terça-feira, 16 de março de 2010

Série definições: Relação social

A presente postagem é uma resposta à demanda dos usuários que buscam informações sobre o conceito de relação social dentro da Série definições deste blog.
Índice

Definição contida na Wikipédia em inglês

Na Ciência Social, a relação social ou interação social refere-se ao relacionamento entre dois, três ou mais indivíduos (p. ex. um grupo social). Relações sociais, derivadas da capacidade de ação livre dos indivíduos [agency, aqui, apenas ação], formam a base da estrutura social.  Dessa forma, as relações sociais são sempre um objeto básico de análise para os cientistas sociais. As concepções fundamentais sobre a natureza das relações sociais estão presentes na obra do sociológos clássicos, por exemplo [e fundamentalmente], na teoria da ação social de Max Weber. Outras categorias devem ser estabelecidas abstratamente de modo a possibilitar a formulação de teoria e realizar a investigação social,  tais como comunidade, sociedade, consciência coletiva.

Disputas sobre o processo de investigação do processo social estão relacionadas com debates do núcleo da Sociologia e outras ciências sociais: positivismo (pesquisa quantitativa), antipositivismo (pesquisa qualitativa), estrutura versus ação, funcionalismo, estruturalismo funcional versus teoria do conflito, bem como filosofia da ciência social em si.

Formas de relação e interação

As formas de relação e interação na Sociologia e Antropologia podem ser descritas dessa maneira: as primeiras e mais básicas são análogas ao comportamento animal, referindo-se simplesmente aos variados movimentos físicos do corpo.  Então há as ações — movimentos com significado e propósito. A seguir, os comportamentos sociais ou ações sociais, voltados direta ou indiretamente a outra pessoas, os quais esperam uma resposta do outro agente. Em seguida, estão os contatos sociais, ou seja, algumas ações sociais que formam o início da interação social. As interações sociais, por sua vez, constituem a base das relações sociais [NB!, grifo meu, FAB].
Tais divisões são ilustradas na tabela abaixo:


Definição contida na Wikipédia em português

Em Ciências Sociais, relação social refere-se ao relacionamento entre indivíduos ou no interior de um grupo social. As relações sociais formam a base da estrutura social. Nesse sentido, as relações sociais são o objeto básico da análise das Ciências Sociais. Investigações fundamentais sobre a natureza das relações sociais são encontradas nos trabalhos da sociologia clássica, tais como a teoria da ação social de Max Weber.  Segundo Weber,
A relação social diz respeito à conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteúdo específico do próprio sentido das suas ações. Na ação social. a conduta do agente está orientada significativamente pela conduta de outro ou outros, ao passo que na relação social a conduta de cada qual entre múltiplos agentes envolvidos (que tanto podem ser apenas dois e em presença direta quanto um grande número e sem contato direto entre si no momento da ação) orienta-se por um conteúdo de sentido reciprocamente compartilhado (Conh, Gabriel. Weber: Sociologia. São Paulo: Ática, 1997, p. 30.)
Assim, em Weber, relação social seria uma conduta de vários indivíduos, reciprocamente orientada e dotada de sentido partilhado pelos diversos agentes de determinada sociedade.

Formas de interação e relação

Na sociologia e na antropologia, as formas de relação e interação podem ser descritas conforme segue. As primeiras e mais básicas relações são análogas às do comportamento animal, isto é, referem-se aos vários movimentos físicos do corpo. Depois, existem as ações, ou seja, movimentos com um significado e um propósito. Depois, há o comportamento social ou a ação social, que é voltada direta ou indiretamente para as outras pessoas e que solicita um resposta do outro agente. Em seguida, estão o contato social, isto é, algumas ações sociais que formam o início da interação social. As interações sociais, por sua vez, constituem a base das relações sociais.
As relações sociais são formadas portanto de várias ações sociais motivadas por um mesmo conjunto de significados. A relação social é o sentido compartilhado da ação (grifo meu, FAB). As relações sociais podem estruturar comportamentos regulares ou conformar-se numa "estrutura particular de relações sociais", materializando-se em instituições particulares - tais como a família patriarcal, o código civil.

Crítica da definição do termo contida na Wikipédia em inglês

A definição contida na Wikipédia anglófona tem algo de  redundante e é  terminologicamente confusa, pouco recomendável para o uso como definição abrangente que sirva de base a qualquer texto sociológico. A primeira parte do verbete faz um apanhado sobre termos essenciais ao campo da disciplina da Sociologia sem, no entanto, dizer qual é o papel do conceito "relação social" propriamente dito no edifício teórico da Sociologia.

