terça-feira, 28 de junho de 2016

Aeroporto de Istambul, Turquia, 28 de junho de 2016

Recep Tayyip Erdogan, culpado pelo atentado no aeroporto de Istambul?

Hoje se consumou o quarto ataque terrorista em Istambul neste 2016, o segundo de junho, com 36 mortos e  147 feridos. Antes deste, na mesma Istambul:

  • 12/01: um atentado no bairro histórico de Sultanahmet, ceifando a vida de 13 pessoas (todos eles estrangeiros) e ferindo 14;
  • 19/03: no distrito de Beyoğlu um atentado causou ao menos 5 mortes e feriu 36 pessoas;
  • 07/06: 12 pessoas morrem e outras 51 ficam feridas num atentado no centro de Istambul.

Nos três primeiros o Estado Islâmico (EI) assumiu a autoria. O governo turco suspeita do EI neste último também. Há ainda mais nove outros atentados, todos eles exceto um, são de autoria do TAK (Falcões da liberdade do Curdistão) ou do PKK (Partido dos trabalhadores do Curdistão).  Apenas em um deles se suspeita da ação do EI:

  • 17/02, Ancara; vítimas: 30 mortos, 60 feridos; autoria: TAK.
  • 18/02, Diyarbakır; vítimas: 6 mortos, um ferido; autoria: PKK.
  • 13/03, Ancara; vítimas: 37 mortos, 127 feridos; autoria: TAK.
  • 31/03, Diyarbakır; vítimas: 7 mortos, 27 feridos;  autoria: PKK.
  • 27/04, Brusa; vítimas: um morto, 13 feridos; autoria: TAK.
  • 1º/05, Gaziantep; vítimas: 2 mortos, 22 feridos ; autoria: ? [suspeita-se do EI].
  • 10/05, Diyarbakır; vítimas: 3 mortos, 45 feridos; autoria: PKK.
  • 12/05, Dürümlü; vítimas: 16 mortos, 23 feridos; autoria: PKK.
  • 08/06, Midyat; vítimas: 5 mortos, 30 feridos; autoria: PKK.

Em menos de seis meses foram 176 mortos e 596 feridos. E, pela imprensa internacional, se tem repercutido duas ideias estapafúrdias: a primeira é a reprodução da justificativa do presidente turco segundo a qual tais ataques poderiam acontecer em qualquer lugar, o que é inteiramente falso; a segunda é de que — e esse é o discurso padrão da imprensa internacional — a Turquia ao mesmo tempo que luta contra o EI, luta contra al-Assad na Síria e, também, contra os curdos internamente. Parcialmente falso.

A Turquia apoiou descaradamente a ‘oposição síria’, sem fazer distinção do que se chama genericamente de ‘oposição moderada’, Frente al-Nusra ou EI. Um exemplo sangrentamente claro disso foi o contrabando sistemático realizado pelos turcos do petróleo oriundo das refinarias controladas pelo EI na Síria e no Iraque.

Outro exemplo claro foi a destruição de centenas de caminhões tanque pela Rússia que contrabandeavam petróleo sírio à Turquia — financiando com isto as atividades do EI. Logo a seguir, Erdogan deu ordem para que se abatessem aviões russos envolvidos na campanha síria — provavelmente como represália —, o que de fato aconteceu aos vinte e quatro de novembro de 2015, quando um bombardeiro tático Sukhoi Su-24 foi abatido (sem advertência) por um caça F-16 curdo próximo às fronteiras turca e síria.

Foi um desastre: gerou uma crise política sem precedentes entre a Turquia e a Rússia e, pior, minou qualquer possibilidade de cooperação entre russos e a Otan no teatro sírio, além do desnecessário desgaste entre turcos e seus demais parceiros na Aliança Atlântica.

Desgaste que começou poucos dias antes quando rebeldes de todas as cepas fugiam das forças curdas e de al-Assad apoiadas pelos cossacos em direção ao território turco. Ao fugirem, raspavam suas barbas para poderem entrar na Turquia e passarem desapercebidamente entre a população turca.

Então, o alegado papel turco de combater o EI ou gente como a Frente al-Nusra (ligada à al-Qaeda) é completamente falso. E esses dois grupos extremistas combatem dentro do território sírio e iraquiano não apenas as forças de al-Assad (que Erdogan tem grande interesse em derrubar) ou do governo iraquiano, mas também e com a toda sorte de abusos, os curdos — com o apoio logístico e financeiro turco, que, ademais, também combate os curdos.

E estes são combatidos com uma ferocidade ainda maior porque dentro do Curdistão sírio cerca de 30% dos combatentes são mulheres, organizadas nas YPJ’s.  Isto aumenta a intensidade dos combates mas, se a derrota se mostra, os terroristas se põem em fuga desesperada diante da possibilidade de se renderem a mulheres: algo insuportável ao preconceito misógino do EI e da al-Nusra.

No decorrer do ano de 2015 até agora, fins de junho de 2016, houve uma acentuada piora da posição estratégica do EI e dos turcos, porque incapazes de providenciarem o mesmo apoio logístico e financiamento via contrabando de petróleo dado que a infraestrutura existente foi em grande parte capturada ou destruída, seja pelas forças de al-Assad, pela Rússia ou pelos curdos, ao norte da Síria.

A fragilidade turca se mostra em dois campos antagônicos: abrigou em seu seio militantes extremistas defensores de uma versão aberrantemente conservadora do Islã: a sua versão wahabita (EI). Acontece que, não obstante os esforços de Erdogan de minar o Estado Laico [proceder pelo qual ele chegou a ser preso em 1999 por incitar o ódio religioso quando era prefeito de Istambul], a Turquia ainda é secular e Istambul, a antiga Constantinopla, é uma cidade altamente multicultural e cosmopolita: tudo o que o EI não tolera e daí tomar esta cidade como alvo preferencial.

O outro campo antagônico sempre esteve presente na sociedade turca: a minoria curda. São 18% da população turca (14 milhões de pessoas) e, para o azar do governo turco, são maioria em toda parte oriental do território turco, notadamente próximo à fronteira síria a qual, no momento presente, está controlada basicamente pelos curdos sírios: ora, ao apoiar descaradamente o EI, o governo Erdogan nada mais fez que recrudescer um conflito que se alastra há décadas.  E o controle do outro lado da fronteira sul turca está sob domínio curdo, os quais seguramente desejam um Curdistão unificado.  

Os oito ataques terroristas curdos e os cinco de autoria do EI não são resultados do ‘terrorismo internacional’ o segundo o qual ‘qualquer país’ poderia ser vítima como quer fazer crer Erdogan. É resultante dessa política esquizofrênica perpetrada pelo atual governo turco.

Talvez o pedido de desculpas de Erdogan à Rússia pela derrubada do bombardeiro Su-24 e a consequente morte do piloto russo seja motivado pela necessidade de uma mudança de rumo na política externa: somente com os russos, aliados dos curdos na Síria, será possível estabelecer algum tipo de diálogo. Para isso funcionar, porém, a Turquia deverá renunciar a qualquer protagonismo na Síria e combater os inúmeros terroristas do EI já dentro de seu território. 

Mudança tardia talvez, antes, porém, que a escalada dos atentados leve a guerra civil síria para o Curdistão Turco.

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