É incorreto dizer que
a Rússia perdeu "o bonde tecnológico" à época do desmanche da URSS.
Afora a expressão clichê, a Rússia se perdeu mais pelo engessamento do seu
sistema produtivo. Marx fala em "desgaste moral da mercadoria", daí sempre a remodelação dos produtos para o mercado. Seu modo mais eficaz é a
moda. Para além disso, o sistema soviético era incapaz de criar novas
mercadorias, o que torna sua legitimidade mais precária se se tem em vista essa
capacidade que as economias capitalistas têm: criar novas mercadorias e necessidades.
E também, no capitalismo há o que se chama de fetichismo da mercadoria: a capacidade, via propaganda, de adicionar
qualidades, status, atributos vários (elegância, agilidade, etc., o que for) às
mercadorias sem que elas efetivamente as tenham.
Adicione-se a isso a abertura política mal
executada feita por Gorbatchev. Uma comparação com a abertura econômica chinesa
em direção ao capitalismo não seria descabida. Um vez que antes de uma possível
abertura política (se é que essa um dia virá sob égide do governo 'comunista'
chinês), os chineses engendraram um
sistema capitalista controlado nacionalmente. Se um dia
vierem a fazer uma abertura política, dificilmente perderão a legitimidade da
mesma maneira que os soviéticos.
Esse tipo de argumento não é novo, pode ser embasado a
partir Robert Kurz, especialmente no livro "O colapso de modernização". E é possível chegar a conclusões similares
via Guy Debord, pela análise da ideologia — na acepção forte do termo, a
marxista —, o que reduz o problema — ainda
que não o torna menos complexo — em uma questão da legitimidade ideológica, ou
seja, de uma ideologia mais eficaz em imprimir no dominado a perspectiva do dominador.
Assim, o American way
of life parece muito mais interessante para quem quer que seja do ponto de
vista do sortimento das mercadorias, mas muito menos da perspectiva do sistema
de saúde pública [bem dizer inexistente nos EUA] ou do fato de que na URSS que
a jornada de trabalho era de seis horas. Trabalhar pouco é ideologicamente
menos convincente que possuir um Mustang
ou um terno Armani. Os soviéticos perderam essa sustentação ideológica.
Os soviéticos perderam e os chineses talvez não venham
perder — com um mercado consolidado se tem a diferenciação do sistema produtivo
de tal modo que a própria sociedade se complexifica a ponto de impedir tendências
polares, isto é, de oposição diametral, as quais poderiam pôr o sistema em
ruínas, como foi o caso da URSS.
Quanto ao mais, os produtos vindos da Rússia, oriundos do
complexo industrial-militar ainda são o fino
da bossa. Os mísseis russos e sistemas de radares estão entre ou são,
seguramente, os melhores do mundo. O que mostra que o problema não é
tecnológico. Apresenta-se muito mais como um problema da estrutura social: não
conseguir transferir os benefícios tecnológicos a outros setores da população
via mercado de bens. Os soviéticos produziam os melhores caças do mundo em 1989
e andavam em carros de tecnologia obsoleta. A República Democrática Alemã
produzia os Trabant e era a "jóia tecnológica" do bloco socialista.
Não é preciso concordar com o que aqui é escrito para se
saber que um Mercedes, um Mustang ou
um Rolls Royce traz mais status ao
seu possuidor que um carro de plástico de linhas antiquadas e mesmo tosco, como
o Trabant. E é exatamente esse status (e que não tem nada ver com o seu valor de
uso) que os soviéticos eram incapazes de produzir. Carros servem apenas como meio de
transporte. Ao se acrescer outras qualidades a ele se vê com clareza o
mecanismo de fetichização da mercadoria, o qual dá uma enorme base de
sustentação ideológica ao sistema capitalista.
Esse descompasso é bem evidente e costuma ser pouco
investigado.
Ao se falar que houve qualquer tipo descompasso tecnológico na
Rússia, se reitera a vitória ideológica do "mundo-livre", quando ela é menor. Há uma vitória ideológica, mas ela não advém de uma suposta
obsolescência tecnológica soviética. A diferença vem da ausência de um mercado de bens que garantisse um sortimento variado e fetichizado de mercadorias. A
Rússia Soviética desintegrou-se por dentro, por uma questão de mera perda de legitimidade
em vista de não possuí-lo
A participação da Rússia atual em empreendimentos-chave como
a Estação Espacial Internacional (ISS) demonstra sua capacidade tecnológica de maneira inexorável: a Rússia conta com seis módulos, o mesmo número dos EUA, e
Japoneses e Europeus com dois cada, de acordo com o cronograma de lançamento
até 2011; e das 22 expedições, os russos estiveram presentes em 17 com seus
veículos lançadores, os norte-americanos em 14. Há elementos para dizer que há
descompasso tecnológico por esse prisma? Talvez do Japão ou da Europa em
relação aos EUA e Rússia, mas jamais entre os dois últimos.
Há muitos outros setores em que o desenvolvimento tecnológico
russo pode ser mostrado, entretanto ele normalmente está confinado a atividades
militares e estratégicas, embora haja exceções (por exemplo, o Kaspersky Lab é creditado
por produzir o melhor antivírus do mundo, e é uma empresa russa). O propalado descompasso tecnológico da Rússia
soviética não existia à época do desmoronamento da URSS. É uma quimera
ideológica e um erro de análise do qual FHC não escapa. Conclusivamente, o fim do sistema
soviético pode ser atribuído à estrutura social e, também, à miopia política de
Gorbatchev que iniciou um processo de abertura política o qual, em um dado
momento, seguiu por si mesmo.
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