sábado, 11 de setembro de 2010

Revista Veja: veículo de imprensa ou cabo eleitoral?

A revista Veja publicou hoje uma manchete bombástica na sua capa, a qual atribui a atual ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, participação em atividades criminosas.

Erenice Guerra é a sucessora de Dilma Rousseff na Casa Civil. Ela está lá por indicação da candidata à presidência.  A revista Veja viu, no entanto, necessidade de justificar a reportagem de acordo com o que se pode ler no blog de Reinaldo Azevedo:
“A publicação da reportagem a vinte dias do primeiro turno das eleições fará brotar acusações de que o objetivo é prejudicar a candidata oficial, Dilma Rousseff. São especulações inevitáveis. Mas quais seriam as opções? Não publicar? Só publicar depois das eleições? Essas não são opções válidas no mundo do jornalismo responsável, a atividade dedicada à busca da verdade e sua revelação em benefício do país.”
É interessante notar a justificativa. Não é comum um órgão da mídia tendo de explicar-se por uma matéria — se é relevante, basta publicar. Se a matéria for efetivamente verdadeira, de que fato advém tal necessidade de justificação? Se a justificação é necessária, é de se supor que seus autores tenham consciência de suas ações passadas. Dito de maneira mais rude: se a justificação é necessária, é porque anteriormente a revista colocou em suas páginas reportagens fantasiosas — e, como é provável, com vistas a prejudicar alguém ou certo grupo político.

A revista se desarma. Diz que deve cumprir bem o papel que reserva a si: a  “atividade dedicada à busca da verdade e sua revelação em benefício do país”. Não é preciso fazer grande esforço para rememorar em que momento a mesma revista deixou de cumprir o “seu” papel.


Histórico

No início do último mês de agosto a revista Veja foi penalizada pelo TSE. Teve conceder direito de resposta ao PT por ter dado ampla publicidade em suas páginas às declarações falsas do candidato à vice-presidência da chapa de José Serra, Índio da Costa. Este relacionou o PT ao tráfico internacional de drogas via FARC, a guerrilha colombiana que sabidamente angaria fundos via atividades ilícitas, o narcotráfico.

Se um dado órgão da mídia dissemina uma informação discutível contra um grupo político às vésperas das eleições, sabendo que a mesma não é verídica, fica bem simples concluir qual é objetivo. E isto torna-se explícito — note-se ­— quando a fonte da informação é o grupo político que se lhe opõe, o PSDB/DEM, na figura de Índio da Costa, que fez a acusações disseminadas como notícia factual pela revista Veja e reverberada por outros órgãos de imprensa, seja escrita ou televisiva, dentre eles o O Estado de São Paulo, O Globo, Folha de São Paulo e a Rede Globo — ou “velha mídia” como se costuma dizer nos meios alternativos de informação. Escusado dizer que os demais integrantes da aliança PSDB/DEM tomaram parte nas acusações, de José Serra a Geraldo Alckmin.

Mais recentemente, um problema estrutural da Receita Federal brasileira, que é a facilidade com que dados sigilosos de contribuintes vazam e, para além disso, são abertamente negociados em lugares como a R. Santa Ifigênia, no centro da cidade São Paulo, foi o suficiente para  José Serra aproveitar-se disso e inventar nova acusão, qual seja, o PT  ser o responsável por elas. O que sucedeu? Nas últimas semanas,  se fez pelos veículos de imprensa acima citados um grande estardalhaço acerca dessa questão. E não se verificou objetivamente o problema. Basicamente se fez, nessa imprensa, a amplificação das posições do PSDB, mesmo com o filho do presidente tendo sido alvo dos vazamentos de dados.

Desmentido

Nesse esteio, a revista Veja novamente vem à tona com novas reportagens bombásticas que atacam a credibilidade da situação. Dessa vez, no entanto, tem a necessidade de justificar-se, dado que a sua reputação está desgastada.  Recém chegada às bancas, surgem desmentidos e notas de repúdio. O primeiro, partindo da Casa Civil, o segundo, de Fábio Bacarat, empresário citado de maneira tendenciosa — ou mesmo mentirosa, como se vê pela nota de Bacarat —pela revista.

A Casa Civil já disse que tomará as medidas legais para obter o direito de resposta e a defesa de honra de Erenice Guerra.  A Veja tem, ao que parece, um vasto precedente nesse tipo de conduta, o que pode ser observado no Caso Veja, de autoria de Luís Nassif.

Mesmo assim, a Veja, mantém a posição sensacionalista, como se efetivamente se trate de um grande escândalo de corrupção.  No blog de Reinaldo de Azevedo se observa uma série de comentários alucinantes, como se, de fato, o Brasil estivesse na pior das crises institucionais.

Modus operandi

Ironicamente, o mesmo Reinaldo de Azevedo é quem cita a justificativa da reportagem, justamente ele, um conservador. Tal informação é de domínio público, como pode ser vista aqui (como a Wikipédia é aberta a edição, deixarei a imagem logo abaixo). E Azevedo não se furta de emitir opiniões acerca do processo eleitoral , e já repercutiu as ponderações do seu candidato, José Serra  que diz “Ministério da Casa Civil é o centro da maracutaia no Brasil”. Como dantes, é um jogo bem arranjado: Veja publica uma notícia inverossímil e depois ela e demais órgãos de imprensa repercute as notas de indignação dos interessados.
Max Weber certa vez disse que:
“relações de poder [são] criadas pelo fato específico de que a imprensa torne públicos determinados temas e questões”
Os excerto de Weber certamente não traz nada de novo, mostra, pelo contrário, algo que se é tido como evidente, mas mesmo assim sociologicamente relevante (acesse o texto aqui). No entanto,  os próprios veículos de comunicação, especialmente esses da “velha mídia” (voltarei a este tema em um outro texto), dizem a todo tempo que fazem jornalismo imparcial sem isto seja de forma alguma comprovável.

O que ocorre e se percebe com clareza é que a revista age de forma interessada, atacando grupos e pessoas conforme a sua conveniência. Porém, não se trata apenas dela, não é um caso isolado, outros órgãos de imprensa já fizeram isso reiteradas vezes num passado recente. O que impressiona é que tais órgãos não percebam a natureza do funcionamento da imprensa, dos seus limites e de fatores novos que deram origem ao termo utilizado aqui, “velha mídia”. Este naturalmente se opõe à uma “nova mídia” ou nova imprensa. A questão que se apresenta de modo mais claro é que não é o Brasil, as eleições ou a Receita Federal que passam por uma crise institucional, mas sim a própria mídia, neste caso, a velha mídia. Outro fato claro é que os participantes dela ainda não estão cônscios disto.

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