domingo, 12 de setembro de 2010

Notas sobre a imprensa

Como disse no texto anterior, pode-se observar uma crise institucional da imprensa, não dela toda, é claro, mas de uma forma peculiar dela, dominante por muito tempo desde o início da era moderna, a imprensa escrita, alastrando-se, provavelmente, nas suas duas variantes surgidas no século XX, o rádio e a televisão. O termo "velha mídia" é acertado para refererir-se a ela, embora eu prefira "velha imprensa" e se opõe a uma forma mais recente de se fazer a imprensa, baseada em um novo encadeamento de relações sociais.

Da perspectiva sociológica, pode-se supor uma nova organização da imprensa, não baseada unicamente  em  empresas privadas, ainda que estas possam oferecer suporte a essa nova forma, que é baseada na credibilidade e competência do jornalista tomado individualmente; é interessante notar que o jornalista por profissão não seja necessário ou obrigatório nessa nova forma. Na prática, qualquer indivíduo pode sê-lo. O meio material da divulgação da informação, como não poderia deixar de ser, é a internet, o que torna completamente dispensável a figura da empresa privada de imprensa, seja ela pública ou privada, uma vez que por custos irrisórios qualquer indivíduo pode ter um blog ou site e escrever o que lhe apetecer.

Daí a hipótese de crise institucional da imprensa, uma vez que, não obstante a existência da empresas de mídia, elas mesmas têm se tornado dispensáveis ou irrelevantes - e isto é especialmente acertado no que diz respeito à imprensa que está baseada no meio impresso; as tiragens das publicações impressas têm seguido uma curva descendente em número, e as empresas responsáveis por elas assumem que podem deixar definitivamente o meio impresso.

Ao limitarem-se apenas à internet, os outrora grandes veículos de mídia competem pelo público de igual para igual com veículos menores e muito mais numerosos. Neste ambiente a característica mais importante é a descentralização, a rapidez do fluxo de informações e uma capacidade de mobilização única em torno de certos tópicos tidos como relevantes. Daí que também a televisão e o rádio também tenham sua importância diminuída, pelo menos relativamente, pois seu dinamismo e velocidade pode ser superado pelos veículos da internet, que, demais, também têm a capacidade de transmissão de áudio e vídeo em tempo real.

Outro ponto importante, é que as empresas de mídia não têm a mesma capacidade de veiculação de notícias, pois estão aferradas a um modelo empresarial hierárquico que tende a controlar, via chefes de redação, o que pode ou não ser publicado, isto é, o que atende ou não aos interesses ou posições editoriais da empresa. Isto as torna, em relação aos novos veículos, mais rígidas e lentas no processo de divulgação de informação.

Tais empresas estão num modelo em que certos tipos de relação de poder, desde a redação, até mesmo a vinculação da empresa a grupos (políticos, econômicos, etc.), estão a perder importância relativa. Pode-se mesmo supor que tais relações estão em vias de desaparecer. Isto talvez demonstre que a organização das empresas de mídia existentes no momento presente sejam baseadas em relações contrárias às novas relações de poder que se originam da situação atual, marcada por uma forte descentralização e dinamismo, e, mais importante, igualdade. O mais importante, porém, é a falta de percepção desses agentes da imprensa baseados nesse "modelo tradicional", de que o mundo que os cerca mudou e as relações de poder nas quais eles outrora eram atores participantes não existem mais ou estão em vias de se tornar radicalmente diferentes.

Repercussão da matéria falaciosa a qual me referi ontem:

O Blog do Nassif publicou uma análise da matéria falaciosa publicada pela revista Veja. Para além da análise, há uma série de textos versando sobre esse tipo de espisódio, em especial o último. Dentre eles: A velha mídia e a representação da opinião pública e O futuro da mídia tucana.

Idelber Avelar publicou também um texto interessante, no qual relata que o Jornal Nacional não repercutiu a notícia publicada pela Veja, tal natureza primária da falsificação nela contida. Nele há indicação para um artigo, desta vez no site Na prática a teoria é outra


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