quarta-feira, 25 de maio de 2016

Definição: ideologia - acepção do materialismo histórico

O conceito de ideologia está diretamente relacionado ao desenvolvimento do marxismo, seja como teoria, seja como práxis política efetiva. Daí que, para colocar uma definição concisa e dentro do contexto do desenvolvimento do marxismo, preferi traduzir a definição presente no Dicionário histórico do marxismo.

No Manifesto Comunista, Marx escreve “As ideias da classe dominante em todas as épocas são as ideais dominantes”, e isso é o aspecto chave da sua teoria da ideologia. Para Marx a ideologia é, ao mesmo tempo, uma visão distorcida da realidade e uma visão que serve aos interesses da classe dominante. A teoria marxista da ideologia desenvolvida em seus escritos permaneceu consistente com a noção de que a ideologia envolve uma percepção invertida da realidade, mas uma inversão que está no fim das contas enraizada na própria realidade. Por exemplo, a crítica da religião por Marx segue a visão de Ludwig Feuerbach de que a consciência religiosa inverte a realidade quando diz que Deus criou o homem, porque, na realidade, Deus e a religião são constructos humanos. Entretanto, Marx vai além de Feuerbach na busca da causa profunda da consciência religiosa, a qual ele diz estar num mundo onde as pessoas são infelizes, irrealizadas e oprimidas e procuram conforto na religião. Então o problema não consiste apenas de falsas ideias que podem ser combatidas com verdadeiras, mas uma realidade deficiente que produz falsas ideias: então a realidade precisar ser alterada de modo a mudar tais ideias.

Marx, com sua perspectiva dialética, identifica contradições na realidade, no sistema econômico, por exemplo, as quais ficam obscurecidas por ideias distorcidas, e tais distorções ideológicas que em geral servem aos interesses da classe dominante, não podem ser eliminadas apenas por meros contra-argumentos, mas unicamente pela resolução das contradições reais do mundo que deram origem a elas. Em seus escritos tardios sobre o capitalismo, Marx discute como o mercado dá aparência de um sistema livre e igualitário, com trabalhadores livres para venderem sua força de trabalho e a igualdade entre homens e mulheres. A ideologia burguesa com seu enfoque sobre a liberdade, direitos e propriedade reflete essa aparência distorcida. Sob a superfície de um sistema de troca, entretanto, está a verdade da desigualdade e da falta de liberdade, quando a mais valia é gerada pela força de trabalho de proletários explorados por seus patrões capitalistas e negado o seu acesso aos meios de produção. Para Marx ideologia é um termo empregado crítica e negativamente.

Marxistas tardios desenvolveram uma visão mais neutra da ideologia como um termo para a totalidade de formas da consciência social. Em outras palavras, a ideologia passou a ser vista por marxistas como Georgi Plekhanov como parte da superestrutura, como ideias refletindo as condições da base material. Eduard Bernstein descreve o marxismo em si como uma ideologia sem em nenhum momento tecer com isto um comentário crítico ou negativo; E Vladimir Ilich Lênin desenvolve uma visão da ideologia como significando a consciência política de classe, assim há uma ideologia proletária oposta a uma ideologia burguesa. Georg Lukács segue Lênin e descreve o marxismo como ‘a expressão ideológica do proletariado’, também percebendo a ideologia como um campo principal da luta entre a burguesia e o proletariado. Antonio Gramsci desenvolveu uma teoria de ideologia ligando-a ainda mais à sua noção de hegemonia e a luta por dominação entre as classes. Para Gramsci o domínio da classe dominante é alcançado tanto pela ideologia quanto pela força e a ideologia é uma completa concepção de mundo que permeia todos os aspectos da vida. Essa visão traz muito mais significação ao papel dos intelectuais e das instituições ideológicas, como igrejas e escolas. Gramsci, especificamente, identificou quatro níveis da ideologia: filosofia, religião, senso comum e folclore. Louis Althusser fez distinções entre a teoria da ideologia em geral que diz respeito à ideologia como uma força de coesão na sociedade e a teoria de ideologias particulares as quais dizem respeito à ideologia como um meio para se atingir a dominação por uma única classe. Ele vê a ideologia como um nível relativamente autônomo na sociedade, parte da superestrutura, refletindo interesses, fatores sociais e econômicos. Althusser contrasta a ideologia com a ciência, esta última como uma prática autônoma que busca unicamente a verdade e o conhecimento; e o marxismo ele divide nos primeiros escritos ideológicos e nos escritos científicos tardios, existindo o que ele chama de ‘ruptura epistemológica’ a separar os dois períodos.

Traduzido de WALKER, D. & GRAY, D. Historical dictionary of marxism.  Lanham, Maryland: The Scarecrow Press. 2007, pp. 148-9

Embora a definição acima seja bastante sucinta, ela consegue relacionar bem o desenvolvimento do pensamento marxista com o termo ora definido. Porém, é recomendável para uma percepção mais ampla a leitura de textos introdutórios, como o ‘O que é ideologia’, da professora Marilena Chauí, parte da Coleção Primeiros Passos editado pela editora Brasiliense.

Também da professora Chauí se pode fazer uma leitura bastante proveitosa do “Cultura e Democracia, o discurso competente e outras falas”, editado pela Ed. Moderna, com ressalvas à abordagem que nele se faz da 'objetividade'.

O excelente ‘Ideologia, uma introdução’ de Terry Eagleton é assaz recomendável (São Paulo, Ed. Unesp, 1997).

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