Apenas diz, no início, que o conceito "relação social" está presente dentro da obra de Max Weber. Isso não é tudo. Não seria complexo tampouco prolixo dizer que é com Max Weber que o conceito de ação e relação social são formulados, pela primeira vez, de modo sistemático nas ciências sociais — e é a partir daí que esses termos passam ter uso corrente na sociologia.
A definição contida nessa enciclopédia, como já dito, é uma confusão terminológica: no segundo subtítulo, Formas de relação e interação, se faz uma diferenciação e categorização que nada tem a ver com o desenvolvimento da teoria da ação desenvolvida a partir de Max Weber, ou seja, a teoria clássica.

Basicamente se fala sobre interação e relação social sem tipificar conceitualmente nem um nem outro. Do ponto de vista etimológico, relação e interação são, bem dizer, a mesma coisa. Mas nada é dito com um pode causar o outro: a partir da "interação social" se tem engedrada a "relação social" sem que, contudo, o verbete defina qualquer uma delas, tampouco como estejam encadeadas no contexto da explicação sociológica. Nada se diz sobre interação social e relação social, seguindo-se a uma categorização sem que se diga dizer o porquê dessa categorização,  sem qualquer justificativa teórica, como é visto na tabela presente no verbete. Os problemas não persistem apenas nesse ponto. É feito uma analogia com os movimentos físicos dos corpo como sendo um das formas de interação/relação. Mais abaixo será demonstrado que isso é um erro absurdo.

Ao fim e ao cabo, no verbete da Wikipédia, se fala sobre relação social sem, em nenhum momento, ser apresentada uma definição. O que faz o verbete inútil, para além de equivocado.

Crítica da definição contida na Wikipédia em português

O verbete contido na Wikipédia lusófona é uma tradução parcial da versão anglófona. Se os leitores tiverem a paciência de confrontarem um ao outro, perceberão que tradução feita aqui é muito similar à presente na Wikipédia.
Todavia, ele tem diferenças, basicamente em três parágrafos. O primeiro é quando Max Weber é citado a partir do volume que é-lhe dedicado na Coleção Grandes Cientistas Sociais (COHN, Gabriel. Weber: sociologia. São Paulo: Ática, 1997, p.30). O segundo é a conclusão da citação. O terceiro é o parágrafo de conclusão, o qual têm um erro canhestro, confundindo relação social com sentido compartilhado da ação, isto é, confunde a parte com o todo.
Escusado dizer que persistem os erros do verbete anglófono; para além disso, o verbete lusófono não contém a mesma tabela presente no seu congênere inglês.

Em ambos os verbetes jamais é apresentada uma definição do conceito "relação social". Muito se diz dele sem que o mesmo seja definido em nenhum momento.

Definição do conceito de relação social pela Sociologia (Max Weber)

É fora de questão que se pretende usar o conceito clássico de relação social. E este foi formulado por Max Weber e está presente no primeiro volume do seu Economia e Sociedade. Em termos gerais ele diz o seguinte (como já citado numa postagem de 2006):
§ 3. Por “relação” social entendemos o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes que se orienta por essa referência. A relação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa forma indicável (pelo sentido), não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabilidade. [WEBER, Max. Economia e Sociedade, Brasília, Ed. Universidade Brasília, 2000, p. 16-7.]
Entretanto, apenas a citação dessa definição não basta para desanuviar a confusão gerada pelo que se pode observar nos dois verbetes da Wikipédia. A definição apresentada aqui é a clássica, a elaborada pela Sociogia Compreensiva de Max Weber.
No entanto, cabe citar alguns dos seus fragmentos para que os erros presentes nas pretensas definições enciclopédicas não se repitam.

