segunda-feira, 22 de maio de 2017

O fim do programa ‘de braços abertos’

Ontem, vinte um de maio, João Agripino Dória, com o seu focinho de expressão vagamente humana e altamente arrogante, anuncia — sem atinar à estupidez da ação — que o programa ‘De braços abertos’ estava, a partir daquele momento, terminado.

Aproveita o ensejo, associado ao governador Alckmin, para dispersar a cracolândia usando a Guarda Civil Metropolitana [GCM] e a PM — com direito a cavalaria e tropa de choque  — o que resultou na prisão de trinta e oito pessoas em andrajos e na fuga desesperada da maior parte delas.

Imagine chegar numa multidão de mendigos numa manhã chuvosa e fria, atirando balas de borracha e tentando cercá-los e prendê-los? Em plena Virada Cultural.

Eles saíram em fuga desabalada tentando carregar os farrapos que têm. E é claro que ficaram furiosos com a doçura e afetuosidade do poder público: ripostaram destruindo todos os carros que viam pela frente durante a fuga nas ruas adjacentes, quebrando vidros, arrombando e roubando tudo que tinha dentro; e continuaram invadindo bares, lanchonetes para roubá-las como num arrastão: atacando caixas registradoras e o que se podia levar de comer.

Depois reagruparam-se aqui, acolá, em vários pontos dos arredores e voltaram a usar a droga.

***

Esse roteiro de dispersão violenta, prisões insignificantes, formação de pequenos grupos (ou minicracolândias) e retorno ao uso da droga aconteceu em todas as ocasiões que a prefeitura e o estado resolveram combater os usuários com violência policial, como se o problema fosse de segurança e não de saúde pública.

E não demorou mais de uma ou duas semanas para que eles voltassem a se reagrupar exatamente no mesmo local.

Mas o Sr. Agripino assegura triunfalmente que a cracolândia acabou.

***
Não percebe como sua abordagem é inócua. E, aumentando ridículo da situação, diz que vai recuperar a área, com massivo policiamento e colocar câmeras de monitoramento, garantindo que usuários de crack fiquem longe da vista (o que, aparentemente, é o único problema para ele), ao mesmo tempo que garante que começará — na verdade diz que começou, pois já ontem derrubou um muro [!!!] — a reurbanização do local.

Como se fosse possível começar obras de um dia para outro e não houvesse um tempo necessário à maturação de projetos de reurbanização.

E a demolição das construções na área vai piorar o problema, pois deixará o local ainda mais ermo e propício ao ajuntamento de usuários que normalmente se vê por lá. E a reurbanização das áreas do centro de São Paulo segue a passo assaz moroso, como se nota pelas imagens abaixo, do Google Street View, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2016. A área é contígua à Estação Júlio Prestes/Sala São Paulo. E, em seis anos, tudo de 'novo' na área foram demolições e construção de dois estacionamentos no lugar dos construções desmantelados.

Dá para notar na sequência das imagens que os arredores eram mais vivos em 2010, com menos lixo no entorno ainda com a presença de carros e alguma vida na rua Helvétia.  

Na foto de 2011, já se nota a presença dos usuários e os sinais de sua concentração (lixo espalhado de forma característica).

Aí o arquivo do Google Street View avança três anos, fevereiro de 2014. As construções foram demolidas e se tem uma franca aglomeração, o programa de braços abertos já estava em curso (a portaria municipal que o institui é de dezembro de 2013).

Em maio de 2014 parece ter existido uma ação de dispersão similar à de ontem; porém, navegando-se pelo Street View dá para notar que há a presença de usuários.

Em agosto de 2014 há novamente a aglomeração de barracas defronte ao terreno e a presença de viaturas da GCM. Em dezembro a situação é praticamente a mesma, há um prédio do Programa Recomeço aberto, bem com tendas do mesmo programa adiante (basta navegar pelo Street View).


A imagem de dezembro de 2016 só é possível de ser capturada a partir da Alameda Cleveland, outras construções foram demolidas, as primeiras bem como as segundas deram lugar a estacionamentos e nada mais; as barracas parecem organizadas com certa ordem. Navegando entre as imagens do Street View dá pra notar que a prefeitura cuidava regularmente da limpeza do local, o que não tem acontecido na gestão do sr. Agripino, dada a vasta quantidade de lixo retirada no domingo.