quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Obtusidade econômica e cinematográfica


O mesmo embotamento intelectual característico da direita política está a se tornar algo bastante comum na esquerda. A estupidez, outrora vista como privilégio da direita está a se ramificar a passos largos pelo chamado campo progressista, a esquerda, com qual, não obstante essa mazela, o autor destas linhas se identifica. Veja-se pois um exemplo disto:



O raciocínio presente no fragmento do vídeo acima estaria correto se:
  1. Usássemos o ouro (ou qualquer outro metal) como unidade de valor, isto é, como moeda, meio de troca exclusivo; e

  2. Todas a reservas do mundo (me refiro ao universo) desse metal estivessem esgotadas e não usássemos nenhum outro metal, ao contrário dos tempos de Pitágoras, como a prata, bronze, cobre ou papel como meio circulante, tal qual se faz hoje, tendo-se, então uma oferta absolutamente fixa do meio de troca, a moeda.
Assumindo essas duas premissas, o tipo do vídeo está certo. Mas nesse caso, como nos tempos de Pitágoras, não precisaríamos de bancos. Também não existiria inflação, ao contrário dos tempos de Pitágoras, onde se podia, ainda, buscar por mais ouro, seja por pilhagem de outras cidades, impérios, etc., ou pela exploração de minas.

Mas ainda existiria um problema, o qual no vídeo acima não é relatado: a criação de valor, a mais valia.

Ora, se o meio circulante tem oferta fixa e os indivíduos continuam a trabalhar, há deflação dada a maior oferta de valor em bens/serviços. Por isso que ninguém gosta de deflação: ou alguém topa receber cada vez menos pelo que faz?

E é isso que faz o papel moeda interessante: como sua oferta é controlada pelos BC's e seu valor é garantido por uma convenção (com força de lei), a coisa fica mais complicada - e muito mais em países que viveram surtos hiperinflacionários, como o caso da Alemanha na década de vinte do século XX ou o Brasil ao cabo do mesmo século: afinal, se a oferta de moeda (nesse caso, papel moeda) é abundante, o preço nominal de bens e serviços têm tendência à alta frente a moeda. E isto é acentuado quando um Estado não tem meios de honrar suas contas e, simplesmente, imprime cada vez mais dinheiro para pagar seus compromissos, levando à queda do seu valor frente aos bens produzidos num dado momento. A questão é ainda mais perniciosa porque o papel é um material potencialmente infinito. A Alemanha, no início do século XX, teve um surto inflacionário tal que calculava o preço das mercadorias pelo peso do dinheiro.

Os bancos centrais mundo afora têm o papel bastante específico de regular a oferta de dinheiro, ao fazê-lo conforme o crescimento econômico como um todo e pela oferta de crédito, regulando os bancos (não que seu papel seja, como se faz no Brasil, basicamente controlar a inflação naquele regime tacanho de metas de inflação, onde se usa como única ferramenta a taxa de juros referencial para controle da oferta de dinheiro).

A questão que o vídeo não dá conta,  seja na Espanha, Portugal, Grécia ou Brasil, além dos EUA, é termos o setor financeiro (des)regulado de modo a fazer a sociedade funcionar como um imenso mecanismo de transferência de valor, na forma de rendas, do setor produtivo ao financeiro.

Por sistema produtivo me refiro basicamente ao assalariado ou ao tipo que se acha muita coisa (se identificando com a burguesia) e, ainda assim, depende do basicamente do seu trabalho. As corporações ajustaram aos novos tempos e elas têm um ganho financeiro espetacular exatamente por operarem como bancos: financiar seus produtos é mais rentável que vendê-los diretamente ou a fazer outras patifarias: basta recordar idiotas na Sadia que, tempos atrás, resolveram fazer um dinheiro fácil no mercado de derivativos norte-americano poucos tempo antes da crise de 2008.