A primeira delas é a definição da própria Sociologia, tal como está no Economia e sociedade:
§1. Sociologia [...] significa: uma ciência que pretende compreender a ação social e assim explicá-la causalmente em seu curso e em seus efeitos. Por "ação" entende-se, neste caso, um comportamento humano (tanto faz tratar-se de um agente externo ou interno, de omitir ou permitir) sempre que e na medida em que o agente ou os agentes o relacionem com um sentido subjetivo. [WEBER, Max. Economia e Sociedade, Brasília, Ed. Universidade Brasília, 2000, p. 3.]
Cabe aqui um breve comentário: sob esse prisma, o que se apresenta como ação ou comportamento, tal como descritos no verbete da Wikipédia anglófona, é inteiramente irrelevante e mesmo absurdo da perspectiva Sociologoa Compreensiva. O movimento físico é sociologicamente irrelevante - não é, por si só, portador de qualquer significado, tampouco é dotado de um sentido subjetivo que lhe seja imanente — e, portanto, não é objeto de estudo dentro da Sociologia Compreensiva (e, é claro, de qualquer outra abordagem sociólogica).
Para fins de esclarecimento, a Sociologia tem, basicamente, três linhas de explicação do ponto de vista da fundamentação metateórica: a analítica (cujos os clássicos são Comte e Durkheim), a dialética (Marx) e a hermenêutico-compreensiva (Max Weber). E é esta última que se deteve sobre o estudo da ação social e sua tessitura de significados.
Portanto, ao se citar Max Weber, está a se fazer referência ao início da aplicação do conceito ora apresentado. E ele é clássico não por ser o primeiro, mas apenas porque ele ainda tem função heurística: é uma construção teórica possível de ser lançada contra o "mundo" e aferir o que nele há no momento presente, ou seja, não é um conceito (ou tipo ideal, no jargão weberiano) ultrapassado. É "atual".
Ação "social", por sua vez, significa uma ação que, quanto ao seu sentido visado pelo agente ou pelos agentes, se refere ao comportamento de outros, orientando-se por este em seu curso. [WEBER, Max. Economia e Sociedade, Brasília, Ed. Universidade Brasília, 2000, p. 3.]
Se fala claramente em sentido visado e referência ao comportamento de outros. Nada é dito acerca disto naquela tabela presente no verbete a respeito da versão anglófona da Wikipédia, como falado mais acima.
Weber elabora umas série de delimitações ao conceito. Elas são imprescindíveis, embora não sejam descritas aqui. Isto quer dizer que a leitura do livro é absolutamente indispensável — e isto é especialmente claro no tema aqui tratado
Saltando a definição sociológica de ação (a qual será retomada mais tarde neste blog) convém citar na íntegra, novamente, a definição de relação social de uso na Sociologia (a weberiana):
§ 3 Por “relação” social entendemos o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes que se orienta por essa referência. A relação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa forma indicável (pelo sentido), não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabilidade.
1. Um mínimo de relacionamento recíproco entre as ações de ambas as partes é, portanto, a característica conceitual. O conteúdo pode ser o mais diverso: luta, inimizade, amor sexual, amizade, piedade, troca no mercado, "cumprimento" ou "contorno" ou "violação" de um acordo, "concorrência" econômica, erótica ou de outro tipo, comunidade estamental, nacional ou de classe (no caso de estas últimas, além de meras características comuns, produzirem, "ações sociais" — voltaremos a isso mais tarde).  O conceito nada diz respeito a respeito de que exista "solidariedade" entre os agentes ou precisamente o contrário.
2. Sempre se trata do sentido empírico visado pelos participantes no caso concreto, em média ou no tipo "puro" construído, e nunca no sentido normativamente "correto" ou metafisicamente "verdadeiro". A relação social consiste exclusivamente, mesmo no caso das chamadas "formações sociais" como "Estado", "Igreja", "cooperativa", "matrimônio" etc., na probabilidade, de haver, no passado, no presente ou no futuro e de forma indicável, ações reciprocamente referidas, quanto ao sentido. Deve-se sempre ter em conta isso, para evitar a "substancialização" desses conceitos. Um "Estado", por exemplo, deixa de "existir" sociologicamente tão logo desapareça a probabilidade de haver determinados tipos de ação social orientados pelo sentido. Essa probabilidade pode ser muito grande ou extremamente pequena. No mesmo sentido e na mesma medida em que ela realmente (pelo que se estima) existiu ou existe, existiu ou existe a também a respectiva relação social. Não há outro sentido claro que se possavincular à afirmação de que, por exemplo, determinado "Estado" existe ou deixou de "existir".
