sexta-feira, 6 de maio de 2016

A desinteligência da Direita

Direita Burra

O meme acima explicita algo trivial: é sabido que na disputa política há uma propensão dos adversários a ignorar a pauta que se lhe opõe. O problema, porém, é que a Direita, em geral, sequer compreende a pauta da Esquerda.

Não se trata dessa propensão, porém: a Direita simplesmente não percebe sequer o contexto das manifestações estudantis.

E aí é que o meme mostra o ridículo da oposição binária nele imaginada: os estudantes paulistas não estão a protestar contra a PM, como acha o autor do meme postado hoje.

Os estudantes paulistas estão a protestar por uma educação de melhor qualidade e contra o acinte que é a máfia da merenda.

Mas não se ficará aqui na evidente desinteligência do meme, apenas. A oposição imaginada entre uma coisa e outra é mais significativa para o autor dessas linhas, pois a Direita não percebe a raiz de uma proposta, como as que giram ao redor das políticas acerca das drogas recreativas. Pensa numa oposição binária do tipo ‘polícia versus bandido’ ou ‘bom x mau’, basicamente como crianças as pensam.

A Direita é tão pobre que sequer se dá conta que a Esquerda tende — sempre — a ser favorável à liberação das drogas. Todas.  Aí, protestar contra o traficante, então, seria nonsense [na acepção de que é contrário ao bom senso — a Esquerda protesta pela liberação!]. A Direita, todavia, não se apercebe disto. Ignora por completo a bandeira da descriminalização das drogas simplesmente por não compreendê-la.

Em termos bastante simples, o problema do tráfico de drogas é que ele simplesmente é invencível: nenhuma sociedade consegue vencê-lo. Para ser bem simples, citando a ideia de William Burroughs (seguramente o mais extremado dos beatniks): enquanto existir alguém disposto a usar, haverá alguém a vender. É inexorável.

Todas as sociedades humanas em todas as épocas conviveram com o uso de um ou outro tipo de droga. Nenhuma delas, nem as que tiveram ou têm o ideal da ascese como os cristãos calvinistas ou o islã wahabita atual dos sauditas, conseguiram bater a propensão humana ao uso de drogas recreativas — a recorrente importação ilegal de bebidas alcoólicas é sintomática do problema na Arábia Saudita.

O problema básico da droga é deixar a produção, distribuição e consumo criminalizados, levando pessoas inutilmente à prisão. E está é a bandeira clássica da Direita e sua única política.

Não há políticas diferentes, há apenas a canção de uma nota só: combate às drogas/tráfico ou guerra às drogas/tráfico. O que varia, sempre, é a tolerância da Direita com o narcotráfico, ora cresce, ora diminui.

Mesmo assim, entretanto, em uma boa quantidade de sociedades modernas, como Uruguai, Estados Unidos [no nível estadual] e uma boa quantidade de países europeus, o consumo é descriminalizado.

O problema, porém, é que a distribuição é criminalizada — e, por conseguinte, a produção com este fim —, embora a produção para consumo próprio já não o seja na maior parte dos casos.

A permanência da distribuição como crime, num mercado mundial que movimenta mais de um 1% da economia total ou cerca de 800 bilhões de dólares, serve exclusivamente para oxigenar as artérias do crime organizado em todo mundo.

E a face mais infame desta situação é a quantidade de pessoas, seja pela necessidade ou pelo desejo de status, que se envolvem nessa teia e acabam presas. É o que acontece com o vapor que começa a traficar menor de idade e, regra geral, termina morto em confrontos com a polícia antes dos vinte e cinco anos.  Ou com o caminhoneiro que, em vista de um ganho convidativo, acaba por transportar em seu veículo drogas e, terminando por ser preso, deixa desamparada a família da qual ele era o arrimo.

Evidente mostra do potencial desestruturador da atual situação da criminalização das drogas.

E nenhuma dessas atuações modifica o status quo. O grande traficante segue solto e, caso seja preso, outro imediatamente lhe substitui. E a infiltração nas estruturas políticas de poder pelo tráfico é bem conhecida, embora mascarada. A situação do México é salutar a esse respeito.

O caso do ‘helicoca’ com meia tonelada de pasta base de coca no Brasil é evidente. Um senador da República, Zezé Perrela do PTB, imbricado no tráfico e hipocritamente mascarado pelas estruturas de poder estabelecidas: pelo Judiciário de Federal, pela Polícia Federal e pela imprensa tradicional. Vale lembrar que nenhum envolvido está preso, não obstante o flagrante e o fato de ter sido mostrado ao público.

Documentário sobre o Helicoca:


Enfim, com a descriminalização todos ganham:

  • A sociedade em geral, pois cessará a maior fonte de renda do crime organizado, que financia toda sorte de atividades ilícitas;
  • a renda que antes ia para o crime, irá para o Estado na forma de tributos;
  • os tributos arrecadados podem ser usados na pesquisa científica, seja para descobrir uma cura ou tratamento eficaz para a dependência química, bem como remédios em outras áreas — o que já acontece com a maconha.
  • o problema de saúde pública comum nas grandes cidades causado pelo consumo do craque poderia ser combatido de forma mais eficaz;
  • não se perderiam tantos jovens para o crime organizado e a redução da violência urbana seria significativa.

 No Brasil a descriminalização está em curso, já não é mais crime consumir ou mesmo produzir a Cannabis para consumo próprio e existem manuais pela web que ensinam como se obter alguns remédios a partir dela.

A resposta da Direita, porém, continua forte apesar do avanço da descriminalização. E o resultado dela nos EUA, México e Afeganistão, por exemplo, são claros:

  • Os Estados Unidos são os principais consumidores de cocaína e metanfetamina do mundo, onde em quase todos os estados quase toda distribuição criminalizada (salvo a Cannabis em alguns estados);
  •  O México é o principal fornecedor de entorpecentes para os EUA, onde os cartéis põe o norte do país em permanente estado de guerra civil (para se ter uma ideia do poder de corrupção do tráfico, o fundador dos grandes cartéis no México nos anos oitenta era um diretor da PF mexicana) e a caça dos grandes traficantes é inócua dada a atividade ser hierarquizada — El Chapo Guzmán que o diga — e também pela sua força de atração numa sociedade altamente excludente;
  • o Afeganistão é o maior produtor de heroína de mundo (em torno de 80% a 90% do total — o México tem conseguido aumentar) e a  sua renda financia o terrorismo internacional. Se produção/distribuição da heroína fosse prática legal na Europa e Rússia — maior consumidor mundial de heroína, com mais de um milhão de usuários —, os terroristas perderiam a fonte de renda, logo a sua força. Sem mencionar o impacto sobre a saúde pública.

O uso das drogas recreativas é um fenômeno complexo, com uma multiplicidade de efeitos embora tenha uma causa relativamente simples. A percepção da Direita, porém, é míope acerca de quase todos os seus efeitos. Apenas enfoca o fenômeno pelo prisma da coerção, da eliminação de algo que é inerente à natureza das sociedades humanas sem qualquer esforço de compreensão aprofundado.

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