A mercadoria 'derivativo' é uma indecência (e não mudou muita coisa de 2008 pra cá, os bancos continuam a fazer pilantragens), a Sadia quase faliu, foi encampada pela Perdigão e ainda teve parvos a dizer que a Sadia tinha uma 'vocação financeira' (quando existia vários outros meios de ter ganhos financeiros, como, por exemplo, seu congêneres norte-americanos fazem: escorchando seus fornecedores via contratos fixos e metas elásticas, no qual o tipo se endivida com a empresa e, se não pagar, a empresa encampa a granja e arrenda ao seu antigo dono: a perfeição da desregulamentação financeira): uma empresa maior pode fazer o que bem entende, dada a assimetria de poder econômico, com seus fornecedores numa ponta e com os consumidores na outra.

Tendência à rapinagem todo mundo tem. A questão é que o sistema financeiro tem de ser rigorosamente regulado: desde os anos setenta, porém, (consistente com os EUA finalmente acabarem com conversibilidade ouro/dólar) ele vem sendo desregulado e se tem o que aí está: países inteiros a trabalhar para enriquecer banqueiros, desigualdade e concentração de renda cada vez maiores - onde o 1% mais rico no mundo detém mais riqueza que os 99% restantes - e um vídeo, perdoem a rudeza, estúpido como esse: trata a oferta monetária como fixa e põe a culpa nos bancos de maneira absolutamente infantil. Ainda mais quando a moeda, o referencial de valor, é feito da mesma matéria prima potencialmente infinita com a qual se faz seu congênere muito menos nobre e romantizado, mas talvez mais útil: o papel higiênico, presente em quase todos os banheiros do mundo a limpar cotidianamente a bunda das pessoas.

O problema presente é de ordem política: foi por ela que se permitiu a desregulação dos mercados e é por ela que se mudará tal quadro. E não por uma interpretação bisonha como esta bizarramente presente num trabalho audiovisual: será que atores, produtores, roteiristas, cenógrafos, toda aquela imensa equipe destinada a esse tipo de produção não percebeu a obtusidade? E ainda com o uso infame do nome de Pitágoras num contexto absurdo?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Por que falar de Vargas?

Em 2004, quando dos cinquenta anos da morte de Vargas, a AEPET, Associação dos engenheiros da Petrobrás, publicou um texto homenageando-o. As mesmas perseguições que Vargas e, depois, Juscelino sofreram estão presentes hoje, talvez de forma mais acintosa e grotesca.

Grotesca porque, apesar da concentração dos grupos de mídia e sua ação cuidadosamente orquestrada, visa em boa parte mascarar as enrascadas que a própria direita se envolve, como o fato de, por exemplo, Aécio Neves ter sido citado no Circo da Lava Jato e sequer ter sido investigado: ao contrário se preferiu 'investigar' uma canoa de lata de quatro mil reais de Lula e as cebolinhas cultivadas na horta do sítio que não é dele. Mas o que se sabe sobre a meia tonelada de pasta base de cocaína no helicóptero dos Perrela? E o terço do Aécio? A PF, o MPF e o Judiciário tomam partido por traficantes engravatados contra líderes trabalhistas? Ordenam prender um tipo que já está preso (Dirceu)?

A mídia, em conluio agentes públicos tresloucados, que vazam o que lhes convém para criar um factoide por dia, une o insulto à injúria: com perdas e danos. Ano a ano meios noticiosos alternativos crescem e ganham credibilidade, algo que na empresa oligopolista tradicional se dá inversamente: os outrora grandes jornais perdem 10% de suas tiragens ano a ano e ainda conseguem perder relevância inclusive na web dado seu afã na desinformação golpista. O mesmo sucede na mídia televisiva. Não se pode, porém, pensar que esse conluio está fadado ao fracasso. A perda de prestígio relativa os fazem tomar um curso de ação desesperado, com o judiciário não a seguir a pauta midiática, mas por vazamentos altamente seletivos e literariamente engenhosos, ordenar que se prenda alguém que, dias antes havia se oferecido voluntariamente para depor. Nem O Processo de Kakfa foi tão engenhoso.

Como disse um tipo arguto hoje: estamos no pior momento desde o AI-5. Pouco a pouco, nesse afã golpista, os direitos constitucionais estão a ser tolhidos sob as barbas do MPF e do Judiciário, que deveria ser seu defensor.