3. Não se afirma de modo algum que, no caso concreto, os participantes da ação reciprocamente referida ponham o mesmo sentido na relação social ou se adaptem internamente, quanto ao sentido, à atitude do parceiro, que exista, portanto, “reciprocidade” neste sentido da palavra. “Amizade”, “amor”, “piedade”, “fidelidade contratual”, “sentimento de solidariedade nacional”, de um lado, podem encontrar-se do outro lado, com atividades completamente diferentes. Nesse caso, os participantes ligam a suas ações um sentido diverso: a relação é, assim, por ambos os lados, objetivamente “unilateral”. Mas mesmo nessas condições há reciprocidade, na medida em que o agente pressupõe determinada atitude do parceiro perante a própria pessoa (pressuposto talvez completa ou parcialmente errôneo) e orienta por essa expectativa sua ação, o que pode ter, e na maioria das vezes terá, conseqüências para o curso da ação e a forma da relação. Naturalmente, esta é apenas objetivamente “bilateral” quando há “correspondências” quanto ao conteúdo do sentido, segundo as expectativas médias de cada um dos participantes. Por exemplo, quando, diante da atitude do pai, o filho mostra, pelo menos aproximadamente a atitude que o pai (no caso concreto, em média ou tipicamente) espera. Uma relação social baseada plena e inteiramente, quanto ao sentido, em atitude correspondentes por ambos os lados é na realidade um caso-limite. Por outro lado a ausência de bilateralidade somente exclui, segundo nossa terminologia, a existência de uma “relação social” quando tenha conseqüência: que falte de fato uma referência recíproca das ações para ambas as partes. Transições de todas as espécies constituem aqui, como sempre na realidade, a regra e não a exceção.
4. Uma relação social pode ter um caráter inteiramente transitório, em como implicar permanência, isto é, que exista probabilidade de repetição contínua de um comportamento correspondente ao sentido, o que sempre se deve ter em conta para evitar idéias falsas. A afirmação de que uma "amizade" ou um "Estado" existe ou existiu significa, portanto, pura exclusivamente: nós (os observadores) julgamos que há ou ouve a probabilidade de que, por causa de determinada atitude de determinadas pessoas, se agirá de determinada maneira indicável, de acordo um sentido visado em média, e mais nada (compare tópico 2). A alternativa, inevitável na consideração jurídica, de que uma diposição de direito com determinado sentido tenha ou não validade (em termos jurídicos), de que uma relação de direito ou bem existe ou deixa de existir, não se aplica, portanto, à consideração sociológica.
5. O conteúdo de sentido de uma relação social pode mudar: numa relação política, por exemplo, a solidariedade pode se transformar numa colisão de interesses. Neste caso, é apenas uma questão de conveniência terminológica e do grau de continuidade na tranformação dizer que se criou uma "nova" relação ou que a anterior continua com novo "conteúdo de sentido". Também é possível seja em parte perene, em parte variável.
6. O conteúdo de sentido que constitui de maneira perene uma relação social pode ser expresso na forma de "máximas", cuja observação média ou aproximada os participantes esperam do ou dos parceiros e pelas quais orientam (em média ou aproximadamente) suas próprias ações. Isto ocorre tanto mais quanto mais ação, segundo seu caráter geral, se oriente de maneira racional — seja referente a fins, ou a valores. No caso de uma relação erótica ou afetiva em geral (de piedade por exemplo), a possibilidade de uma formulação racional do conteúdo do sentido visado é naturalmente muito menor que, por exemplo, no caso de uma relação contratual de negócios.
7. O conteúdo do sentido de uma ação social pode ser combinado por anuência recíproca. isso significa que os participantes fazem promessas referentes ao seu comportamento futuro (comportamento mútuo ou outro qualquer). Cada um dos participantes — desde que pondere racionalmente — considera então, em condições normais, (e com diverso grau de certeza), que o outro orientará sua ação pelo sentido da promessa tal como ele (o agente) a entende. Este orienta sua própria ação de maneira racional, em parte referida a fins (com maior ou menor "lealdade" ao sentido da promessa), em parte a valores, isto é, no caso, ao dever de "observar", por sua vez, o acordo contraído segundo o seu sentido para ele. [WEBER, Max. Economia e Sociedade, Brasília, Ed. Universidade Brasília, 2000, p. 16-17.]
O conceito de relação social  pode ser melhor apreendido e utilizado pela Sociologia tal como descrito acima. Para além disso, essa postagem pode ajudar a evitar confusões advindas de erros daqueles que se põem a versar sobre um tema sem, no entanto, conhecê-lo minimamente. De todo modo, a leitura do Economia e sociedade é mandatória, especialmente o primeiro volume, o qual lida com os conceitos sociológicos fundamentais.
Verbetes na Wikipédia
Português: pt.wikipedia.org/wiki/Relação_social
Inglês: en.wikipedia.org/wiki/Social_relation

2 comentários:

  1. Opa Barros,
    me parece uma boa contribuição para internautas pescantes de conceitos da sociologia, como eu.
    Obrigado

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  2. Oi.
    Que óptima forma de abordar a sociologia. Muito claro e objectivo.Foi muito útil na tentativa de me situar na socio!
    obrigado directamente de lisboa :)

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