a idéia como também foi capaz de engendrar uma aberração cinematográfica, o filme Avatar, tido como "importante metáfora" por Al Gore.

E o que é esse filme? Ora, para além da pirotecnia computacional, trata-se do homem malvado a destruir a mamãe natureza e, de quebra, massacrando inocentes tribos humanóides de tipo físico famélico. Além de tudo, os arborícolas de Avatar, possuem rabos longos para a conexão espiritual com os animais e vegetais. É a mística da natureza! E, ao se alimentar de outros animais, os aborígines de Avatar, choram o animal abatido. Oh, que emotividade! Será que é uma recado para os humanos? Devemos fazer prece pelos bilhões de peixes, frangos, porcos e bois que são abatidos em escala industrial todos os dias para servir de alimento aos mais de seis bilhões de indivíduos que andam pela face da Terra?

E a valorização implícita do padrão de vida neolítico de Avatar é mesmo pra ser levada a sério? Deve-se jogar nas latrinas os séculos de desenvolvimento técnico e científico, a eletricidade, os computadores, a medicina, a cultura letrada e irmos para as florestas? Salvo engano, não vi nenhum livro entre os alienígenas azuis de Avatar. Então o recado era esse, a valorização de uma cultura neolítica, iletrada, cultural e tecnicamente tosca? (Os antropólogos podem chiar o quanto quiserem, mas cultura letrada é muito mais rica que qualquer tradição oral e nenhum relativismo é capaz de provar o contrário por mais sofismático e poético que seja.)

É mesmo o recado que ele, James Cameron, quis passar? De que o desenvolvimento cultural e econômico é lesivo, que devemos voltar às florestas, andarmos nus (e sem repelentes ou protetor solar) e voltarmos à economia extrativa, além de queimar os livros no melhor estilo nazi-fascista? Essa é a metáfora apreciada por Al Gore. Trocando em miúdos ela é a pérola mais reacionária do conservantismo ambiental. E diante de tudo isso, nada mais natural - uma vez que se deve abandonar modernidade em prol do neolítico - que se adotar o misticismo dos pajés da mamãe natureza em detrimento da razão.

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